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Coprodutos da indústria do algodão para pecuária de corte

A indústria da carne passa por um momento de grande transformação. Ao longo das últimas décadas, o que se viu foi uma mudança significativa em todas as pontas da cadeia produtiva. Essa mudança é constante e busca o aumento da produtividade e a otimização dos recursos disponibilizados para a pecuária. Inclusive, aproveitando subprodutos oriundos de outras atividades – do campo ou mesmo industriais – como fábricas de produtos alimentícios, cervejarias e outros.

Dentre os aspectos importantes dessa mudança, está relacionado à associação de duas importantes frentes produtivas do agronegócio: lavoura e pecuária. Essa associação se passa desde sistemas altamente integrados, como sistemas de Integração Lavoura Pecuária (ILP), e também ao aproveitamento de insumos e recursos advindos da outra atividade. A pecuária se beneficia de produtos e subprodutos advindos da agricultura. A lavoura também se favorece com a utilização de produtos oriundos da pecuária, como por exemplo, na utilização de adubos orgânicos.

A utilização desses subprodutos ou coprodutos se associa perfeitamente com o aumento da busca pela intensificação dos sistemas de produção da atividade pecuária. Pecuaristas utilizam cada vez mais de ferramentas como confinamento, sequestro de recria, semiconfinamento dentre outras alternativas onde a dieta dos animais é fornecida no cocho.

A utilização dos coprodutos, contribui também em uma frente importante para o agronegócio como um todo. “Reaproveitar” esses insumos implica consequentemente em menores desperdícios e a maximização na utilização de insumos é de extrema valia para a pegada ambiental.

Um aspecto importante a se destacar, em relação ao tema abordado, está ligado ao preço desses insumos. Geralmente, são insumos relativamente baratos, o que torna a composição dos nutrientes neles presentes de baixo custo. Entretanto, comumente observa-se que a utilização desses insumos é regionalizada, principalmente pela questão que se tange ao frete. O frete dessa matéria prima impacta na custo final da tonelada, tornando então a utilização, da maioria dos coprodutos regionalizada.

Segundo a CONAB, Companhia Nacional de Abastecimento, a região Centro Oeste, obteve a maior produção de algodão no Brasil da safra 2019-20. Com 1.936,9 mil toneladas produzidas, os valores foram quase duas vezes maiores do que a produção estimada para a safra 2010-11. Esse grande avanço na produção de algodão, aumentou significantemente ao longo dos últimos anos a disponibilidade e a oferta de importantes subprodutos do algodão, como o caroço de algodão, torta de algodão, farelo de algodão e também o capulho de algodão.

Já utilizado nos EUA e Austrália a muitos anos, o caroço de algodão vem ganhando cada vez mais espaço na pecuária nacional. É um alimento proteico-energético e de alto valor nutritivo. O caroço de algodão é rico em fibra, proteína e energia (Bertrand et al., 2005). Os níveis de energia presentes no caroço são proveniente principalmente da grande quantidade de óleo presente no caroço com extrato etéreo (EE) em média de 20% da MS. É justamente essa característica que limita a utilização de grandes quantidades do caroço na dieta, sendo recomendados quantidades em torno de  15% da matéria seca da dieta, dependendo do teor  de EE da dieta final.

Volumes muito superiores a esses adicionados sem critério na dieta, podem se transformar em um problema, tendo em vista que altos níveis de óleos insaturados no rúmen, causam distúrbios na fermentação ruminal pela morte de bactérias ruminais, redução na degradação da fibra, redução no consumo. Esses são os principais efeitos que observamos quando o valor é superior a 8% EE na dieta (% MS), resultando em queda no desempenho. Outros dois pontos podem ser limitantes à utilização do caroço de algodão de forma descriteriosa: a grande impressão da interferência do caroço de algodão no aroma e sabor da carne de animais suplementados com altas concentrações de caroço, sugere que em programas de produção de carne gourmet, não se utilize ou se utilize com bastante cautela o caroço de algodão.

Além disso, o caroço de algodão apresenta em sua composição um composto fenólico chamado gossipol, esse composto tem efeito que pode prejudicar o desempenho reprodutivo dos machos, sendo prejudicial também para bezerros.

Seguindo com as características bromatológicas importantes do caroço de algodão, ele apresenta em sua composição de 44 a 50% de FDN, 27% de celulose, 10% de hemicelulose e de 13 a 15% de lignina. Essas características tornam o caroço um alimento de alt teor fibra, tornando-o uma excelente alternativa para dietas de alto concentrado. Adicionalmente à essas características, seu tamanho e presença do flinter é capaz de promover ruminação. Por isso, muitos nutricionistas utilizam esse benefício para reduzir a quantidade de volumoso em dietas de terminação, sem comprometer a saúde ruminal.

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Caroço de algodão. Fonte: Arquivo pessoal de Dra. Andrea Mobiglia, consultora e coordenadora de ensino da pecuária de corte do Rehagro.

Além do caroço de algodão, um importante co-produto obtido da produção de algodão é a torta de algodão. A torta é obtida no processo de prensagem do caroço para a retirado do óleo, também apresenta alta fibra e pode ser utilizado em dietas com alta inclusão de concentrado. Entretanto, não apresenta bons níveis de energia como o caroço, se tornando uma alimento proteico. Mas existem no geral, duas formas disponibilidades no mercado: a torta gorda contendo 5% de óleo e  a torta magra, que em contrapartida apresenta menos de 2% de óleo em sua composição. A torta apresenta em média 27% de PB em sua composição bromatológica, baixo teor de proteína degradável no rúmen (PDR) e como característica, também bom teor de potássio.

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Torta de algodão: Arquivo pessoal: Paulo Eugênio, Coordenador da equipe de consultoria corte Rehagro

Quando além do processo de prensagem, são utilizados produtos químicos (solventes) na extração do óleo do caroço, temos então o farelo de algodão, com quantidade relativamente superior de proteína em relação à torta. O farelo de algodão tem uma desvantagem perante aos outros produtos, pela grande diferença de níveis de proteína e outros nutrientes, de acordo com forma que é processada e pela adição ou não de casca.

Temos diferentes tipos de farelo disponíveis no mercado. O farelo mais comumente e indicado ao consumo de bovinos é rico em casca, contento 25 a 36% de PB. O farelo de algodão também é uma grande alternativa, mas é sempre interessante comparar o preço da proteína com outros insumos que possuem maior teor proteico em sua composição, como por exemplo o farelo de soja.

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Farelo de algodão: retirada do site, https://www.mfrural.com.br/detalhe/349501/farelo-de-algodao-28-e-38 tirada no dia 15-03-2020

Com dietas cada dia mais energéticas, a necessidade e a busca por alimentos com fibra efetiva ganha um espaço considerado. Quando se existe a possibilidade de uma alimento com custo relativamente baixo de MS o capulho de algodão ganha ainda mais destaque. Obtido no momento da extração do algodão, o capulho apresenta características principais, voltadas mais para proporcionar fibra efetiva na dieta do que por suas características nutricionais. Isso principalmente quando avaliamos os baixos valores de EE e NDT e altos valores de FDNfe.

Esse insumo quando utilizado como a única fonte de volumoso na dieta, é aconselhável a adição de água para ajustar a MS da dieta e evitar que deprecie o consumo do animal.

Capulho de algodão: Arquivo pessoal: Paulo Eugênio, Coordenador da equipe de consultoria corte Rehagro.

Um coproduto, também rico em fibra e que pode ser utilizado na dieta de ruminantes, é a casca do caroço de algodão. Contendo em torno de 3 a 8% de línter é um alimento de boa palatabilidade e de fácil mistura, inclusive com outros coprodutos como a torta.

Casca do caroço de algodão: fonte http://www.dual.ind.br/nossosprodutos/index.asp?id=10&produto=casca_de_caroco_de_algodao_dual#prettyPhoto/0/ tirada no dia 15-03-2020

Independente do insumo que optar é sempre recomendado avaliar o custo-benefício da sua aquisição. Há de se avaliar opções na região, local adequado de armazenamento para garantir sua qualidade e análise bromatológica deste insumo. Por se tratar de subprodutos, os valores nutricionais podem alterar consideravelmente afetando na composição final da dieta e, consequentemente, nos resultados de desempenho. 

Referências 

  • BERTRAND, J. A.; SUDDUTH, T. Q.; CONDON, A. et al. Nutrient content of whole cottonseed. J. Dairy Sci., v.88, p.1470-1477, 2005.

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