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Uso de maturadores na cultura do café

O cafeeiro apresenta cerca de 2 a 3 floradas no ano, podendo estas ter um intervalo geralmente de 20 a 30 dias entre elas. Assim, a maturação dos frutos é desuniforme, sendo que no momento da colheita poderá ter frutos secos, passas, maduros e verdes.

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Figura 1. Fruto cereja com botão de flor de café mostrando a desuniformidade da florada. (Foto: Larissa Cocato)

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Figura 2. Frutos cereja e flores na mesma planta. (Foto: Larissa Cocato).

Para a colheita do café, quando realizada por máquinas ou pela derriçadora manual (mãozinha), que tem como princípio a retirada de frutos por vibração, causa uma seleção dos frutos, retirando da planta os frutos maduros, passa ou secos, retendo na planta grande parte dos frutos verdes. Dessa forma, acarretando na necessidade de realizar repasses na lavoura, aumentando assim o custo da colheita.

Uma alternativa para melhor uniformização de frutos, é a utilização de produtos que visam acelerar o amadurecimento dos frutos, pela liberação do etileno, acarretando assim em uma maior uniformidade.

O que é etileno?

O etileno (Figura 3) é um hormônio gasoso que promove o amadurecimento do fruto e outros processos de desenvolvimento.

Figura 3. Estrutura química do etileno.

Aceleradores da maturação 

O Ethephon (ácido 2-cloro-etil-fosfônico) é um ingrediente ativo utilizado para acelerar a maturação, presente no produto comercial Ethrel®. Essa substancia após ser absorvida, por meio de uma reação, é decomposta no citosol (meio básico), liberando o gás etileno (reação abaixo – figura 4).

Figura 4. Reação do Ethephom em meio básico, com consequente liberação de etileno.

Dessa forma, acarretando em aumento da respiração e consequentemente aceleração da maturação dos frutos, proporcionando a antecipação da colheita. No fruto de café o etileno degrada a clorofila, causando assim o desverdecimento do fruto e pedúnculo, facilitando a retirada dos frutos (Felipe, 1986).

Biossíntese de etileno

O percursor para a síntese do etileno é a metionina (um aminoácido). A biossíntese do etileno compreende a conversão de SAM (S-adenosil-metionina) em ACC (ácido 1-carboxílico-1-aminociclopropano), sob a ação da ACC sintase. E a conversão do ACC em etileno, pela ACC oxidase, conforme o esquema abaixo (Figura 5).

Figura 5. Esquema da biossíntese do etileno.

Qual a recomendação?

A utilização de Ethrel® é recomendada a ser feita quando 90% dos grãos do terço inferior do cafeeiro estiverem fisiologicamente maduros. A aplicação deve ser feita cerca de 30 dias antes da colheita prevista. 

É preconizada a aplicação de 100 ml do produto para 100 L de água, com uma calda de 600 litros por hectare. É recomendado que o pulverizador ande com velocidade de cerca de 4,5 km/h, com todos os bicos abertos. Em casos de lavouras mais baixas, ou em que não se quer atingir o produto em determinada parte da planta, por exemplo, em partes da planta que não se tenha café, podem ser fechados esses bicos.

Quais os cuidados se devem ter com as aplicações?

A produção de etileno pode trazer a abscisão foliar, que afeta principalmente folhas atacadas por pragas e doenças. Por isso, plantas que apresentam elevado nível de doenças ou pragas, a utilização do produto pode causar um desfolhamento da lavoura podendo assim afetar as produtividades futuras. Além disso, se a pulverização for realizada em uma velocidade inadequada, ou seja, mais lenta, pode acarretar também em grande desfolha das lavouras, devido a ação desse hormônio, quando não aplicado em doses adequadas.

Estudos com a utilização de Ethrel ®

Silva et al. (2009) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar os efeitos do Ethrel ® na desfolha, uniformização e antecipação da colheita mecanizada em cafeeiro da cultivar Mundo Novo. A aplicação do Ethrel ® foi realizada com dosagem de 0,67 L/ha, em taxa de aplicação de 505 L/ha. A colheita foi feita com colhedora automotriz, em duas passadas, aos 29 e 61 dias após a aplicação do produto. Com base nesse estudo, os autores concluíram que em relação a maturação dos frutos na planta, a proporção de cereja aumentou de 36% para 60% nos tratamentos em que se utilizou o Ethrel ®. Além disso, houve elevação do volume de frutos colhidos na primeira e segunda passada.

Ainda com base nesse estudo, os autores não observaram diferenças em relação a desfolha e qualidade de bebida desse café colhido mecanicamente em duas passadas entre as plantas tratadas ou não com o Ethrel ®.

Da mesma forma, Carvalho et al. (2003) testaram a eficiência do Ethephon na uniformização e antecipação da maturação de frutos de cafeeiro, utilizando três cultivares de coffea arabica (Acaiá Cerrado MG-1474, Topázio MG-1190 e Catuaí Vermelho IAC-15), com diferentes épocas de maturação (precoce, média e tardia), na presença de Ethephon, na dosagem de 130 ml do produto comercial por 100 l de água.

Com base nos resultados obtidos nesse estudo, os autores concluíram que o uso do Ethephon proporciona uma antecipação e uniformização na maturação dos frutos de café, antecipando a colheita em 15 dias para a cultivar Acaiá cerrado e 30 dias para a cultivar Catuaí Vermelho (Figura 6).

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Figura 6. Porcentagem de frutos cereja, na presença e ausência de Ethephon, avaliada em intervalos de 5 dias até a colheita, para as cultivares Acaiá Cerrado MG-1474, Topázio MG-1190 e Catuaí Vermelho IAC-15. Patrocínio, MG. 2000.

Em relação a desfolha, os autores observaram uma desfolha mais acentuada logo após a aplicação do produto, porém, por ocasião da colheita, essa desfolha não foi significativa na cultivar Acaiá Cerrado, variando de 3,03 % na cultivar Catuaí e de 8,45% na cultivar Topázio. (Figura 7)

Figura 7. Porcentagem de desfolha, na presença e ausência de Ethephon, avaliada em intervalos de 5 dias até a colheita, para as cultivares Acaiá Cerrado MG-1474, Topázio MG-1190 e Catuaí Vermelho IAC-15. Patrocínio, MG. 2000.

Considerações finais

A utilização de aceleradores de maturação, com o ingrediente ativo Ethephon (Ethrel ® – produto comercial) é uma ferramenta que pode ser utilizada a campo com grande potencial, buscando uma maior uniformidade e a possibilidade de antecipar a colheita, podendo proporcionar um melhor escalonamento da colheita na propriedade, e até redução de repasse nas lavouras. Além disso, a antecipação da colheita pode ser aliadas no manejo em lavouras em que se vai realizar a poda, para que essa prática seja realizada o mais cedo possível, acarretando assim em melhores resultados na lavoura.

Referências

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