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Qual a importância da fibra efetiva na nutrição de bovinos de corte em confinamento?

O processo de intensificação dos sistemas produtivos, levaram ao adensamento da dieta de ruminantes, principalmente a dieta de animais confinados, buscando o aumento da produtividade desses animais. O melhor desempenho, entretanto, é acompanhado de novos desafios, dos quais técnicos nutricionistas buscam otimizar o adensamento com a inclusão mínima de fibras na dieta, buscando excelentes resultados sem comprometer a saúde do indivíduo.

Para uma boa saúde ruminal e bom desenvolvimento dos animais em confinamento é preciso que na dieta formulada exista uma quantidade mínima de fibra. Além disso, ela deve ter uma efetividade capaz de estimular a mastigação, ruminação, salivação e a motilidade ruminal. Na falta de estímulo de fibra no rumen-retículo, compromete a ruminação e produção de saliva. Esta última, por sua vez, é rica em elementos tamponantes para manter o pH ruminal. Sua falta resulta em queda de pH que, dependendo da intensidade, pode contribuir para um quadro de acidose. A acidose pode se desdobrar em timpanismo espumoso e laminite, além de ter impactos negativos e irreversíveis no desempenho animal. 

FDN e FDNfe

A fibra também estimula a motilidade, que é importante por aumentar o contato do substrato com as enzimas extracelulares dos microrganismos do rúmen, auxiliar na ruminação e na renovação de conteúdo ruminal, ajudando a aumentar a taxa de passagem. A mudança na taxa passagem tem como consequência:

  • alteração na eficiência da produção de proteína microbiana;
  • taxas de passagem mais rápidas favorecem o crescimento microbiano;
  • alteração na degradação do alimento. Por exemplo, um alimento que tenha o potencial de ser 70% degradado em um período de 24h no rúmen pode ter sua degradabilidade reduzida, caso permaneça menos que 24h no rúmen.

É comum haver casos de acidose subclínica: aquela que existe, mas não tem sintomas evidentes. Um bom indicativo de que pode estar ocorrendo é o consumo de matéria seca muito variável (Owens et al., 1998). Na determinação do nível mínimo de fibra na dieta dos bovinos de corte, é importante que seja considerada a porção da fibra que efetivamente estimula a ruminação. Para garantir que a dieta tenha FDN desejável e que promova efetividade na ruminação, o FDN fisicamente efetiva (FDNfe) começou a ser mensurado.

fibra efetiva

Figura 1- A figura exemplifica que a porção de FDN está contido na matéria seca (MS) da dieta, que possui um percentual de efetividade. No primeiro exemplo, a efetividade física do FDN é menor que no segundo 

O FDNfe foi definido como a porcentagem do FDN que efetivamente estimula a mastigação, salivação, ruminação e motilidade ruminal. O conceito utilizado pelo NRC (1996) define como a soma das porcentagens do material retido em peneira de acima de 1,18mm após separação vertical, e multiplicado pelo valor de FDN da amostra (FDNfe = FFDN x FDN amostra em %MS). As partículas menores que 1,18mm não são capazes de estimular a ruminação e os demais fatores discutidos anteriormente.

Requerimento mínimo de peFDN

Essa peneira foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia nos EUA, por isso que foi nomeada de separador de partículas da Penn State (The Penn State Particle Separator). O método para mensurar consiste em passar uma amostra do material nas peneiras (19mm, 8mm, 1,18mm e fundo). Porém, no campo a peneira 1,18mm foi substituída pela de 4mm devido muitas partículas ficarem retidas na peneira 1,18 mm serem de baixa ou nenhuma efetividade. Ainda assim, o material da peneira 4mm deve ser avaliado com cautela, pois partículas de rápida fermentação ruminal podem ficar retidas nessa peneira superestimando os valores de FDNfe. Essa peneira pode ser desconsiderada na soma, caso o nutricionista adote isso como critério. 

O que se sabe é que zebuínos têm maior exigência de FDNfe, sendo algo em torno de 25-30%.

Essa exigência para demais bovinos ficaria próximo a 15%. Mas, estes valores podem ser muito variáveis, de acordo com o manejo da fazenda, maquinário existente na propriedade, qualidade de fibra e uso de aditivos.

fibra efetiva

Fonte: Dados do NRC, 2016.

Níveis de FDNfe dos alimentos

No Gráfico 1, é visto que, a diminuição do FDNfe resulta em menor pH ruminal, podendo chegar a níveis muito baixos dependendo da dieta fornecida.

Gráfico 1 – A influência do teor de fibra fisicamente efetiva na dieta sob o pH ruminal de bovinos. Fonte: Zebeli et al., 2008

É importante estarmos atentos aos níveis de FDNfe dos alimentos mais utilizados. Nas dietas formuladas, principalmente em confinamentos, onde alguns alimentos são utilizados com o único intuito de fornecer fibra efetiva aos animais. Dentre os alimentos mais comumente utilizados no Brasil, alguns se destacam: o bagaço de cana que além de preço acessível (dependendo da região) apresenta uma importante porcentagem de fibra fisicamente efetiva, o feno também pode ser utilizado com esse intuito e até mesmo silagens de capim, milho, sorgo, que passaram um pouco do ponto de ensilagem podem ser utilizados com intuito de fornecer fibra efetiva a esses animais.

Além desses, outros importantes alimentos podem apresentar importante perfil de FDNfe e devem ser levados em consideração. O quadro abaixo ilustra a efetividade de alguns insumos utilizados para bovinos. Note que o processamente é um fator crucial para esse parâmetro. Portanto, cada fazenda precisa conhecer seu insumo, e para isso a análise bromatológica e físoca das partículas é imprescindível para uma boa formulação de dieta.

Conclusão

A utilização de subprodutos, originários de outros sistemas de produção, vem crescendo de forma significativa no país, dentre esses subprodutos alguns apresentam excelentes características, como por exemplo a casquinha de soja e o caroço de algodão, ambos alimentos possuem em sua composição bromatológica característica interessantes, o caroço com 44% de FDN, em média, e a casquinha 70% de sua MS total, entretanto por características dessa fibra a utilização dos dois alimentos se diferem, a fibra efetiva do caroço é significativa para proporcionar a ruminação dos bovinos, podendo ser utilizada então com esse intuito, já a casquinha não apresenta essas características, e apesar de ser uma excelente alternativa de alimento não deve ter sua efetividade levada em consideração para promover ruminação.

Quando pensamos em fornecer fibra aos animais buscando as características de sua efetividades, podemos acreditar que quanto maior o tamanho da partícula, melhor será para a dieta, entretanto partículas grandes em demasia, acima de 19mm, em grandes quantidades na dieta podem proporcionar uma seleção por parte dos animais, essa seleção acarreta diversos prejuízos como por exemplo, sobras no cocho e desempenho aquém do esperado para a dieta.

Referências

  • Heinrichs, J., The Penn State Particle Separator. Penn State Extension. Disponível em: www.expention.psu.ed 
  • NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING, AND MEDICINE et al. Nutrient requirements of beef cattle. National Academies Press, 2016.
  •  NATIONAL RESEARCH COUNCIL et al. NRC. Nutrient requirements of domestic animals. Nutrient requirements of beef cattle. Washington, DC: National Academy Science, 1996.
  • ZEBELI, Q. et al. Modeling the adequacy of dietary fiber in dairy cows based on the responses of ruminal pH and milk fat production to composition of the diet. Journal of dairy science, v. 91, n. 5, p. 2046-2066, 2008.

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