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Bovinos de corte em recria intensiva a pasto

Recria intensiva a pasto – RIP: como aplicar essa técnica

O processo de intensificação dos sistemas de produção da carne passa, dentre outros fatores, pelo aumento da produtividade por área útil utilizada, sem a perda na eficiência de desempenho por animal. Em resumo, a intensificação permite que em uma mesma área, se produza mais animais sem comprometer o desempenho individual.

Além dos ganhos “diretos” com aumento da produtividade, existe um fator determinante que corrobora com o processo de intensificação que é a diluição dos custos operacionais relacionados àquele sistema de produção, ou seja, produzir mais, em menos tempo e na mesma área permite a otimização dos custos envolvidos na operação da atividade.

Gado de corte se alimentandoFonte: Arquivo pessoal de Vinícius Costa, consultor em Pecuária de Corte do Rehagro.

E dentre as tradicionais fases de um sistema de produção, cria, recria e engorda, a recria apresenta uma grande oportunidade dentro desse cenário apresentado acima que permite maior giro do negócio.

Ao longo dos próximos parágrafos vamos tratar sobre uma estratégia ainda pouco difundida e que pode representar grandes oportunidades, a Recria Intensiva a Pasto (RIP), e como esta estratégia, desenvolvida e pesquisada pelos professor Dr. Gustavo Siqueira e Dr. Flávio Dutra do APTA, se transformou em uma excelente alternativa para solucionar problemas de desempenho na fase da recria.

A utilização da recria intensiva a pasto

A RIP é um programa de suplementação realizado com os animais em fase de recria, período da vida do animal após a desmama até sua entrada em fase de terminação ou engorda, onde é chamado de boi magro.

Normalmente é considerado como recria o tempo em que os animais saem de 210 Kg ou 7 arrobas, até os 420 Kg, 14 arrobas.

Essa métrica da recria sendo de 7 a 14@ serve como balizamento, mas é muito comum encontrar sistemas que trabalham e consideram pesos diferentes para essa fase (desmama a boi magro), principalmente, em propriedades mais intensivas, onde o ganho ao longo da recria é maior, tanto à desmama quanto na entrada dos animais na fase de engorda seja ela a pasto ou em confinamento.

Há ainda propriedades que por diversos motivos desmamam bezerros mais leves e ou entram com os animais mais pesados na engorda, concentrando o maior ganho de peso na fase que a fazenda tem mais facilidade de obter melhores resultados.

A utilização da recria intensiva a pasto se dá principalmente pela alta demanda de animais para engorda, seja pela própria propriedade ou pelo mercado de maneira geral.

Intensificar a recria, permite que mais animais fiquem aptos a entrar na fase de engorda em menos tempo, isso aumenta consequentemente a oferta de animais para a engorda.

O longo período destinado a recria dos animais é entendido como um gargalo importante para as propriedades, criar estratégias para diminuir esse tempo de recria, aumentando a eficiência do sistema produtivo e a rentabilidade dentro dessa fase é de suma importância para a pecuária nacional.

A RIP dentre as estratégias disponíveis apresenta uma solução interessante para essa fase da vida dos animais, principalmente para proprietários que já trabalham com um certo nível de intensificação.

Bovinos se alimentando vistos de cimaFonte: Arquivo pessoal de Vinícius Costa, consultor em Pecuária de Corte do Rehagro.

A estratégia de Recria Intensiva a Pasto

A RIP, consiste basicamente em um alto fornecimento de suplementação para os animais em recria. Espera-se que nessa estratégia seja alcançado ganho em torno de 800 gramas a 1 Kg de peso vivo por dia, por animal.

Levar os animais de 200 para 400 Kg em 8 meses, em uma recria já com bons níveis de produtividade os animais tendem a ganhar, em um ano, cerca de 200 Kg de peso vivo.

Com a estratégia para aumentar o consumo de suplementação dos animais é possível obter esse mesmo ganho individual no período de 8 meses, o que possibilita a diluição dos custos não alimentares de maneira significativa, além de ainda proporcionar um fornecimento de maior número de animais, em menos tempo, para a fase de engorda.

Recria Intensiva a PastoFonte: Arquivo pessoal de Cristiano Rossoni, consultor em Pecuária de Corte do Rehagro.

A suplementação dentro dessa estratégia de recria, exige um cuidado especial. O grande objetivo dessa fase de vida dos animais é que ele se desenvolva, cresça e coloque carcaça, para isso é importante o ganho de “massa magra”, o foco deve ser o desenvolvimento muscular dos animais.

Para isso ser possível, a suplementação dos animais deve ser realizada com suplementos específicos com elevado teor de proteína para potencializar o crescimento e ganho de massa magra do animal.

Durante o período da seca, época em que as pastagens são inferiores quanto a disponibilidade e quantidade de proteína, os níveis de proteína do suplemento devem girar em torno de 25 %.

Já no momento de maior disponibilidade de forragem, período das águas, o suplemento é balanceado com níveis de proteína em torno de 20 a 22%, fornecendo assim entre 14-16% PB na dieta.

Suplemento para gado de corteFonte: Arquivo retirado das aulas do curso de Pós Graduação em Produção de Gado de Corte do Rehagro.

O consumo estipulado para que seja alcançado os desempenhos esperados, de 700g a 1kg/dia por animal, gira em torno de 1% do peso vivo dos animais, ou seja um animal em recria, de 300 Kg de peso vivo, terá seu consumo diário de suplemento em torno de 3kg.

A água é um componente essencial na produção animal em qualquer fase da vida e em qualquer nível de intensificação produtiva, sem água é impossível a produção animal, na pecuária, e principalmente em sistemas intensivos.

A água, de qualidade e com boa disponibilidade, exerce um grande e decisivo papel na produtividade dos animais, pois ela está diretamente relacionada ao desempenho dos animais.

Para um sistema de recria intensiva a pasto, um detalhe que se faz importante nesse quesito da água é a localização dos bebedouros.

Normalmente, os bebedouros ou as fontes de água dos animais são colocadas bem próximas ao cocho de suplementação, entretanto, quando há um objetivo de se suplementar esses animais com quantidades maiores de suplemento a tendência é que bebedouros muito próximos aos cochos tem um acúmulo de sujeira superior ao que teria em situações de suplementações de menor consumo.

Gado de corte em recria intensiva a pastoFonte: Arquivo pessoal de Cristiano Rossoni, consultor em Pecuária de Corte do Rehagro.

Esse fato exige que os bebedouros sejam higienizados com uma frequência maior do que o de costume, recomendando-se ainda que, quando possível, sejam instalados bebedouros mais distantes dos cochos.

Bebedouros distantes 100 a 150 metros dos cochos permitem fácil acesso aos animais e evitam que grandes restos de alimento da boca dos animais caiam na água.

No percurso caminhando entre o bebedouro e o cocho os animais “limpam” a boca. Nesse tipo de suplementação, o que atrai a ida dos animais ao cocho é a própria ração, ao contrário do que acontece com a suplementação mineral, em que é indicado que os bebedouros fiquem próximos aos cochos para maximizar o consumo desse suplemento.

Portanto, nesse sistema intensivo os detalhes fazem toda a diferença para melhores resultados. 

Pastagem

A necessidade de pastagem em quantidade e qualidade ótimas para a produção continua sendo fundamental em um sistema de recria com fornecimentos de suplemento de elevado consumo, entretanto, o impacto da menor disponibilidade de forragem no desempenho dos animais é menor quando se comparado a animais suplementados com consumos inferiores, como 0,3%, por exemplo.

Isso ocorre devido ao efeito substitutivo, onde grande parcela da exigência do animal e consumo ocorre via suplementação.

Um animal consome em média de 2,2% de seu peso vivo em matéria seca (MS) por dia, quando fornecemos 1% do PV via suplemento isso significa que o animal terá que pastejar “apenas” para consumir os outros 1,2% do PV, que é um pouco mais que 50% de sua demanda diária, reduzindo assim o tempo de pastejo e também o impacto da quantidade de forragem no desempenho dos animais.

Esse fator ganha grande importância quando pensamos em exploração da área possível para produção, sendo possível produzir maiores quantidades de animais e consequentemente de arrobas em uma mesma área, sem perder, é claro, o desempenho individual dos animais. Em outras palavras, há um aumento da taxa de lotação na propriedade e produção de arrobas por hectare.

Gado de corte no pastoFonte: Arquivo pessoal de Vinicius Costa, consultor em Pecuária de Corte do Rehagro.

Desafios no caminho

Como a maioria das ferramentas e tecnologias disponíveis para o processo de intensificação na produção animal, a RIP apresenta alguns desafios importantes.

O primeiro desafio a se chamar atenção está na estratégia nutricional geral da propriedade. Quando é realizado um programa nutricional, é de extrema importância que pensemos na fase seguinte à que o animal está, e principalmente, qual a estratégia nutricional para essa próxima fase, e isso ganha uma importância ainda mais relevante quando avaliamos a RIP.

Animais provenientes da recria intensiva a pasto devem seguir, prioritariamente, para um sistema de engorda igualmente intensivo, confinamento ou mesmo para uma TIP, terminação intensiva a pasto.

Caso contrário, há uma grande probabilidade de que, o investimento realizado na recria se perca na fase da engorda por a estratégia não atender a demanda nutricional maior do animal. A suplementação crescente deve ser uma meta e uma constante para sistemas intensivos.

Outro cuidado importante e de grande relevância para a ferramenta está relacionado ao ajuste preciso da dieta para que o animal em recria desempenhe bem e principalmente ele “cresça” sem que necessariamente inicie o processo de deposição de gordura nos tecidos.

Níveis de proteínas da dieta adequados para essa fase de crescimento, como ressaltadas anteriormente, são necessárias justamente para que se consiga manipular de forma extremamente eficiente a composição do ganho desses animais, proporcionando a ele condições de expressar seu potencial genético.

Toda essa preocupação e cuidados são necessários para evitar que esses animais “achatem” nesta fase.

O termo “achatar” é utilizado para definir uma situação onde animais de recria consomem uma dieta muito energética e pouco proteica, em que os animais passam a depositar gordura em sua carcaça, quando isso ocorre, esses animais diminuem o crescimento em massa magra, ou seja, deposição de músculo e, consequentemente de carcaça, refletindo em animais futuramente terminados com gordura em excesso, mas com baixo peso de carcaça. Parte dessa gordura será retirada no processo de abate, o que economicamente não se torna viável ao produtor.

Esses fatores reforçam e desaconselham a utilização de dietas de terminação nessa fase da vida dos animais, além de serem mais caras comprometem o crescimento animal.

O fornecimento de suplementação de elevado consumo dos animais em recria, requer uma série de cuidados e estratégias, também, voltados para a infraestrutura e logística da propriedade.

O espaçamento de cocho de ser semelhante a de animais em terminação 30-40 centímetros por cabeça, a distribuição do volume de alimento e a estrutura de água de qualidade exigem que a propriedade esteja preparada para a realização da RIP, ou podem por falhas nessa estrutura não obterem os resultados esperados.

Bovinos de corte no cochoFonte: Arquivo pessoal de Hugo Martins, consultor em Pecuária de Corte do Rehagro.

Independente da época ou situação de produção, a eficiência na aquisição de insumos para a alimentação dos animais compõem uma das ou a principal determinante do sucesso econômico da atividade.

Em tempo de insumos superando as cotações a cada dia, em um sistema de alto risco pelos níveis de intensificação, o planejamento e a gestão da compra de insumos para a formulação do suplemento pode ser o principal fator para o sucesso dessa ferramenta.

Conclusão

A estratégia da recria intensiva a pasto vem sendo estudada com grande afinco pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios do estado de São Paulo (APTA- Colina), que desenvolve pesquisas para aprimorar a ferramenta e explorar o máximo potencial possível da mesma.

A implementação dessa tecnologia deve ser feita de forma criteriosa após uma boa análise das condições da fazenda. Um dos grandes gargalos apresentados na pecuária de corte se encontra justamente na fase de recria, normalmente longa e sem desempenhos satisfatórios, a RIP é uma grande ferramenta disponível, que quando bem trabalhada, pode solucionar esse problema. 

Além disso, essa ferramenta pode proporcionar um aumento de oferta de boi magro por parte de confinadores ou mesmo dentro de sistema de ciclo completo, com isso aumenta-se a capacidade de acelerar o sistema e aumentar o giro e a rentabilidade do negócio.

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