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Percevejos no sistema de produção de grãos

Com o aumento da adoção do sistema de plantio direto favorece o desenvolvimento de percevejos que tem estreita associação com o solo e os restos da cultura durante certos períodos do ano. O cultivo de plantas hospedeiras em sequência, tais como soja, milho e o trigo favorece o desenvolvimento de populações de percevejos. Percevejos do gênero Dichelops (Diceraeus) são importantes pragas da soja e mais recentemente na cultura do milho, podendo causar grandes danos em seu desenvolvimento inicial.

A capacidade de reprodução a campo é estimada em 200 ovos por fêmea de percevejo.
Em três semanas o percevejo passa pelas fases de incubação dos ovos e chega ao quarto e quinto ínstar da ninfa que a apresenta capacidade de danos equivalentes ao dos adultos.

Durante o outono, o inverno e o início da primavera os percevejos passam por períodos curtos de dormência, mas não entram em diapausa. Alimentam-se de trigo, canola, nabo, aveia e várias plantas daninhas hospedeiras presentes na lavoura. Porém, raramente desenvolvem ovários, realizam oviposição ou estabelecem colônias de ninfas, nos meses de outono e inverno.

Percevejos

Fonte: COAMO

Percevejo marrom – Euschistus heros

Na soja, o percevejo-marrom normalmente completa três gerações. Durante o final do verão e o início do outono. Durante o verão, o percevejo-marrom pode ser encontrado se alimentando da erva daninha conhecida por leiteiro ou amendoim-bravo, Euphorbia heterophylla L.. E. heros pode se alimentar, mas não se reproduz, em carrapicho-de-carneiro, Acanthospermum hispidum DC. É interessante salientar que, nessa erva daninha, esse típico sugador de sementes alimenta-se das hastes da planta. No outono, E. heros inicia a procura por abrigos sob a palhada, onde permanece até o próximo verão. Durante esse tempo, o percevejo acumula lipídios e não se alimenta, permanecendo num estado de hibernação parcial. 

O adulto de E. heros (Figura 1) apresenta coloração marrom escura, com dois prolongamentos laterais do pronoto, em forma de espinhos. A longevidade média do adulto é de 116 dias. Os ovos são depositados em pequenas massas de cor amarela, normalmente com 5-8 ovos por massa, apresentando mancha rósea, próximo à eclosão das ninfas. Os ovos são colocados, principalmente, nas folhas ou nas vagens de soja. As ninfas recém-eclodidas medem cerca de 1,3 mm e têm o corpo alaranjado e a cabeça preta. As ninfas maiores (terceiro ao quinto ínstar) apresentam coloração que pode variar de cinza a marrom. Apesar de iniciarem a alimentação no segundo ínstar, as ninfas do percevejo-marrom causam danos às sementes apenas a partir do terceiro ínstar, quando atingem tamanho médio de 3,63 mm.

Figura 1. Ciclo de vida Euschistus heros.

Percevejos

Fonte: G.L.M. Rosa

Percevejo barriga verde – Dichelops melacanthus

Espécies do gênero Dichelops são exclusivamente neotropicais e encontram-se distribuídos por diversos países da América do Sul. D. melacanthus é frequentemente observada no Brasil. Segundo Grazia (1978), essa espécie é muito semelhante a D. furcatus, que tem sido observada em regiões brasileiras produtoras de soja, além de ser semelhante também a D. phoenix, que tem poucos registros no Brasil.

O percevejo barriga-verde D. melacanthus, previamente relatado como uma praga da soja alimentando-se das vagens, pode se alimentar de milho, trigo, aveia-preta e triticale. Há registros também da ocorrência em plantas não cultivadas, como trapoeraba, crotalaria e capim braquiária. Após a colheita da soja, o percevejo-barriga-verde permanece no solo sob restos culturais, alimentando-se de plantas de milho e trigo cultivadas em sistema de semeadura direta. Nessas áreas, os percevejos encontram abrigo (palhada) e alimento (sementes maduras caídas no solo) e conseguem sobreviver, diferentemente do que ocorre em áreas sob cultivo convencional, onde os percevejos são deslocados dos abrigos e mortos pela aração.

Os adultos de D. furcatus e D. melacanthus medem de 9 mm a 11 mm e sua coloração varia entre castanho-amarelado e acinzentado, apresentando o abdômen verde. Os ovos são verde-claros, ovoides, dispostos em grupos de tamanho variável, os quais são formados por três ou mais fileiras mais ou menos definidas. As ninfas apresentam geralmente coloração marrom-acinzentada na região dorsal e verde na abdominal. Podem ser confundidas com as ninfas de E. heros, mas podem ser diferenciadas pelas jugas bifurcadas e agudas e, pela coloração verde do abdômen. Esse inseto foi constatado como praga de início de ciclo nas culturas de trigo e de milho.

Percevejos

Figura 3. Flutuação populacional de Dichelops melacanthus, na sucessão cultural soja-milho, submetida a diferentes inseticidas via tratamento de sementes.

Fonte: Chiesa (2016)

Potencial de danos de percevejos na cultura da soja e do milho

No cerrado brasileiro, E. heros destaca-se como praga chave na cultura da soja, aumentando os custos de produção e diminuindo a qualidade e o rendimento de grãos. Adultos de E. heros quando presentes no final do estádio vegetativo (V8 não comprometem o rendimento de grãos de soja, independentemente da sua densidade populacional. A presença de adultos de E. heros na cultura da soja nos estádios R4 e R5 podem comprometer a produtividade de grãos e a qualidade de sementes de soja a partir de 2 percevejos m2.

Sementes de soja atacadas por P. guildinii tiveram os corpos de proteína completamente destruídos, sugerindo maior ação deletéria das suas enzimas salivares para os tecidos da semente, em comparação às outras espécies (E. heros, N. viridula e D. melacanthus). Também, provocou dano mais profundo nas sementes de soja, enquanto sementes atacadas por D. melacanthus apresentaram danos menos profundos (Tabela 1). Entretanto, o dano causado por P. guildinii não tem relação com o comprimento dos estiletes, pois tem aparelho bucal mais curto que N. viridula e E. heros. Porém, é possível que a área maior do canal alimentar de P. guildinii contribua para que esse percevejo ocasione maior área de dano nas sementes de soja, em comparação com as outras espécies.

Conclusão

Com a definição do potencial produtivo da cultura do milho, os estádios iniciais de desenvolvimento da planta tornam-se também um período crítico. Dessa forma, a ocorrência de condições ótimas nessas fases de desenvolvimento, como manutenção da área foliar da cultura é um fator importante para a sua produção. 

Ninfas médias, grandes e adultos de D. melacanthus têm grande potencial de causar dano em plantas de milho no estádio V1, bem como podem causar redução da massa seca da parte aérea da planta. Os estádios de desenvolvimento do milho V1, V3 e V5 são mais susceptíveis ao ataque de adultos de D. melacanthus em comparação ao estádio V7, podendo nestas condições afetar o rendimento de grãos da cultura.

Figura 4. Danos de percevejo Dichelops melacanthus na cultura do milho.

Nesse sentido o controle do percevejo no sistema de produção de grãos faz-se necessário afim de reduzir a população de plantas hospedeiras e compreender o hábito de migração, para que seja realizado o controle químico na época correta.

Referências Bibliográficas

  • CHIESA, Ana Carolina Montenegro et al . Tratamento de sementes para manejo do percevejo-barriga-verde na cultura de soja e milho em sucessão. Pesq. agropec. bras., Brasília ,  v. 51, n. 4, p. 301-308, Apr. 2016. https://doi.org/10.1590/S0100-204X2016000400002.
  • Clara Beatriz Hoffmann-Campo, Beatriz Spalding CorrêaFerreira, Flavio Moscardi. Soja: manejo integrado de insetos e outros artrópodes-praga – Brasília, DF: Embrapa, 2012.

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