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Grãos de destilaria do milho

O máximo aproveitamento dos recursos disponíveis dentro de um sistema, é fundamental para a diminuição dos custos de produção, essa máxima se estende por toda a cadeia produtiva do agronegócio.

Explorar todas as possibilidades da matéria prima, é uma grande virtude da cadeia produtiva da carne, tudo na produção de carne bovina é aproveitado.

Esse aproveitamento, entretanto, não deve se restringir às últimas etapas do sistema de produção. É sabido a grande eficiência de um frigorífico em aproveitar 100% do animal abatido e as etapas anteriores, que sucedem o frigorífico, também devem seguir esse caminho.

Um grande avanço nesse sentido, está diretamente relacionado ao aproveitamento de coprodutos de outros negócios envolvidos no agro, a utilização de produtos advindos das cadeias produtivas do etanol, do açúcar, do algodão e tantas outras, podem ser de grande valia na produção dos ruminantes.

Além de diminuir a concorrência de utilização de produtos utilizados na alimentação humana, a utilização de coprodutos tem grande potencial quanto ao passivo ambiental.

A principal forma de interação e aproveitamento dos recursos está direcionada, justamente a esses coprodutos que são a cada dia mais utilizados na dieta de ruminantes, casca de soja, torta de algodão, bagaço de cana, são alguns exemplos de “resíduos” de outras indústrias de grande importância para a nutrição de ruminantes.

Nos últimos anos cresceu no Brasil, principalmente no centro oeste brasileiro, o número de agroindústrias que utilizam a destilação do milho na produção do etanol. Esse processo tem como resíduo, subprodutos de bastante potencial para a inclusão nas dietas de ruminantes.

Grãos de destilaria

Figura 1 – Resíduo úmido da destilaria do milho, conhecido como WDG (wet distillers grain).

Fonte: Material complementar, aula César Borges, Pós Graduação Gado de Corte – Rehagro

Resumidamente, nesse processo, utiliza-se o amido presente no milho como substrato para a fermentação e para a produção do etanol, o material remanescente, é um produto rico em proteína, gordura e fibra mais concentrados do que originalmente encontrados no milho. A proporção desses materiais variam entre as industrias de etanol, dependendo do processo fermentativo que adotam.

O cozimento do milho irá proporcionar a gelatinização do amido, enzimas alfa amilase, termo estáveis, são adicionadas ao material e quebram o amido em glicose, que por sua vez será utilizado por leveduras adicionadas ao processo em etanol e gás carbônico (CO2).

Os principais coprodutos de grãos de destilaria são grãos secos  ou úmidos de destilaria, mais conhecido no Brasil pela sigla em inglês DDGS e WDGS (dried distillers grains with solubles e wet distillers grains,respectivamente). Estes subprodutos se diferem basicamente, como diz sua nomenclatura, pelo teor de umidade.

Fonte: http://fsbioenergia.com.br/negocios-e-atividades/nutricao-animal/dieta-bovinos-de-corte/, acesso em 22/04/2020

Durante o processo de fabricação do etanol, o material fermentado passa por uma etapa de secagem, dando origem ao DDGS e quando retirado antes da fase de secagem temos o WDGS, além da característica, principal, relacionado à umidade, esse processo de secagem irá interferir em alguns pontos importantes, quando avaliamos a utilização desses produtos na nutrição de ruminantes.

Antes, de chegar à fazenda, e ser realizada as devidas considerações sobre nutrientes e inclusões nas dietas, devemos pensar nos custos e na logística que envolve a utilização desses produtos.

O produto úmido, WDGS, apresenta, em média, na sua composição, 65% de água, o que acarreta, consequentemente, em maiores custos tanto no transporte, tornando mais atrativo para propriedade vizinha da indústria. Também devemos destacar a  armazenagem desse produto.  A umidade diminui a densidade do produto, sendo necessário maior espaço para estocagem, além de necessitar de maiores cuidados com o aparecimento de mofos. 

A utilização, do WGD, deve ser realizada de forma relativamente rápida nas propriedades, estima-se que o tempo de vida útil do produto gire em torno de 3 a 4 dias, quando armazenado da forma “convencional” nos galpões de fábrica de confinamento, devendo ser o abastecimento da propriedade com esse produto uma rotina diária. Uma alternativa a esse problema, pode ser a ensilagem do produto, hoje em dia a principal forma de ensilagem do WDG é feita por bags. Muitos produtores têm aproveitado a baixa nos preços para estocar e ensilar esse material.

 A umidade interfere ainda, nas possibilidades de trato para os animais, suplementação de menores consumos, por exemplo, são praticamente inviáveis com WDG, suplemento como um todo fica bastante úmido, fazendo com que o mesmo, estrague com mais facilidade. 

Grãos de destilaria

Figura 2: WDG.  Fonte: Site da FS Bioenergia 

Em contrapartida, justamente por não passar por uma etapa do processo de secagem, o WDG tem normalmente menores custos do Kg de MS, quando comparados ao DDG. Ainda referente ao quesito umidade, outro benefício do WDG está relacionado à sua maior capacidade de mistura, diminuindo inclusive a seleção dos animais.

O DDGS, por todos os motivos supracitados, parece ser então, uma opção mais viável, principalmente àquelas propriedades que estão distantes geograficamente das grandes usinas de etanol, sua composição com 10 a 12% de umidade, normalmente, permite que esse produto seja armazenado como a maioria dos concentrados comumente utilizados em uma propriedade de corte, ou seja, nos barracões e expostos ao ar.

Por ser um produto de MS mais elevado (88 a 90% de MS), pode inclusive ser utilizado como suplementação de animais à pasto, tento maior vida útil nos cochos quando comparado ao WDG.

Grãos de destilaria

Figura 3 – WDG sendo ensilado. Fonte: Acervo pessoal, Esp. Paulo Eugênio, consultor e coordenador de consultoria do Rehagro.

Um adendo importante, que deve ser observado com bastante atenção em relação ao DDGS está relacionado justamente ao processo de secagem, onde, quando esse processo ocorre em demasia, pode levar à queima daquele material, levando à não disponibilização importante de alguns nutrientes.

Figura 3: DDG.  Fonte: Site da FS Bioenergia

Tida algumas observações importantes sobre as características físicas desses produtos, principalmente em relação aos teores de MS e às consequências observadas em virtude da diferença entre esses produtos, a utilização e os níveis de inclusão desses coprodutos, passam a ser avaliadas pelas características bromatológicas destes.

Características comuns a esses grãos de destilaria do milho, justamente pelo processo fermentativo para produção de etanol utilizar o amido como substrato, esse nutriente apresenta baixas concentrações, tanto no DDG quanto no WDG, em torno de 2 a 5%.

A principal forma de utilização desses coprodutos é como fonte proteica, se justifica quando avaliamos os níveis de proteína desses materiais, sendo em média, 32% e 25 a 32% de proteína bruta no WDG e no DDG, respectivamente, sendo um substituto do farelo de soja. Materiais comerciais podem variar quanto aos teores de proteína do produto, sendo vendido DDG com 19% de PB, por exemplo. Esses parâmetros devem ser observados na hora da compra para comparar preços. 

Segundo CORRIGAN et al. (2006), podemos considerar, em inclusões superiores à 20% da dieta total, como fonte também energética, principalmente quando há a substituição do milho ao DDG, essa prática é mais usual em situações de suplementação à pasto dos animais. Nos confinamentos inclusões próximas à 20% costumam suprir as exigências de proteína da dieta, e até mesmo alcançar valores superiores. 

A substituição da fonte energética pode se justificar pelos níveis de NDT do DDG e do WDG, 90% e 98% respectivamente.

Grãos de destilaria

Figura 4 – Armazenamento DDG. Fonte: Acervo pessoal, Paulo Eugênio, consultor e coordenador de consultoria do Rehagro.

Outro ponto de avaliação desses produtos, diz respeito aos níveis de PNDR, que podem ser até 2,6 vezes maior do que os níveis encontrados no farelo de soja, por exemplo, na média o WDG apresenta 55% de PNDR enquanto o DDG apresenta 60 a 70% da PB de proteína não degradável no rumem.

Entre os pontos de atenção, e cuidados em relação a utilização desses insumos, dois chamam atenção, o primeiro deles está relacionado à inibição de consumo, estudos como de KLOPFENSTEIN et al. (2014) sugerem que inclusões superiores a 30% da MS da dieta podem inibir consumo refletindo em desempenhos inferiores, em contrapartida estudos como BUCKNER et al., obtiveram desempenhos semelhantes com inclusão de até 40% na dieta. Ainda como ponto de atenção, é importante sempre a análise dos níveis de enxofre desses produtos.

Em suma, a utilização dos Grãos de Destilaria, secos ou úmidos, são uma excelente alternativa, principalmente como substitutivos para fontes proteicas como o farelo de soja, e os valores da MS devem ser levados em consideração no momento da escolha de qual produto utilizar na propriedade.

Referências

  • ORRIGAN et al. Effect of Distillers Grains Composition and Level on Steers Consuming High-Quality Forage. Universidade de Nebraska, 2007
  • KLOPFENSTEIN, T., J. WALLER, N. MERCHEN, AND L. PETERSEN. 1978. Distillers grains as a naturally protected protein for ruminants. Distillers Feed Conference Proceedings 33:38–46.
  • National Research Council – NRC. 2016. Nutrient Requirements of Beef Cattle: Eighth Revised Edition
  • Buckner, C.D.; Erickson, G.E.; Mader, T.L.; Colgan, S.L.; Karges, K.K.; Gibson, M.L. 2007. Optimum levels of dry distillers grains with solubles for finishing beef steers. Nebraska Beef Cattle Reports. Paper 68.
  • FS Bionergia pelo site  http://fsbioenergia.com.br/negocios-e-atividades/nutricao-animal/ com  acessado em 20/04/2020. 

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