Staphylococcus aureus é um gênero de bactérias amplamente reconhecido como um dos principais agentes patogênicos responsáveis pela mastite em rebanhos leiteiros. Sua importância está relacionada às infecções que causa, elevando a CCS da vaca e piorando a qualidade do leite e na dificuldade de diagnóstico e baixa resposta à tratamento, sendo necessários ajustes de manejo para controle desse agente a fim de minimizar perdas econômicas (TENHAGEN et al., 2006).
O Staphylococcus aureus é considerado a espécie mais patogênica entre os estafilococos associados à mastite bovina. Trata-se de uma bactéria Gram-positiva, catalase-positiva e coagulase-positiva, características amplamente utilizadas para sua identificação laboratorial.
As infecções intramamárias causadas por esse agente são geralmente subclínicas e crônicas, representando um dos maiores desafios para os programas de controle da mastite. Essa persistência está relacionada a diversos mecanismos de sobrevivência da bactéria, incluindo sua capacidade de sobreviver no interior de neutrófilos, invadir o tecido mamário e formar microabscessos, fatores que dificultam a ação do sistema imune e contribuem para as baixas taxas de cura observadas nos rebanhos (MULLARKY et al., 2001; ERSKINE et al., 2003; TENHAGEN et al., 2006).
Embora a maioria das infecções apresenta caráter subclínico, os quadros causados por S. aureus podem variar consideravelmente. Em situações menos frequentes, a infecção pode evoluir para formas clínicas graves, incluindo mastite hiperaguda e gangrenosa, especialmente no início da lactação. No entanto, as infecções subclínicas e crônicas continuam sendo as mais relevantes do ponto de vista econômico e sanitário, uma vez que podem permanecer por longos períodos no rebanho sem serem facilmente identificadas, favorecendo a disseminação do agente entre os animais.
Ao longo deste texto, serão abordados os principais mecanismos envolvidos na infecção por esse agente, seus impactos na saúde da vaca e na qualidade do leite, bem como as estratégias de controle atualmente recomendadas para reduzir sua disseminação nos rebanhos.
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Impactos econômicos da mastite por Staphylococcus aureus
As perdas econômicas associadas à mastite vão além dos gastos imediatos com tratamento. De forma geral, incluem custos diretos, como exames diagnósticos, serviço veterinário, medicamentos, descarte de leite e mão de obra, além de custos indiretos relacionados à redução futura da produção, piora do desempenho reprodutivo, descarte prematuro e necessidade de reposição de vacas.
No caso específico da mastite por Staphylococcus aureus, o impacto econômico é agravado pela elevada frequência de infecções subclínicas e persistentes. Heikkila e colaboradores (2018) mostraram que S. aureus representou 25,5% dos patógenos detectados, sendo a maioria dos casos relacionados a quadros de mastite subclínica. Esse ponto é relevante porque, mesmo sem sinais clínicos evidentes, a infecção esteve associada à redução prolongada da produção de leite ao longo da lactação.
Ainda nesse estudo, quando a mastite por S. aureus foi diagnosticada antes do pico de lactação, as perdas médias diárias até 305 dias em leite foram próximas entre casos clínicos e subclínicos, em torno de 2,3 e 2,2 kg de leite/dia, respectivamente. Em termos proporcionais, a redução chegou a 7,1% da produção total aos 305 dias quando o diagnóstico ocorreu antes do pico, e cerca de 4,3% a 4,4% quando identificado entre 54 e 120 dias em leite.
Do ponto de vista biológico, essa perda está relacionada ao dano tecidual causado pela infecção intramamária. A bactéria pode aderir ao epitélio mamário, invadir tecidos e desencadear alterações persistentes no quarto afetado, reduzindo a atividade das células epiteliais responsáveis pela síntese de leite. Dessa forma, o impacto econômico do S. aureus não está apenas no tratamento dos casos clínicos, mas principalmente nas perdas silenciosas associadas à mastite subclínica, ao aumento da CCS e à redução persistente da produção. Por isso, o controle deste agente deve ser entendido como uma estratégia sanitária e econômica dentro dos rebanhos leiteiros.
Os mecanismos que tornam o S. aureus um desafio na mastite bovina
A capacidade do Staphylococcus aureus de causar infecções persistentes está diretamente relacionada aos seus diversos fatores de virulência. Esses mecanismos permitem que a bactéria colonize a glândula mamária, obtenha nutrientes do hospedeiro, cause lesões teciduais, consiga evadir da resposta imune e permaneça viável por longos períodos, mesmo diante da ação de antimicrobianos e das defesas do organismo da vaca. Além disso, possui mecanismos para adaptação e sobrevivência em diferentes ambientes e condições.
Após o estabelecimento da infecção intramamária, a bactéria passa a utilizar diferentes estratégias para evitar sua eliminação. Entre elas, destaca-se a produção de proteínas que interferem na ação dos anticorpos e dificultam a fagocitose, reduzindo a eficiência da resposta imune da vaca. Um dos mecanismos permite que S. aureus permaneça viável dentro das células de defesa da vaca por períodos prolongados.
Paralelamente, a produção de toxinas e enzimas contribui para o dano tecidual, favorecendo a progressão da infecção e a disseminação bacteriana dentro da glândula mamária.
Outro mecanismo amplamente associado à persistência da mastite por S. aureus é a formação de biofilme, que funciona como uma barreira física que dificulta a penetração de antimicrobianos e reduz a exposição das bactérias às células de defesa do hospedeiro. Como consequência, infecções associadas à formação de biofilme tendem a apresentar maior duração e menores taxas de cura.
Esses mecanismos permitem que S. aureus seja um dos agentes mais adaptados à persistência na glândula mamária bovina. Por isso, o sucesso no controle desse patógeno depende não apenas do tratamento dos animais infectados (que é pouco efetivo), mas, principalmente, na adoção de estratégias preventivas capazes de reduzir sua transmissão e limitar sua permanência nos rebanhos.
Quais fatores aumentam o risco de infecção por S. aureus?
A ocorrência de mastite, de forma geral, resulta da interação entre características do animal, desafios do ambiente e práticas de manejo adotadas na propriedade.
Como S. aureus se trata de um patógeno predominantemente contagioso, falhas na rotina de ordenha favorecem sua transmissão entre vacas. Equipamentos mal regulados, ausência de desinfecção adequada dos tetos, ordenha de animais infectados sem seguir uma linha de ordenha e a falta do uso de luvas pelos ordenhadores podem contribuir para a disseminação da bactéria durante a ordenha.
Outros fatores de risco relacionados à ocorrência de mastite, estão: estágio de lactação, produção de leite da vaca, número de partos, posição do úbere em relação ao jarrete, hiperqueratose na extremidade dos tetos, histórico de mastite clínica e CCS da vaca.
Dessa forma, embora os fatores de virulência do S. aureus sejam fundamentais para o estabelecimento da infecção, a ocorrência da mastite está fortemente relacionada ao equilíbrio entre a resistência do hospedeiro, a pressão de infecção presente no ambiente e a qualidade das práticas de manejo adotadas na fazenda.
Como diagnosticar infecções por S. aureus?
O diagnóstico das infecções intramamárias causadas por Staphylococcus aureus pode representar um desafio, pois a eliminação bacteriana pelo leite pode ocorrer de forma intermitente, aumentando a chance de resultados falso-negativos em algumas amostragens.
A cultura microbiológica continua sendo o método mais utilizado para o diagnóstico de S. aureus. Para isso, amostras de leite são semeadas em meios de cultura específicos, como ágar sangue, ágar manitol salgado e outros meios seletivos utilizados em laboratórios de microbiologia veterinária. Após incubação entre 35 e 37 °C, o crescimento bacteriano geralmente pode ser observado em um período de 24 a 48 horas, embora alguns protocolos utilizem até 72 horas para aumentar a recuperação dos microrganismos.
A identificação do agente é realizada por meio das características das colônias e de testes laboratoriais complementares, como coloração de Gram, produção de catalase e teste de coagulase. Essas análises permitem diferenciar S. aureus de outros microrganismos frequentemente envolvidos na mastite, incluindo os estafilococos não-aureus (SNA).
Enquanto para outros patógenos a definição de infecção intramamária considera o crescimento de 3 ou mais unidades formadoras de colônia (UFC) na placa de cultivo, para o S. aureus, considera-se o crescimento de ao menos 1 UFC.
Uma estratégia que contribui para a detecção desse patógeno é realizar o congelamento da amostra.
Além disso, uma forma de aumentar a sensibilidade para a detecção de S. aureus, pode ser realizada mais de 1 coleta para cultura. Enquanto a realização de 1 coleta apresenta a sensibilidade de 75%, realizar 2 ou 3 coletas consecutivas podem elevar a sensibilidade para até 98%, sendo assim uma estratégia importante na detecção e controle desse patógeno (SEARS et al., 1991).
Nos últimos anos, técnicas moleculares, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), também passaram a ser utilizadas para a identificação do agente. Essas metodologias apresentam elevada especificidade e podem detectar genes relacionados à virulência e à resistência antimicrobiana. Entretanto, seu custo e a necessidade de infraestrutura laboratorial ainda limitam a utilização rotineira em muitas propriedades.
Outra ferramenta que vem sendo cada vez mais utilizada é a espectrometria de massas por MALDI-TOF. A qual permite identificar diferentes espécies de estafilococos. Sua principal vantagem é a rapidez e a elevada precisão na identificação de diferentes espécies de Staphylococcus, incluindo os estafilococos não-aureus (SNA). Estudos demonstram que o método apresenta alta sensibilidade e especificidade, contribuindo para diagnósticos mais precisos.
Como implementar práticas de manejo para prevenir a mastite por S. aureus?
Considerando a capacidade de persistência e disseminação do Staphylococcus aureus nos rebanhos leiteiros, as medidas de controle devem priorizar a prevenção de novas infecções. Na prática, programas bem-sucedidos combinam monitoramento sanitário, manejo adequado da ordenha e tomada de decisão baseada em informações do rebanho.
A rotina de ordenha continua sendo um dos principais pontos de controle desse agente. Medidas como a utilização de luvas pelos ordenhadores, a assepsia dos tetos antes e após a ordenha, a manutenção adequada dos equipamentos e a identificação de vacas infectadas contribuem para reduzir a transmissão entre animais. A desinfecção pré e pós-ordenha dos tetos pode reduzir a ocorrência de novas infecções intramamárias em até 50 a 65%, reforçando sua importância dentro dos programas de controle (DEGO et al., 2024).
O monitoramento da saúde da glândula mamária também desempenha papel fundamental. Ferramentas como a contagem de células somáticas (CCS), o California Mastitis Test (CMT) e a cultura microbiológica permitem identificar animais infectados e acompanhar a dinâmica da doença dentro do rebanho. Essas informações auxiliam na tomada de decisão sobre tratamento, segregação e descarte de animais cronicamente infectados.
Outro ponto importante é o manejo do período seco. A terapia de vaca seca continua sendo uma das principais estratégias para o controle de infecções subclínicas por S. aureus.. A associação entre antibióticos e selantes internos de teto pode proporcionar melhores resultados em rebanhos com histórico de infecção por S. aureus.
Em propriedades com maior prevalência do agente, medidas adicionais podem ser necessárias. A ordenha dos animais positivos, por último, a segregação de vacas infectadas e o descarte de casos crônicos são estratégias frequentemente recomendadas para reduzir a pressão de infecção e limitar a disseminação da bactéria dentro do rebanho.
Dessa forma, o foco deve estar na prevenção e na interrupção da transmissão, uma vez que as limitações terapêuticas tornam o controle muito mais eficiente do que a tentativa de eliminar infecções já estabelecidas.
Por que o tratamento nem sempre funciona?
As baixas taxas de cura observadas em infecções por Staphylococcus aureus nem sempre estão relacionadas exclusivamente à resistência aos antimicrobianos. Os fatores de virulência dificultam o acesso dos medicamentos ao local da infecção e favorecem a persistência da bactéria na glândula mamária. Como consequência, mesmo quando o microrganismo apresenta sensibilidade aos antimicrobianos em testes laboratoriais, a eficácia do tratamento pode ser limitada.
Além dos mecanismos de persistência, a resistência antimicrobiana representa uma preocupação crescente na mastite bovina. Os estafilococos possuem elevada capacidade de adaptação e podem adquirir genes de resistência por meio de elementos genéticos móveis, como plasmídeos, bacteriófagos e outros mecanismos de transferência horizontal de genes. Esse processo favorece o surgimento e a disseminação de cepas resistentes entre animais e rebanhos.
Entre os antimicrobianos, a resistência aos β-lactâmicos é uma das mais frequentemente relatadas em isolados de S. aureus. Destaca-se ainda a ocorrência de cepas resistentes à meticilina (Methicillin-resistant Staphylococcus aureus – MRSA), que possuem relevância não apenas para a saúde animal, mas também para a saúde pública devido ao seu potencial zoonótico.
Conclusão
A mastite causada por Staphylococcus aureus permanece como um importante desafio para os rebanhos leiteiros, principalmente devido à sua capacidade de persistência e disseminação. Por isso, o controle deste agente deve estar baseado em prevenção, monitoramento contínuo e manejo adequado, permitindo reduzir perdas produtivas, melhorar a qualidade do leite e preservar a saúde do rebanho.
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Referências:
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