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Tráfego controlado de máquinas agrícolas

Nas últimas décadas com a intensificação do sistema de produção de grãos e adoção do sistema de plantio direto (SPD), impulsionou o uso de máquinas agrícolas de maior capacidade para aumentar os rendimentos operacionais e redução do custo das operações agrícolas. Em contrapartida o aumento do tamanho das máquinas associado aos seus pesos, a indústria de máquinas agrícolas com intuito de amenizar os efeitos, tem desenvolvido tecnologia em pneus e orientação a fim de reduzir as pressões de contato com o solo.

máquinas agrícolas

Gimenez e Milan (2007) relatam que na região dos Campos Gerais no estado do Paraná e no sul do estado de São Paulo os operadores de máquinas agrícolas não recebem capacitação suficiente e propriedades maiores faz o uso mais eficiente de máquinas agrícolas, e a potência por área dos tratores nas menores propriedades foi duas vezes maior que observada nas maiores propriedades. Sendo as máquinas agrícolas o segundo maior investimento, e a adequação ao tamanho da propriedade um fator fundamental na redução de custos.

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O tráfego de máquinas agrícolas é indicado como uma das principais causas da compactação dos solos, intensificando pelo incremento no peso das máquinas e implementos agrícolas, e pela intensidade do uso do solo. Neste sentido, o sistema de tráfego controlado (STC) de máquinas agrícolas pode reduzir a demanda de tração de forma significativa, por meio da menor resistência ao deslocamento dos pneus em áreas trafegadas permanentemente, apresentando menor compactação em áreas destinadas ao cultivo de plantas e sem o tráfego de máquinas.

A adoção do STC em larga escala ainda é baixa, apresentando destaque para a Austrália com aproximadamente 30 a 40% do total da área no sistema de produção de grãos manejados sob STC. O desenvolvimento de linhas de tráfego de acordo com as condições de tráfego do terreno pode representar 15% da área cultivada. A modificação comercial das máquinas agrícolas e o desenvolvimento de sistemas orientação de precisão com variação 2 cm de acurácia (RTK e DGNSS: Real Time Kinematic e Differencial Global Navigation Satellite System) vieram para facilitar a adoção do STC. A adoção comercial do STC concentra e melhora a trafegabilidade, ao mesmo tempo em que auxilia a melhoria da estrutura do solo entre as linhas de tráfego. O aspecto mais valioso da tecnologia é seu benefício em áreas cultivadas sujeitas à compactação.

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Segundo a Australlian Controlled Traffic Farming Association (ACTFA, 2020), define o tráfego controlado de máquinas agrícolas como um sistema no qual: (i) todas as máquinas têm a mesma largura de trabalho e bitola (distância entre as rodas em um eixo) de modo que o tráfego no campo seja restrito à menor área possível de vias permanentes; (ii) todas as máquinas são capazes de uma orientação precisa ao longo das faixas de tráfego permanente; (iii) uma grade de tráfego permanente é projetado para otimizar a drenagem superficial e logística. Sendo os componentes essenciais para o sistema de tráfego controlado.

Para a conversão do sistema convencional para o STC devem ser considerado os seguintes aspectos: (i) sistema de orientação com acurácia (RTK e DGNSS, ± 2 cm de correção) para que as máquinas sempre passem nas linhas de tráfego permanentes, (ii) máquinas que sejam correspondentes para combinar o espaçamento da bitola e escolher uma largura de operação que ajuste as operações de semeadura e colheita afim de combinar com o pulverizador estabelecendo uma relação 3:1; (iii) otimizar as linhas de tráfego, e o gerenciamento e orientação permanente das linhas de tráfego, e (iv) linhas de tráfego de acordo com a declividade do terreno reduzindo o risco de erosão, e aplicação subsequente de tecnologia a taxa variável de insumos.

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Atualmente existem softwares dedicados ao desenvolvimento de linhas de tráfego, onde determinam a extensão e localização das rodas nos campos de produção, de acordo com as máquinas disponíveis na fazenda. Sendo uma ferramenta para a tomada de decisão com base em cenários para a conversão do sistema convencional para o STC. O uso de sensores multiespectrais embarcados no drone para obtenção do modelo digital de elevação (MDE), possibilita realizar análise de declividade do terreno, sendo uma das principais informações para análise de cenários. A integração de linhas de tráfego com o modelo de erosão do solo apresenta grande acurácia na dependência espacial, podendo ser um importante planejamento para a conservação do solo.

Para o manejo da compactação do solo, a identificação de processos responsáveis por mudanças nas propriedades físicas do solo e práticas agrícolas que possam ser adotadas para minimizar problemas de compactação do solo, são essenciais a fim de reduzir o risco de perdas de produtividade. Nesse sentido, STC é um meio eficaz para o gerenciamento da compactação, restringindo todas as rodas à menor área possível de faixas de tráfego permanentes.

Na mesorregião do Campo das Vertentes no estado de Minas Gerais, os solos cultivados sob SPD são classificados como Latossolo, Argilsolo e Cambissolo com característica de relevo ondulado. No sistema de produção de grãos praticado pelos produtores são adotados a rotação de culturas com o plantio de soja realizado na primeira safra seguido de trigo na segunda safra e/ou feijão na primeira safra e milho consorciado com braquiária na segunda safra. No cultivo de soja em rotação com o trigo, são realizadas duas operações de semeadura, três operações de fertilização, doze operações de pulverização e duas operações de colheita. As operações de pulverização e colheita, podem acontecer após a ocorrência de chuvas, apresentando condições adversas ao manejo sustentável do solo. Nesse sentido a adoção do STC visam a manutenção do manejo sustentável do sistema de produção de grãos.

No Brasil o STC vem sendo adotado em cultivos de cana-de-açúcar, seu principal benefício é durante as operações de colheita, sendo realizadas pela colhedora e um transbordo para transporte do produto colhido. O SCT promove melhores condições para as condições físicas do solo, apresentando baixa densidade do solo e maior macroporosidade. O STC proporcionou incremento no desenvolvimento radicular e na produtividade de cana-de-açúcar.

No Brasil o STC em cultivos de grãos ainda é incipiente. Ao comparar diferentes sistemas de manejo, a área trafegada por máquinas dentro da lavoura em preparo convencional é de aproximadamente 82%, em SPD o tráfego chega a 46% e com STC de 14% da área total da lavoura sofre pressão de pneus. O STC em cultivo de grãos no Paraná promoveu aumento da RP na linha central do tráfego na camada de 5 a 40 cm, e incremento do comprimento radicular na camada de 0 a 10 cm. Devido a compactação moderada e precipitação elevada não houve incrementos de produtividade na cultura da soja. 

O efeito do STC sob SPD após 10 anos, houve incremento de matéria orgânica e P disponível até a camada de 30 cm de profundidade. Houve também incrementos de macroporosidade e taxas de infiltração de água nos tratamentos com STC. O STC combinado com o SPD, é um valioso sistema para restaurar a produtividade de solos com risco de degradação, promovendo uma agricultura sustentável.

A variação da compactação é devida a deslocamentos laterais do solo, tendo a variação do tipo de rodado e interação solo-pneu com a condição do solo no momento do tráfego. A condutividade elétrica aparente do solo (CEa) pode ser uma ferramenta para determinação das linhas de tráfego e caracterização da compactação do solo em solos argilosos e siltosos, nas camadas superficiais e no subsolo foi possível identificar a diferença da compactação.

Uma das principais barreiras para adoção do STC é devido a incompatibilidade e necessidade de modificação das máquinas de acordo com as características do local e o risco de os produtores perderem as garantias. Outra barreira se dá pelo fato de os produtores cultivarem em áreas arrendadas necessitando alteração do sistema. Na Austrália e na Europa organizações como a ACTFA e CTF Europe Ltd., auxiliam os produtores no desenvolvimento de linhas de tráfego adequadas ao sistema de produção. 

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