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Saiba a melhor forma de atuar contra a tristeza parasitária bovina

A tristeza parasitária bovina (TPB) é formada por um complexo de doenças hemolíticas que possuem agentes etiológicos diferentes, porém com sinais clínicos parecidos. Dentre elas estão a anaplasmose e a babesiose, sendo estas doenças ocasionadas pelas riquétsias e por protozoários, respectivamente. No Brasil, Anaplasma marginale, Babesia bovis e Babesia bigemina são os principais patógenos envolvidos no complexo da TPB. Os prejuízos ocasionados pela tristeza parasitária bovina são altamente significativos, principalmente nas regiões endêmicas de sua ocorrência.

Transmissão

Tanto a anaplasmose quanto a babesiose podem ser transmitidas através do uso de fômites contaminados (agulha, bisturi etc.). O agente Anaplasma marginale ainda pode ser transmitido via picada de insetos hematófagos, como moscas e mutucas, e a Babesia sp. pode ser veiculada via repasto sanguíneo de carrapatos infectados. 

O carrapato representa um importante vetor da doença, principalmente da babesioe. As fêmeas do carrapato fixadas na epiderme dos bovinos se ingurgitam de sangue, ingerindo com ele o parasito. Após completar o ciclo de vida parasitária, o carrapato abandona o hospedeiro e inicia a ovoposição no solo das pastagens, transmitindo à sua descendência os parasitos com os quais se infectou. A reconhecida transmissão efetiva de B. bovis se dará, portanto, pelas formas larvares do carrapato originada de teleóginas infectadas, e a B. bigemina, por ter um ciclo mais longo, será transmitida a partir do estágio de ninfa, até parte do estágio adulto do carrapato. Vale ressaltar que o clima tropical/subtropical do Brasil é favorável à disseminação dos principais vetores do complexo da tristeza parasitária bovina.

Ocorrência da Tristeza Parasitária Bovina e fatores predisponentes

A TPB pode ocorrer em qualquer fase da vida dos bovinos. No entanto, dados de campo do Rehagro envolvendo 15.940 casos clínicos demonstram que o período crítico para ocorrência da tristeza parasitária bovina em bezerras leiteiras se encontra entre 100 e 170 dias (3 a 6 meses de vida, aproximadamente).

Número de casos de TPB em bezerros leiteiros de acordo com a idade (dias)

 

Tristeza parasitária

Fonte: Rehagro Consultoria

Em regiões onde há flutuações periódicas na população de vetores devido às condições climáticas juntamente a estratégias inadequadas de controle contra ectoparasitas, os animais infectados tendem a apresentar mais casos com sintomatologia clínica aguda. Essa situação de desequilíbrio vetorial é chamada de instabilidade enzoótica. A outra situação ocorre nas áreas endêmicas, onde a população de vetores está presente durante o ano todo. Nestas regiões, os animais apresentam maior resistência à infecção, pois desenvolvem certa imunidade nos primeiros meses de vida ao serem infectados quando ainda estão protegidos pelos anticorpos colostrais. Esta situação caracteriza áreas de estabilidade enzoótica, onde não são esperados surtos, nem altas taxas de mortalidade pela doença.

Outros fatores são predisponentes para o desenvolvimento do complexo da tristeza parasitária bovina, como falhas na transmissão da imunidade passiva (TIP), ocorrência de doenças concomitantes, instalações em condições sanitárias precárias, alta densidade animal, lotes sem divisão por faixa etária, nutrição inadequada, etc. Todos estes fatores (isolados ou associados) reduzem as defesas imunológicas e aumentam os riscos dos animais contraírem a TPB, podendo até mesmo aumentaram a gravidade da doença.

Algumas características de Babesiose e Anaplasmose

A patogenia da Babesia nos bovinos está ligada à espécie (sendo B. bovis mais patogênica que a B. bigemina), cepa, taxa de inoculação, idade do animal, fatores de estresse. A babesiose tem um período de incubação de sete a vinte dias. Quando um animal se torna infectado, ocorre uma multiplicação dos protozoários nas hemácias, levando-as à destruição por meio da lise celular. Desta forma, ocorre o desenvolvimento de hemólise grave levando a sinais clinicamente detectáveis.

Os mecanismos da patogenia da A. marginale provocam alterações na membrana celular das hemácias parasitadas. Essas alterações induzem à produção de anticorpos contra estas células e também contra as hemácias não parasitadas, que são retiradas da corrente sanguínea pelas células do sistema de defesa do animal, chamado sistema monocítico-fagocitário (SMF). O período de incubação da A.marginale é variável de duas a quatro semanas, ou mais, pois depende da sensibilidade do hospedeiro e da quantidade de parasitas no sangue. Se houver inoculação com sangue contaminado o período pode ser de uma ou duas semanas, até cinco semanas.

Quais são os sinais clínicos?

Os sinais clássicos da doença incluem febre (temperatura retal igual ou superior a 39,3°C), letargia, apatia, alteração na coloração das mucosas (ictéricas, pálidas e/ou com presença de petéquias), desidratação, corrimento lacrimal, perda de apetite. Casos graves de anemia podem ser acompanhados de aumento nas frequências respiratória e cardíaca.

Animais que são infectados com B. bovis podem apresentar babesiose cerebral, que se manifesta por sinais neurológicos de incoordenação, paralisia e convulsões.

Diagnóstico da TPB

O diagnóstico do complexo da tristeza parasitária bovina se baseia desde questões básicas como histórico e idade do animal, até questões mais complexas como interpretação de exames hematológicos. O aumento da temperatura se mostra um dos mais importantes meios para triagem e monitoramento da doença. Sendo que trabalhos apontam que está acompanhada do aumento da parasitemia dos agentes causadores da TPB. Saiba mais sobre o monitoramento da tristeza parasitária clicando aqui. Já a palidez das mucosas ocular, vulvar, gengivais é o sinal clínico perceptível da doença, porém após o pico da parasitemia. Ou seja, o ponto mais baixo do hematócrito é após o pico da parasitemia, sendo percebida tardiamente.

Sinais clássicos da TPB em bezerras leiteiras: mucosas ocular e vulvar anêmicas e anorexia

Tristeza parasitária

Fonte: Rehagro consultoria

Controle e prevenção da tristeza parasitária bovina

A prevenção e o controle dos casos de TPB é feita através da adoção de pontos básicos, como controle dos vetores (carrapatos e moscas hematófagas), garantia de eficiência no processo de TIP e proibição ao uso compartilhado de instrumentais perfuro-cortantes entre os animais. É necessário fazer um programa adequado de vacinação dos animais do rebanho para evitar doenças concomitantes com a TPB, fornecer dieta com qualidade e regularidade, detectar de forma precoce a doença e fazer o tratamento eficaz.

O tratamento para babesiose pode ser feito com diaceturato de diminazeno na dose de 3,5 a 7 mg/ kg ou imidocarb na dose de 1 a 3 mg/kg. Não se deve utilizar imidocarb em animais debilitados devido ao risco de intoxicação. Já o tratamento de anaplasmose pode ser feito através de imidocarb – 1 a 3mg/kg ou tetraciclinas – 8 a 11 mg/kg ou tetraciclinas de ação prolongada (LA) – 20 a 30 mg/kg ou enrofloxacino – 7,5 mg/kg.

Independente da enfermidade, a hidratação do animal é extremamente importante para o reestabelecimento das condições eletrolíticas. Para os animais que se encontram em decúbito e desidratados, o ideal é realizar terapia intravenosa incialmente para auxiliar no retorno à posição em estação. Já aqueles animais que se estão desidratados, mas em pé, pode-se realizar a hidratação via oral com auxílio de sonda esofágica.

Casos onde o hematócrito se encontra abaixo de 12% e/ou a clínica do animal está desfavorável, recomenda-se realizar transfusão sanguínea na dose de 10 mL de sangue/kg. Vale ressaltar que o animal doador de sangue deve ser examinado previamente quanto à presença ou não de TPB, coletando o seu sangue somente em casos negativos. Animais que são submetidos a mais de uma transfusão sanguínea possuem maior risco de desenvolverem reações hemolíticas, e, por isso, podem necessitar de terapia com corticoides.

Considerações

Devemos ter foco basicamente em três pilares determinantes para a ocorrência da doença: reduzir os desafios e os fatores de estresse no ambiente, promover a imunidade dos animais e controlar a carga de vetores (carrapatos e moscas hematófagas). Além disso, diagnóstico e tratamento precoces são essenciais para a sobrevivência dos animais infectados.

Referências

  • BLOOD, D.C.; RADOSTITS, O.M. Clínica Veterinária. 7ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991. 1263p. (Link)
  • COELHO, L. C. T. Anaplasmose bovina: parâmetros clínicos e de patologia clínica em bezerros infectados experimentalmente. Escola de Veterinária. 2007. 65 p. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. (Link)
  • MARQUES, D.C. Criação de bovinos. 7º ed. Belo Horizonte: Ed.Consultoria Veterinária e Publicações, 2003. 586p. (Link)
  • RIBEIRO, M.F.B.; REIS, R. Prevalência de anaplasmose em quatro regiões do estado de Minas Gerais. Arq. Esc. Vet. UFMG. v.33, n.1, p.57-62, 1981a. (Link)
  • SILPER, B. F.; COELHO, S. G.; LANA, A. M. Q.; FRANZONI, A. P. S.; CAMPOS, E. F. Ocorrências de doenças na fase de aleitamento em rebanho bovino leiteiro e seus efeitos em ganho de peso, idade ao primeiro parto e produção de leite na primeira lactação. 2009. (Apresentação de Trabalho/Outra).
  • SOUZA, J.P.C.; SOARES C.O.; MASSARD C.L. et al. Soroprevalência de Anaplasma marginale em bovinos na mesorregião Norte Fluminense Pesq. Vet. Bras. v.20, n.3, p.97-101, 2000.

3 comentários

  • bom dia, eu tive um problema com tristeza parasitaria em um lote de 16 bezerras, dessas 3 morreram com a doença, mas consegui controlar a infestação porem as bezerras atrasaram muito seu desenvolvimentos, estou procurando a melhor maneira para a retomada de desenvolvimento e crescimento deste lote mas nao estou encontrando o referido artigo.
    gostaria de um concelho sobre o que fazer para que as bezerras tivessem um ganho e uma recuperação rapida
    obrigado

    • O ideal neste caso seria verificar se estas bezerras ainda não estão com tristeza parasitária bovina. Para isso recomenda-se o monitoramento da temperatura retal das bezerras, onde em casos de temperatura igual ou superior a 39,3°C deve-se administrar medicamento para redução da febre. Além disso, caso seja possível, o recomendado é a realização de exames hematológicos por parte de um médico veterinário para identificação dos possíveis agentes da doenças e elaboração do protocolo de tratamento.