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Fornecimento de soro oral: como auxiliar no tratamento de bezerras?

Fornecimento de soro oral: como auxiliar no tratamento de bezerras?
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Bezerras de todas as idades, quando doentes, apresentam, independente da patologia, alterações fisiológicas e de comportamento que dificultam sua recuperação. A principal alteração é a perda do apetite, com redução na ingestão tanto de água, quanto de alimentos. Com isso, ficam menos resistentes aos desafios. No caso da diarreia, a desidratação é ainda mais grave, pois à redução de consumo, soma-se grande perda de líquido nas fezes. O quadro 1 mostra a perda de água e nutrientes nas fezes de bezerros com diarreia.

Quadro 1. Excreção diária de constituintes fecais de bezerros sadios ou com diarreia (Adaptado de Wattiaux, 2000; Criação de novilhas)

soro oral 1
Na maioria das vezes, a morte de bezerros com diarreia não é devido à infecção, mas à desidratação. A partir desta observação, o soro oral torna-se fundamental. Ele irá fornecer não apenas o líquido, mas também diversos minerais e energia para que o animal possa se recuperar. Podem ser utilizadas formulações feitas na fazenda, como mostra o quadro abaixo, ou formulações comerciais.

Quadro 2.Fórmula para preparação de 4 litros de soro oral para bezerros:

Fonte: Antônio Ultimo de Carvalho e Elias Jorge Facury Filho – EV/UFMG

Bezerros desidratados apresentam diversas alterações metabólicas que precisam ser corrigidas para uma melhor recuperação. Assim, cada um dos ingredientes da formulação tem sua importância e todos devem ser fornecidos na quantidade indicada.

  • Bicarbonato de sódio: tem como objetivo reduzir o estado de acidose metabólica no qual se encontram bezerros doentes e sem apetite.
  • Glicose de milho: a principal função deste ingrediente é ser fonte de energia para o bezerro, que muitas vezes tem deficiência energética por estar ingerindo menor quantidade de alimento. Além disso, a glicose ajuda na absorção de água no intestino. É importante que se use glicose de milho (encontrada em lojas de sorveteiros), pois a substituição por açúcar pode ser muito prejudicial aos bezerros. Como os bezerros não conseguem digerir o açúcar, seu uso irá aumentar a perda de água ao invés de reduzir, além de não fornecer energia por não ser absorvido.
  • Sal comum: fonte de sódio, elemento importante na normalização da distribuição de água no organismo e na manutenção do equilíbrio ácido básico.
  • Cloreto de potássio: fonte de potássio, principalmente, que é importante na manutenção do equilíbrio ácido básico, assim como o sódio. A perda de potássio nos casos de diarreia é muito grande. Por ser um mineral que participa no transporte de oxigênio e gás carbônico no sangue e também na transmissão de impulsos nervosos, deve ser suplementado no soro.
  • Água: a água a ser utilizada deve ser sempre limpa e de boa qualidade, proveniente de fonte de água potável.

A formulação apresentada deve ser misturada à água somente no momento do fornecimento. Para facilitar o manejo, principalmente em rebanhos menores, uma dica é colocar em saquinhos plásticos a quantidade de cada ingrediente a ser utilizado por bezerro, de acordo com o Quadro 2. Em um pacotinho coloca-se o bicarbonato de sódio, o cloreto de potássio e o sal comum. Em outro, a glicose de milho. Assim, no momento de fornecer o soro aos bezerros, é só misturar o conteúdo dos dois saquinhos plásticos a 4 litros de água. É importante separar a glicose de milho, pois quando misturada ao outros ingredientes antes de ser colocada na água, a glicose “empedra” e fica difícil dissolvê-la na água.

O soro oral deve ser fornecido em um volume mínimo de 4 litros por bezerro por dia, desde o primeiro dia em que a doença for observada até que o animal esteja curado. Essa quantidade é a mínima necessária para uma bezerra de 50 kg com 8% de desidratação (Quadro 3). O volume de soro a ser fornecido deve levar em conta a soma entre:

  1.  A quantidade de água que já foi perdida, ou seja, aquela que necessita ser reposta;
  2. O volume correspondente ao que será perdido (nas fezes, por exemplo);
  3. O volume que a bezerra beberia de água por dia em condições normais (manutenção). Assim, quanto maior o grau de desidratação e mais velha a bezerra maior será a quantidade de soro necessária.

Quadro 3. Sinais clínicos em função do grau de desidratação

A avaliação da hidratação é muito simples e pode ser feita analisando, entre outras coisas, as alterações:

  • Elasticidade da pele do pescoço: ao puxar a pele do pescoço de um bezerro desidratado, a prega formada demora a se desfazer, voltando ao lugar normal conforme demonstrado nas fotos abaixo.
  • Brilho e umidade das mucosas: mucosas estão secas e sem brilho.

avaliação da hidratação


Além de o soro oral ser fundamental no tratamento de bezerros com diarreia, é também uma ferramenta muito importante no tratamento de doenças como pneumonia e tristeza parasitária, ou em qualquer caso de desidratação.Outro ponto importante é que o soro oral deve ser fornecido no mínimo 30 minutos após o fornecimento de leite. O bicarbonato de sódio, presente na formulação, pode interferir na digestão do leite se o fornecimento de leite e soro for feito em curto intervalo de tempo. Por isso, é muito importante que este intervalo entre o fornecimento de leite e soro seja respeitado.

No caso da pneumonia, o soro ajuda muito na recuperação do bezerro por fluidificar secreções e assim melhorar sua excreção e limpar as vias aéreas. Além disso, fornece alguns nutrientes, o que é importante visto que normalmente estes animais têm consumo reduzido de leite e ração.

Na tristeza parasitária, a ingestão de soro, combatendo a desidratação, ajuda a evitar uma redução muito grande do volume de sangue da bezerra, reduzindo as conseqüências da anemia. Essas bezerras ficam ofegantes para compensar a anemia, o que gera acidose, que pode ser corrigida com o uso do soro.

Os bezerros normalmente aceitam muito bem o soro oral. O soro pode ser colocado na vasilha de água para que a bezerra beba ou pode ser fornecido com mamadeira. Pode ser utilizada também sonda esofágica ou, nos casos graves de desidratação (acima de 8%), a terapia endovenosa. Essas últimas devem ser realizadas por pessoas treinadas.

soro oral

Bibliografia

O fornecimento de soro oral como terapia auxiliar no tratamento de bezerras é uma alternativa barata e que apresenta ótimos resultados. Manter os animais bem hidratados é fundamental para que haja uma boa recuperação, independente da doença. O soro, além de hidratar, estimula o apetite, ajudando ainda mais na recuperação. O uso do soro oral é prático e fácil, e por isso deve ser uma ferramenta sempre disponível nas fazendas como auxiliar ao tratamento de todas as doenças.

Carvalho, A. U.; Facury Filho, E. J.; Ferreira, P. M. Distúrbios entéricos infecciosos em bovinos

Constable, P. Fluid and electrolyte therapy in ruminants. The Veterinary Clinics – Food Animal Practice v.19, p.557–597; 2003

Garthwaite, B. D. Whole Milk and Oral Rehydration Solution for Calves with Diarrhea of Spontaneous Origin. Journal of Dairy Science, v. 71, p. 835-843; 1994

Radostits, O. M. Treatment and Control of Neonatal Diarrhea in Calves. Journal of Dairy Science, v. 58, p. 464-470; 1975

Wattiaux, M. A. Criação de novilhas – Babcock Institute; 2000

Autora: Bruna Figueiredo Silper – Doutora em reprodução animal pela University of British Columbia (Vancouver, Canadá)

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