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Gesso na cultura do café

Você sabe a finalidade do gesso na cultura do café? A especialista Larissa Cocato traz todas as informações neste artigo técnico. Veja:

O que é?

O gesso agrícola (CaSO4.2H2O) é um subproduto da indústria de ácido fosfórico amplamente utilizado na agricultura, com o intuito de condicionar o solo de subsuperficie, proporcionando assim melhoria do ambiente radicular.

gesso na cultura

Figura 1. Aplicação de gesso em superfície em lavouras novas. (Foto: Larissa Cocato).

Benefícios?

O gesso neutraliza o alumínio, sendo esse fator extremamente desejável, visto que, o alumínio é um elemento tóxico para as plantas e pode acarretar em engrossamento e encurtamento das raízes, inibindo assim seu crescimento. Vale destacar que, a raiz é a “boca” da planta, por isso, fatores que podem afetar seu desenvolvimento, possivelmente poderão acarretar em prejuízos a planta, pelo fato do menor volume de solo explorado pelas raízes.

Também, o gesso agrícola fornece cálcio e enxofre, sendo ambos os nutrientes muito importantes para o desenvolvimento das plantas. Destaca-se que em muitos casos o fornecimento do S é normalmente feito via gesso, quando não se utiliza fontes de outros adubos com esse nutriente. Além disso, o gesso proporciona o carreamento das bases: Mg e K para camadas mais profundas do solo, dessa forma, favorecendo o ambiente radicular em subsuperfície e acarretando em maior desenvolvimento radicular. 

Nesse sentido, com um maior desenvolvimento e aprofundamento do sistema radicular, há maior absorção de nutrientes e água, acarretando em reflexos positivos ao desenvolvendo das plantas. Destacando a maior resistência a seca em condições de estresse hídrico, o que é muito desejável devido as condições que vivemos com constante aumento da temperatura e má distribuição do regime de chuvas.

Como ele atua?

gesso na cultura

De acordo com a reação, o Al na forma trivalente, que é tóxico para as plantas, reage com o SO4-2, modificando a espécie iônica do Al, dessa forma, o gesso atua alterando a forma iônica do Al para uma forma menos tóxica.  

Além disso, como mostra a reação, o K+ e o Mg2+ formam respectivamente os compostos K2SO40 e MgSO40 e, que possuem carga zero, e por isso percolam no solo, proporcionando assim melhores condições do ambiente radicular em profundidade.

É importante destacar que o gesso não corrige o pH do solo, portanto esse corretivo não substitui o calcário, dessa forma, as práticas são complementares e possuem objetivos diferentes.

Estudos?

A importância da utilização do gesso no desenvolvimento radicular é demonstrada em vários estudos.

Sousa et al. (2001) mostram a distribuição relativa do sistema radicular da leucena (Leucena leucocephala cv. Cunningham) no perfil do solo, com e sem a aplicação de gesso. Dessa forma, nota-se que o volume radicular explorado na condição de presença do gesso (em verde) é superior quando comparado a testemunha (em vermelho) testemunha.

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Figura 2. Distribuição relativa do sistema radicular da leucena (Leucena leucocephala cv. Cunningham) no perfil de um Latossolo Vermelho argiloso, sem ou com aplicação de 6t há-1 de gesso. O valor de 100% equivale a 5,206g dm-3 de raízes no solo do tratamento com gesso. Souza et al. (2001).

Na cultura do café, a aplicação de gesso agrícola foi eficiente na melhoria do ambiente radicular no subsolo, favorecendo o desenvolvimento de raízes finas eficientes na absorção de água (CARDUCCI et al., 2014), além disso, de acordo com Marques, Faquin e Guimarães (1999), a aplicação de gesso acarretou em aumento nos teores de Ca e S na folha do cafeeiro.

Além disso, Resultados obtidos por Serafim et al. (2011) relatam que áreas com um sistema caracterizado pela aplicação de gesso associado ao cultivo da braquiária na entrelinha e sulco de plantio profundo, tem apresentado resultados promissores, com potencial para reduzir limitações hídricas.

Dessa forma, nota-se a importância da utilização desse condicionador e do seu reflexo positivos ao desenvolvimento radicular.

Solubilidade?

O gesso é cerca de 150 vezes mais solúvel que o calcário, dessa forma ele penetra facilmente no perfil do solo.

Quando recomendar?

Para a recomendação de gesso, é necessário que seja feita a análise de solo na profundidade de 20-40 cm. Essa análise é sempre recomendada para que possamos acompanhar o nível dos nutrientes também em profundidade, e não somente na camada de 0-20.

Após realizada corretamente a amostragem e enviada ao laboratório, deve-se olhar os seguintes itens na análise de 20-40 cm: 

– Al3+ maior que 0,3 cmolc/dmna camada de 20-40 cm

– Ca2+ abaixo de 1,5 cmolc/dm3 na camada de 20-40 cm

Além disso, se o enxofre na análise de 0-20 cm for menor que 20 mg/dm3 e não tiver aplicação de gesso nos últimos 3 anos, também é recomendado que se realize a gessagem.

Aplicação:

Para a recomendação de gesso, nós temos a fórmula de Recomendação com base no teor de argila das camadas inferiores do solo (Souza et al (1997), que considera o teor de argila do solo multiplicado por 75, o qual resulta em uma necessidade em kg por hectare:

NG (Kg/ha) = 75 x teor de argila (%)

Em que:

NG: Necessidade de gessagem em Kg por hectare

Teor de argila (%): teor de argila do solo

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Figura 3. Aplicação de gesso em superfície em lavouras novas – Fazenda localizada no município de Coqueiral/MG, assistida pelo consultor técnico: Diego Baquião.

Na prática, muitos técnicos tem utilizado a recomendação na faixa de 1 a 2 toneladas de gesso por hectare (podendo ser mais em algumas situações), avaliando a situação dos teores dos nutrientes: Al, Ca e S , e também olhando a CTC do solo, para a tomada de decisão mais assertiva, buscando sempre um manejo que proporcione melhores condições para o desenvolvimento radicular e consequentemente ao desenvolvimento da parte aérea das plantas. Além disso, que também seja sustentável do ponto de vista econômico, visto que o gesso é um insumo caro, e para produção de qualquer produto agrícola devemos tomar decisões com base na melhor recomendação técnica em cada situação aliada a situação financeira e análise de custo.

A aplicação de gesso pode ser feita a lanço em área total, no preparo do solo para o plantio de café, no enchimento das covas ou no fechamento de sulcos e em cobertura nas lavouras implantadas, sem ser necessária a incorporação devido a sua solubilidade. É importante que o gesso seja bem distribuído, para que não haja risco de carregamento do gesso pela chuva.

Figura 4. Aplicação de gesso em cobertura em cafeeiros de 7 meses (Foto: Diego Baquião).

Considerações:

Portanto, como vimos, o gesso é um condicionador de solo que proporciona vários benefícios ao desenvolvimento radicular e consequentemente as plantas. Por isso, de acordo com as condições mencionadas de recomendação, devemos fazer o uso do gesso agrícola, a fim de buscar sempre aprofundar raízes e aumentar seu volume de solo explorado, aumentando assim a “boca” da planta, e dessa forma podendo alcançar melhores resultados.

Referências:

  • CARDUCCI, C. E., OLIVEIRA, G. C., CURI, N., HECK, R. J., ROSSONI, D. F., DE CARVALHO, T. S., & COSTA, A. L. Gypsum effects on the spatial distribution of coffee roots and the pores system in oxidic Brazilian Latosol. Soil and Tillage Research, v. 145, p. 171-180, 2014. (Link)
  • MALAVOLTA, E; FERNANDES, D.R; CASALE, H; ROMERO, J.P.PotafosArquivo do Agrônomo, nº 3. 2a edição – revisada e ampliada. Informações Agronômicas, nº 64, 36 p., dezembro de 1993 (Encarte Técnico).
  • MARQUES, E. S., FAQUIN, V. A. L. D. E. M. A. R., & GUIMARÃES, P. T. G. Teores foliares de nutrientes no cafeeiro (Coffea arabica L.) em resposta a calcário e gesso. Ciênc. e Agrotec., v. 23, p. 140-151 1999.
  • RIBEIRO, A. C. (1999). Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais: 5. Aproximação. Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais.
  • SERAFIM, M. E., DE OLIVEIRA, G. C., DE OLIVEIRA, A. S., DE LIMA, J. M., GUIMARÃES, P. T. G., & COSTA, J. C. Sistema conservacionista e de manejo intensivo do solo no cultivo de cafeeiros na região do Alto São Francisco, MG: estudo de caso. Bioscience Journal, Uberlândia, v. 27, n. 6, p. 964-977, Nov./Dec. 2011

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