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Actinobacilose em bovinos: como ela impacta na produção do rebanho leiteiro?

A actinobacilose bovina é tipicamente caracterizada por glossite piogranulomatosa (língua de madeira ou língua de pau), podendo envolver outros tecidos em menor proporção, como pele e linfonodos. É uma enfermidade infecciosa, porém não contagiosa, geralmente crônica, causada por Actinobacillus sp.

Nesse texto iremos discutir sobre a actinobacilose bovina, evidenciado as formas de contaminação, fatores de risco, sinais clínicos, diagnóstico, prevenção e tratamento. Como também os impactos na produção e a importância de conhecer a doença, evitando problemas no rebanho.

Sinais clínicos de actinobacilose

Quais as formas de contaminação e fatores de risco?

A actinobacilose em bovinos tem como agente etiológico o Actinobacillus lignieresii, um cocobacilo Gram Negativo da família Pasteurellaceae, o qual faz parte da microbiota oral, ruminal e do sistema respiratório de animais saudáveis.

O agente penetra na mucosa orofaríngea, atingindo a corrente sanguínea e/ou linfática, acometendo os linfonodos regionais, podendo se estender ao tecido subcutâneo e muscular da língua, inclusive pode acometer a pele causando ulceração. Sendo assim, a alimentação com forragem abrasiva/espinhosa e abrasões dentárias são fatores de risco para a doença por ocasionar lesões na mucosa oral.

Ou seja, é necessário uma lesão primária para causar a doença e a transmissão pode se dar pelos fômites contaminados com as secreções de animais doentes, que contaminam esses pastos ou os alimentos e água.

É um microrganismo aeróbico e anaeróbico facultativo, possui baixa resistência às condições do meio ambiente, pois não sobrevive por mais de cinco dias em feno ou palhas.

Há relatos de infecção a partir de lacerações, injeções intravenosas, linfadenite disseminada e cirurgias de implante de argola nasal e descorna. Como também, a partir da via aerógena, responsável por desenvolver a forma pulmonar da doença, incomum nos rebanhos.

Após a entrada do agente, ocorrem reações inflamatórias agudas que, por conseguinte evolui para lesões granulomatosas, gerando necrose e supuração de tecidos moles. Quando a bactéria atinge os vasos linfáticos provoca linfadenite piogranulomatosa (infiltrados de leucócitos, como neutrófilos e macrófagos).

Em abatedouros durante a fiscalização das carcaças essas lesões são encontradas em linfonodos retrofaríngeos.

A morbidade da doença varia, podendo chegar a 50%, porém a mortalidade é quase nula, com índices menores que 1%. O que mostra que é possível tratar os animais com actinobacilose, restabelecendo a produção.

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Quais são os sinais clínicos e formas de diagnóstico?

A actinobacilose também é conhecida como “língua de pau” ou “língua de madeira”, uma vez que, a língua é o órgão mais comumente afetado.

Inicialmente, pode ocorrer uma miosite lingual (vários granulomas na musculatura, que podem conter pus), logo, há a deposição intensificada de tecido fibroso, o que caracteriza o aspecto de rigidez e aumento de tamanho à palpação, e pode causar incômodo e dor.

Também pode haver ulcerações no tecido. O animal demonstra mastigação suave da língua, como se um corpo estranho estivesse presente na boca e apresenta dificuldade de se alimentar.

Quadro clínico típico de actinobacilose em bovinos

Quadro clínico típico de “língua de pau”. Fonte: Luísa Silveira.

A condição corporal do animal é afetada, já que se alimenta com dificuldade, devido ao comprometimento do ato de apreensão do alimento com a língua e no processo de mastigação. Além disso, o aumento da cadeia linfática interfere na deglutição, causando desidratação, apatia e possível óbito.

Apesar da língua apresentar maior número de casos, pode haver lesões atípicas nos lábios, palato, faringe, fossas nasais, face e pálpebras com presença de nódulos vermelhos e que sangram com facilidade. Quando há presença de lesões na face se caracteriza um quadro de “cara de hipopótamo”.

A actinobacilose ainda pode levar a outros quadros clínicos, como mastite crônica ou aguda, pneumonia supurativa, artrite séptica, endocardite vegetativa, endometrite, sinusite crônica, infecções umbilicais, vesiculite seminal e infecção secundária em ferimentos.

Vaca com lesões na mandíbula, causadas pela actinobacilose

Vaca com lesões na mandíbula e pescoço, caracterizando a “cara de hipopótamo”. Fonte: Caffarena et al.

Quadro clínico de actinobacilose causando a "língua de pau"

Quadro clínico típico de “língua de pau”. Fonte: Belinda et al.

Além dos sinais clínicos, pode se realizar diagnóstico pelo histórico do animal e por exames histopatológicos da lesão. No qual, o material purulento apresenta patognomônicos de Actinobacillus lignieresii.

Ao realizar o esfregaço do pus, verificam-se estruturas semelhantes a clavas, com massa de bactérias no centro e presença de diversos tipos de leucócitos e tecido de granulação com fibrose reativa. A confirmação é tida com o isolamento e identificação de Actinobacillus lignieresii.

O diagnóstico diferencial está relacionado a corpos estranhos na língua; raiva, em virtude da salivação abundante; e a tuberculose, pois, lesões pulmonares causadas pelo A. lignieresii se assemelham as lesões verificadas nessa patologia.

Material purulento de actinobacilose

Presença de clavas em esfregaço do material purulento. Fonte: Laboratório de Patologia Animal da Universidade Federal de Campo Grande – UFCG.

Quais são os impactos da actinobacilose na produção?

O impacto da actinobacilose na produção do rebanho é significativo, causando queda na produção de leite e condenação das carcaças de vacas infectadas, já que pode haver a presença de nódulos purulentos característicos.

O principal fator para produção de leite no animal é seu consumo de matéria seca para gerar energia para a lactogênese. Como as lesões, principalmente na língua, causam incômodos ao animal, ele diminui consideravelmente o consumo de alimento.

A perda de escore corporal e desidratação do animal, levam ao declínio da produção de leite e pode levar a óbito.

Isso causa uma perda econômica considerável dentro da propriedade, o que justifica a atenção com a actinobacilose no rebanho leiteiro.

Prevenção e tratamento

Prevenir lacerações na cavidade oral é uma das formas mais eficazes contra a doença, já que é uma das principais portas do agente. Fornecer volumoso de qualidade, sem espinhos ou partículas muito grosseiras.

Realizar quarentena de animais provenientes de propriedades com histórico da doença, como também o isolamento dos indivíduos que apresentarem sinais clínicos característicos.

Ainda é relevante a associação de protocolo com iodetos e administração de antibióticos de largo espectro. Pesquisas revelam sensibilidade do Actinobacillus lignieresii a ceftiofur, ampicilina, penicilina, florfenicol, sulfas, aminoglicosídeos e tetraciclina.

Conclusão

Sabemos que a actinobacilose bovina causa grandes perdas produtivas ao rebanho, impactando financeiramente a propriedade. Porém é uma doença de baixa mortalidade, com possibilidade de prevenção e tratamento se realizados da forma adequada.

Identificar precocemente os animais acometidos e se atentar aos animais advindos de outras propriedades com histórico da doença vão auxiliar no controle da actinobacilose. Proporcionando saúde, produtividade e lucratividade ao rebanho leiteiro.

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Autor: Luiz Eduardo de Melo Silveira – Equipe Leite Rehagro.

Referências

  • DA SILVA, Yanne Aciole et al. Actinobacilose bovina: Revisão. Pubvet, v. 11, p. 538-645, 2017.
  • CAFFARENA, Rubén D. et al. Natural lymphatic (“atypical”) actinobacillosis in cattle caused by Actinobacillus lignieresii. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation, v. 30, n. 2, p. 218-225, 2018.
  • Caffarena RD, Rabaza A, Casaux L, Rioseco MM, Schild CO, Monesiglio C, Fraga M, Giannitti F, Riet-Correa F. Natural lymphatic (“atypical”) actinobacillosis in cattle caused by Actinobacillus lignieresii. J Vet Diagn Invest. 2018 Mar;30(2):218-225.
  • AQUINO, Márcio Henrique Batista de. Prevalência da actinobacilose em ruminantes no Hospital Veterinário da Universidade Federal de Campina Grande-2005/2010. 2010.
  • SILVA, M. L. et al. Estudo retrospectivo da ocorrência de actinobacilose bovina em matadouro–frigorífico de Sinop–MT, 2008-2013. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v. 14, n. 2, p. 83-83, 2016.

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