A cafeicultura brasileira enfrenta constantemente desafios fitossanitários que podem comprometer significativamente a produtividade e a qualidade do produto final. As doenças fúngicas representam uma das principais ameaças à rentabilidade da lavoura de café, com potencial para causar perdas que variam de 30% a 50% da produção quando não manejadas adequadamente.
O uso estratégico de fungicidas no café tornou-se uma ferramenta indispensável no manejo integrado de doenças. No entanto, a eficiência desse controle depende diretamente do conhecimento técnico sobre os produtos disponíveis, o momento correto de aplicação e as melhores práticas de manejo.
Neste artigo, você encontrará um guia completo sobre fungicidas no café, abordando desde as principais doenças até estratégias práticas de aplicação que podem fazer a diferença no resultado final da sua lavoura.
Por que usar fungicidas no café?
O cafeeiro, especialmente o Coffea arabica, é suscetível a diversas doenças fúngicas que podem ocorrer em diferentes estádios de desenvolvimento da planta e em condições climáticas específicas. A utilização de fungicidas no café justifica-se por vários motivos:
Proteção do potencial produtivo
As doenças fúngicas atacam folhas, ramos e frutos, reduzindo a área fotossintética da planta e comprometendo diretamente a produção. Uma desfolha intensa causada por ferrugem, por exemplo, pode reduzir a safra seguinte em até 50%.
Preservação da qualidade do café
Doenças como a cercosporiose podem afetar diretamente os frutos, prejudicando a qualidade da bebida e reduzindo o valor de mercado do produto.
Sustentabilidade econômica
O custo de controle preventivo com fungicidas é significativamente menor que as perdas causadas por epidemias não controladas. Um programa bem planejado oferece retorno sobre investimento positivo.
Longevidade da lavoura
O manejo adequado de doenças contribui para a manutenção da sanidade e vigor das plantas, prolongando a vida útil produtiva.
Principais doenças fúngicas do cafeeiro
1. Ferrugem do cafeeiro (Hemileia vastatrix)
A ferrugem é considerada a doença mais importante economicamente na cafeicultura mundial. Caracteriza-se pelo aparecimento de manchas amarelo-alaranjadas na face inferior das folhas, formando pústulas com esporos que se disseminam facilmente pelo vento.
Condições favoráveis:
- Temperatura entre 21°C e 25°C;
- Alta umidade relativa (acima de 80%);
- Presença de orvalho ou molhamento foliar prolongado;
- Período chuvoso.
Impacto: Pode causar desfolha severa, reduzindo drasticamente a capacidade fotossintética e comprometendo a produção das safras subsequentes.
2. Cercosporiose (Cercospora coffeicola)
Conhecida também como “olho pardo”, a cercosporiose manifesta-se através de manchas circulares marrom-claras com halo amarelado nas folhas. Em frutos, causa lesões escuras que depreciam a qualidade do café.
Condições favoráveis:
- Temperaturas mais elevadas (24°C a 28°C);
- Alternância entre períodos úmidos e secos;
- Ventos que favorecem a disseminação.
Impacto: Além da desfolha, afeta diretamente os frutos, causando perdas quantitativas e qualitativas.
3. Phoma (Phoma tarda)
A mancha de Phoma caracteriza-se por lesões necróticas circulares a irregulares, geralmente com centro claro e bordas escuras,iniciando, geralmente, nos bordos, provocando curvatura.
Condições favoráveis:
- Temperaturas amenas;
- Alta umidade;
- Plantas debilitadas nutricionalmente.
Impacto: Causa desfolha progressiva, afetando o vigor das plantas e a produtividade.
Tipos de fungicidas utilizados no café
Os fungicidas no café podem ser classificados segundo seu modo de ação e mobilidade na planta, cada categoria apresentando características específicas que devem ser consideradas na escolha do produto.
Fungicidas de contato
Características:
- Permanecem na superfície das folhas;
- Não penetram nos tecidos vegetais;
- Atuam preventivamente, impedindo a germinação de esporos;
- Necessitam de boa cobertura da planta.
Principais representantes:
- Cúpricos (oxicloreto de cobre, hidróxido de cobre);
- Ditiocarbamatos (mancozebe).
Vantagens: Baixo risco de desenvolvimento de resistência, ação multissítio
Limitações: Necessitam de reaplicações frequentes, podem ser lavados pela chuva
Fungicidas sistêmicos
Características:
- São absorvidos e translocados pela planta;
- Oferecem proteção interna dos tecidos;
- Possuem ação curativa em estágios iniciais da infecção;
- Maior período de proteção.
Principais representantes:
- Triazóis (tebuconazole, cyproconazole, epoxiconazole);
- Estrobilurinas (azoxistrobina, pyraclostrobina, trifloxistrobina);
- Carboxamidas (fluxapyroxade, benzovindiflupyr).
Vantagens: Maior residual, ação curativa limitada, redistribuição na planta
Limitações: Maior risco de resistência, uso deve ser rotacionado
Fungicidas mesostêmicos
Características:
- Mobilidade intermediária;
- Penetram nos tecidos mas têm translocação limitada;
- Apresentam características de contato e sistêmico.
Principais representantes:
- Algumas estrobilurinas possuem esse comportamento.
Tabela comparativa: categorias de fungicidas

Principais ingredientes ativos recomendados
Grupo dos triazóis
Os triazóis são fungicidas sistêmicos que inibem a biossíntese de ergosterol na membrana celular dos fungos. São amplamente utilizados no controle de ferrugem e cercosporiose.
Ingredientes ativos principais:
- Tebuconazole;
- Cyproconazole;
- Epoxiconazole;
- Difenoconazole.
Aplicação: Geralmente utilizados em misturas com outros grupos químicos para ampliar o espectro e reduzir resistência.
Grupo das estrobilurinas
Fungicidas que atuam na respiração celular dos fungos, possuem ação preventiva e curativa inicial, além de efeitos fisiológicos positivos nas plantas.
Ingredientes ativos principais:
- Azoxistrobina;
- Pyraclostrobina;
- Trifloxistrobina.
Benefícios adicionais: Além do controle de doenças, podem promover maior retenção foliar e tolerância a estresses.
Grupo dos cúpricos
Fungicidas tradicionais de ação multissítio, extremamente importantes em programas de manejo de resistência e orgânicos.
Ingredientes ativos principais:
- Oxicloreto de cobre;
- Hidróxido de cobre;
- Óxido cuproso.
Utilização: Fundamentais em programas de rotação, aplicações de outono/inverno e sistemas orgânicos.
Grupo das carboxamidas
Fungicidas mais modernos com excelente ação sobre ferrugem e outras doenças, representando importante ferramenta no manejo.
Ingredientes ativos principais:
- Fluxapiroxade;
- Benzovindiflupyr;
- Bixafen.
Momento correto de aplicação
O sucesso do controle de doenças com fungicidas no café depende fundamentalmente do timing de aplicação. Aplicações realizadas no momento inadequado resultam em desperdício de recursos e controle insatisfatório.
Monitoramento da lavoura
O monitoramento sistemático é a base para tomada de decisão:
- Frequência: Inspeções semanais durante períodos críticos (primavera e verão) e quinzenais em períodos de menor pressão.
- Metodologia: Avaliar pelo menos 100 plantas por talhão, observando folhas do terço médio e inferior das plantas.
- Nível de ação: Iniciar aplicações quando encontrar de 5% a 10% de folhas com sintomas de ferrugem, dependendo do histórico da área.
Condições climáticas favoráveis
O monitoramento climático é essencial para antecipar períodos de alta pressão de doenças:
Indicadores de risco:
- Sequência de dias com temperatura entre 21°C e 28°C;
- Umidade relativa alta;
- Ocorrência de chuvas ou orvalho intenso;
- Previsão de período chuvoso prolongado.
Ação preventiva: Em situações de alto risco, especialmente após período seco, aplicar fungicidas preventivamente antes do estabelecimento da doença.
Calendário de aplicações estratégicas
Um programa eficiente de aplicação de fungicidas no café considera as fases fenológicas da planta:
Aplicação de outono/inverno (maio a agosto):
- Objetivo: reduzir inóculo residual;
- Produtos recomendados: cúpricos;
- Importância: quebra o ciclo da doença.
Pré-florada (setembro a outubro):
- Objetivo: proteger as folhas novas em formação;
- Produtos: sistêmicos ou misturas;
- Importância: proteger área fotossintética para enchimento de grãos.
Pós-florada/granação (novembro a fevereiro):
- Objetivo: manter área foliar funcional;
- Produtos: misturas de sistêmicos e contato em rotação;
- Frequência: 3 a 5 aplicações, conforme pressão;
- Importância: período crítico para definição de produtividade.
Pós-colheita (maio a junho):
- Objetivo: recuperar plantas e proteger folhas para safra seguinte;
- Produtos: cúpricos ou misturas;
- Importância: sustentabilidade da produção.
Boas práticas na aplicação de fungicidas
Tecnologia de aplicação
A eficiência dos fungicidas no café está diretamente relacionada à qualidade da aplicação:
Volume de calda:
- Lavouras em formação (1-2 anos): 200-300 L/ha;
- Lavouras adultas: 300-500 L/ha.
Tamanho de gotas:
- Preferir gotas médias (200-300 μm);
- Evitar gotas muito finas (deriva) ou muito grossas (baixa cobertura).
Pontas de pulverização:
- Utilizar pontas adequadas ao tipo de produto;
- Fazer manutenção periódica;
- Substituir quando apresentarem desgaste acima de 10%.
Pressão de trabalho:
- Manter entre 200-300 psi para a maioria das situações;
- Ajustar conforme tecnologia de aplicação utilizada.
Condições no momento da aplicação:
- Temperatura abaixo de 30°C;
- Umidade relativa acima de 50%;
- Velocidade do vento entre 3 e 10 km/h;
- Ausência de previsão de chuva nas próximas 2-4 horas.
Rotação de ingredientes ativos
A rotação de mecanismos de ação é fundamental para prevenir o desenvolvimento de resistência:
Princípios básicos:
- Não utilizar o mesmo grupo químico em aplicações consecutivas.
- Alternar entre fungicidas de contato e sistêmicos.
- Utilizar misturas prontas ou em tanque quando apropriado.
Exemplo de sequência:
- Cúprico (contato – multissítio);
- Triazol + Estrobilurina (sistêmico – sítio específico);
- Cúprico ou Mancozebe (contato – multissítio);
- Carboxamida + Triazol (sistêmico – sítio específico);
- Cúprico (contato – multissítio).
Aspectos regulatórios e segurança
O uso de fungicidas no café deve observar rigorosamente a legislação:
Registro e recomendações:
- Utilizar apenas produtos registrados para a cultura.
- Respeitar doses, intervalos de segurança e número de aplicações.
- Consultar receituário agronômico quando necessário.
Equipamentos de proteção individual (EPIs):
- Utilizar EPIs completos durante preparo e aplicação.
- Realizar manutenção periódica dos equipamentos.
- Descartar adequadamente conforme legislação.
Destinação de embalagens:
- Realizar tríplice lavagem.
- Devolver embalagens em postos credenciados.
- Manter registro de notas fiscais e receituários.
Período de carência:
- Respeitar intervalo entre última aplicação e colheita.
- Planejar programa considerando época de colheita.
- Registrar todas as aplicações realizadas.
Conclusão
O manejo eficiente de fungicidas no café representa um dos pilares fundamentais para a sustentabilidade e rentabilidade da cafeicultura moderna. Como vimos ao longo deste artigo, o sucesso dessa estratégia vai muito além da simples aplicação de produtos, exigindo conhecimento técnico, planejamento adequado e integração com outras práticas de manejo.
Os principais pontos para um programa eficiente de controle de doenças com fungicidas incluem: conhecimento profundo das doenças e suas condições favoráveis, escolha correta dos produtos considerando modo de ação e momento de aplicação, rotação criteriosa de ingredientes ativos para manejo de resistência e tecnologia de aplicação adequada para garantir eficiência
O investimento em fungicidas no café, quando bem planejado e executado, oferece retorno significativo através da manutenção do potencial produtivo, preservação da qualidade do produto, longevidade da lavoura e sustentabilidade econômica da atividade.
Lembre-se que cada lavoura possui suas particularidades, e o programa ideal deve ser ajustado às condições específicas de clima, histórico de doenças, cultivares utilizadas e sistema de produção adotado.
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