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Desafios climáticos na produção de leite

A produção de leite é uma atividade de extrema importância para o setor agropecuário, porém, enfrenta crescentes desafios climáticos que afetam significativamente o bem-estar das vacas, a qualidade e volume de leite produzido.

Com o aumento da produção, os animais se tornam mais sensíveis ao estresse calórico, levando a mudanças comportamentais e redução da eficiência reprodutiva. Além disso, o estresse térmico durante os períodos mais quentes resulta em diminuição da produção de leite e alterações na composição do produto final, acarretando perdas econômicas para os produtores. 

Para mitigar esses efeitos negativos, torna-se essencial adotar estratégias adequadas visando o bem-estar animal e a sustentabilidade da atividade leiteira.

Nesse texto discutiremos os principais desafios enfrentados em relação ao bem-estar, reprodução e na qualidade do leite, ocasionados pelas variações climáticas, enfatizando os efeitos deletérios que o estresse térmico causa aos animais e aos resultados futuros e também trazendo estratégias que contribuem para minimizar tais impactos. 

 

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Desafios no bem-estar

À medida que o nível da produção de leite aumenta, também aumenta a sensibilidade e vulnerabilidade ao estresse calórico, a zona termoneutra de uma vaca especializada varia de -5º a 25ºC. Isso é devido à alta atividade metabólica para a produção de leite, portanto, manter o equilíbrio térmico sob altas temperaturas é ainda mais difícil para esses animais.

Na tentativa de regular a temperatura corporal, as vacas têm mudanças comportamentais, permanecem mais tempo em estação, aumentando a superfície de contato com o ambiente para trocas de calor. Além disso, existem observações comportamentais que nos auxilia a identificar facilmente o conforto térmico dos animais, e dentre esses sinais, podemos citar: 

  • Diminuição do consumo de matéria seca. 
  • Aumentam o consumo de água. 
  • Animal ofegante, com aumento da transpiração e salivação. 
  • Aumento da frequência respiratória e cardíaca.

Vaca leiteira em estresse térmico pelo calor

Vaca leiteira em estresse térmico pelo calor. Note: boca aberta, língua para fora e aumento de salivação. Fonte: Acervo Rehagro.

Tais parâmetros auxiliam a reconhecer mais facilmente o conforto térmico das vacas, por serem facilmente identificáveis. Para animais a pasto, essa mudança de comportamento é ainda mais visível, devido à procura de sombra nos períodos mais quentes do dia, reduzindo o tempo de pastejo.

Essa mudança de comportamento aumenta o gasto energético e, com o menor consumo de alimento, a disponibilidade de energia é menor, consequentemente, diminuindo a produção de leite. 

Passar mais tempo em estação também corrobora para diminuição da produção, pois vacas deitadas possuem uma maior circulação de sangue na glândula mamária, sendo que para a produção de 1 litro de leite é necessário a circulação de cerca de 500 litros de sangue na glândula mamária. 

Além disso, problemas de saúde são mais frequentes nesse momento desafiador que a vaca passa, como problemas de casco, devido ao tempo excessivo em estação, acidose, devido ao consumo desbalanceado da dieta, entre outros.

Dito isso, alguns outros fatores podem potencializar o estresse por calor. A disponibilidade de água é um exemplo, como dito anteriormente, vacas em estresse térmico bebem mais água, assim, precisam de um espaço de bebedouro adequado para a quantidade de animais e fornecimento de água de qualidade

Outro ponto importante é a divisão de lotes, lotes superlotados, além de dificultar a troca de calor desses animais com o ambiente, também prejudica o acesso à água e alimento dos animais mais submissos. 

Além de elevadas temperaturas, temos também outras variações climáticas que afetam o bem-estar dos animais, como a umidade, a qual estando elevada pode potencializar o estresse térmico por dificultar o resfriamento natural dos animais.

Da mesma forma, temos a questão da precipitação, onde em períodos de chuvas excessivas o ambiente se torna mais úmido e com maior probabilidade da formação de lama, o que pode ser desconfortável para a vaca, seja por dificultar o acesso ao alimento e água ou para possibilitar o descanso, além de predispor a problemas de saúde e impactar na produção de leite. 

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Desafios na reprodução

Grande parte das fazendas leiteiras do Brasil sofrem com a reprodução em épocas mais quentes, principalmente aquelas com animais mais especializados, como o gado holandês, que são mais sensíveis ao calor. 

Na questão hormonal, estudos relatam uma baixa concentração plasmática de estradiol em vacas submetidas ao estresse térmico. Esta falta de estradiol prejudica a síntese de GnRH pelo eixo Hipotálamo-hipofisário, consequentemente a síntese de LH e FSH é prejudicada. 

Essa desregulação hormonal faz com que as vacas tenham uma manifestação e duração do cio menores, com uma menor taxa de ovulação e qualidade folicular.

Além do desequilíbrio hormonal, em vacas submetidas ao estresse térmico, há uma redução no fluxo sanguíneo uterino, diminuindo a troca de calor e consequentemente aumentando a temperatura do meio uterino. Essas mudanças inibem o desenvolvimento embrionário e impedem o sucesso de inseminações, além de aumentar a taxa de perda embrionária.

É importante lembrar da importância de estarmos atentos e conhecer os impactos que o estresse térmico em multíparas estão no período seco ou em nulíparas gestantes pode causar no desenvolvimento da bezerra ainda em gestação. 

Os estudos já demonstram que bezerros que se desenvolvem em útero de mães sob estresse térmico sofrem por efeitos negativos na saúde, desempenho na produção e reprodução desse animal no futuro, e dentre eles podemos citar:

  • Estresse térmico no período seco acarretou menor tempo de gestação (entre 4 a 5 dias). 
  • Bezerro com menor peso ao nascer e menor peso na desmama
  • Bezerros com metabolismo energético alterado em relação com bezerros nascidos de mães resfriadas. 
  • Devido à alteração no metabolismo energético, bezerros oriundos de estresse térmico, apresentaram menor estatura e uma maior deposição de gordura. 
  • Bezerros desviam energia para tecidos periféricos para maior acúmulo de gordura. 
  • Bezerros apresentam uma redução nas proteínas plasmáticas circulantes quando sofrem estresse térmico nos primeiros 28 dias de vida, sendo evidenciada pela menor eficiência de absorção de IgG do colostro
  • Baixa taxa de proliferação de linfócitos e monócitos, conferindo uma resposta imune deprimida. 
  • Novilhas que sofreram estresse térmico in útero sofrem desvantagens desde a concepção até a lactação, necessitando de um número maior de serviços até a prenhez. 
  • Novilhas nascidas de vacas que sofreram estresse térmico produziram menos leite na primeira lactação, ou seja, elas parecem nascer “programadas a ter menor produção de leite em toda sua vida. 

Além disso, estudos mais recentes apontaram evidências de que esse problema não afeta apenas as filhas de vacas que sofreram estresse térmico, mas também as netas. O que demonstra que mesmo havendo o resfriando e promoção de conforto térmico dos animais que sofreram estresse térmico in útero, possa haver impactos ainda nas próximas gerações.

Ilustraçã dos efeitos do estresse térmico no pré-parto na produtividade das vacas, suas filhas e netas

Figura demonstrando os efeitos do estresse térmico no pré-parto na produtividade das vacas, suas filhas e netas. Fonte: Adaptado de Oullet et al., 2020

Já nas vacas pós-parto pode-se observar um aumento de doenças puerperais, como retenção de placenta, metrite e cetose, e anestro no verão. 

Isso ocorre devido ao prolongado período de balanço energético negativo (BEN), período que se caracteriza pela deficiência do aporte energético, devido ao grande gasto energético e reduzido consumo de alimento para suprir essa demanda.

Esse fato somado com a diminuição do consumo de alimento que já é causado pelo estresse térmico, além de aumentar as chances de doenças pós-parto, diminuem o pico de lactação dessas vacas, prejudicando toda aquela lactação.  

Desafios na qualidade do leite

No verão a produção/vaca/dia tende a diminuir significativamente, isso se dá pelo desvio energético para a regulação térmica na qual falamos anteriormente. Entretanto, não apenas o volume produzido é alterado pelo estresse térmico, temos, também, alterações na composição do leite, como diminuição da porcentagem de gordura e proteína. 

A diminuição da gordura do leite se deve pelas mudanças significativas nos perfis de triacilglicerídeos (TAG) e lipídeos polares.

Já com relação à proteína, vacas com estresse térmico sofrem redução no teor de proteína no leite, devido ao catabolismo muscular ser maior, ocasionando maior concentração de nitrogênio ureico, disponibilizando maior distribuição de nitrogênio proteico para a ureia e causando uma diminuição da capacidade da síntese proteica das células da glândula mamária, reduzindo o teor de caseína.

Essa queda dos sólidos do leite, juntamente com diminuição da produção, leva grandes perda econômicas para uma fazenda. 

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Estratégias para redução dos efeitos negativos das alterações climáticas

As variações climáticas trouxerem e ainda trará muitos prejuízos a pecuária leiteira, entretanto podemos minimizar estes prejuízos com algumas estratégias.

Considerada uma boa alternativa para minimizar os problemas temos o investimento em instalações a fim de manter os animais confinados, como é o caso de sistema de free stall ou compost barns, onde essas instalações detenham de acesso a ventiladores e aspersores e quando bem manejadas contribuem reduzindo os impactos das mudanças climáticas. 

Estratégias mais acessíveis podem ser tomadas para minimizar estes efeitos, como:

  • Resfriamento a partir da aspersão e ventilação

– Aspersão.

    • Evaporação – gotas pequenas e com alta preção;
      • A água não entra em contato com a pele
      • Mais recomendado para linha de cocho – molha menos o local 
    • Direto – gotas grandes e com baixa pressão;
      • A água entra em contato com a pele 
      • Mais recomendado para sala de espera – resfriamento mais rápido das vacas 
    • Tempo de aspersão inicial indicada é de 3-60 segundos a cada 5 minutos.

– Ventilação.

    • Tanto na linha de cocho, quanto sala de espera.
    • Recomendado a velocidade do vento de aproximadamente 2 metros por segundo.
  • Fornecimento em local adequado de área de sombra natural ou artificial (sombrite) para descanso dos animais em casos de animais criados em pastos ou confinados em piquetes. 
    • Recomendado em torno de 5 m2 por animal. 
  • Sombreamento na área de cocho no caso de sistemas a pasto. 
  • Fornecimento de água de qualidade e limpa

Considerações finais

Diante disso, para minimizar os efeitos negativos do clima na produção de leite e sucesso da atividade, é importante que sejam adotadas práticas de manejo adequadas, onde se inclui o fornecimento de instalações apropriadas que facilitem o controle de temperatura e umidade, que o acesso à água e alimentos seja garantido além de sempre monitorar a saúde e indicadores de bem-estar dos animais. 

Investir na promoção de conforto dos animais independente da condição climática no momento é uma forma de assegurar que os animais terão condições ideais para expressarem todo seu potencial produtivo, assegurando o bom desempenho e eficiência do negócio.

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Laryssa Mendonça

Julia Mattoso - Equipe Leite Rehagro

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