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Espécies forrageiras no Brasil, Série 1 – Brachiaria brizantha

O processo de evolução das civilizações foi acompanhado, impreterivelmente, pela necessidade e a melhoria nos processos de produção de alimentos. Dentre diversas outras frentes, a produção de proteína animal para consumo humano, ganhou grande destaque, se tornando uma das principais e reconhecidas atividades produtivas de todo o mundo.

No Brasil, país de grande destaque mundial na produção de alimentos, alguns fatores foram determinantes para esse processo. Apelidado de o “celeiro do mundo”, o país apresenta uma série de características que possibilitaram a detenção desse título, e permitiram que nos tornássemos o maior exportador de carne bovina do mundo, exportando expressivas 1,84 milhões de tonelada no ano de 2019, com perspectivas de crescimento significativos, mesmo em um cenário ático em 2020 e de difíceis previsões.

Dentre os fatores que permitiram esses destaques, as dimensões continentais, solo, precipitações, médias de temperatura, possibilitam a produção forrageira, durante praticamente todos os meses do ano, e justamente essa forrageira produzida, será utilizada para a consumo dos ruminantes.

Para isso, entretanto, é necessário que haja confluência entre os fatores citados como favoráveis a produção forrageira, a própria espécie forrageira e o animal, de modo que nesse cenário, algumas espécies forrageiras se destacaram de maneira significativa.

Fonte: Acervo pessoal de Cristiano Rossoni, técnico do Rehagro. 

Essas forrageiras associam com eficiência produção, nas condições geoclimáticas encontradas na maior parte do país, com a produtividade em quantidade e qualidade suficientes para proporcionar um bom desempenho aos animais, quando alinhados com um plano nutricional adequado para a estação do ano. 

As espécies forrageiras do gênero Brachiaria ssp. são o grande destaque quando pensamos em ampla utilização e propulsão da pecuária nacional. Oriundas da África oriental, região de países como Quênia e Tanzânia, as braquiárias foram introduzidas no Brasil, na década de 50 com a Brachiaria decumbens.

Justamente por semelhanças nas características geoclimáticas da região de origem desse gênero, com as características encontradas no Brasil, as braquiárias se adaptaram e se tornaram ao principal gênero utilizado na pecuária de corte.

Trazido algum tempo depois da B. decumbens, em 1984, a Brachiaria brizantha,  principalmente o cultivar Marandú, conhecido popularmente entre pecuaristas e técnicos por “braquiarão”, se tornou a espécie forrageira mais utilizada na produção de pastagens, ainda em 1994 já representava cerca de 45% das pastagens cultivadas no trópico brasileiro com destaque para sua utilização nas regiões amazônica, centro-oeste e sudeste do país.

Fonte: Embrapa (https://www.embrapa.br/busca-de-imagens/-/midia/2134001/integracao-lavoura-pecuaria-floresta-com-gado-de-corte, acessado em 30/04/2020)

Assim como as outras braquiárias, o braquiarão, é um a espécie perene, ou seja, sua cultura permanece por anos em uma pastagem, sem a necessidade de replantar aquela forrageira, desde que seja manejada adequadamente. Uma característica importante dessa espécie, que difere ela da maioria das outras espécies do gênero, está relacionado ao seu hábito de crescimento com colmos eretos e sub eretos, podendo atingir alturas entre 1 e 1,5 metros, o que pode ser considerado, inclusive, como um facilitador para o manejo.

Em geral, as folhas são lanceoladas (em forma de lança) sem ou com poucos pelos e seus rizomas são curtos, 30 a 50 mm de comprimento, cobertos de escamas amareladas e brilhantes o que sinaliza uma boa capacidade de tolerância ao pastejo.

Além dessas características físicas/anatômicas, que impactam no sistema de pastejo dessa espécie forrageira, algumas características relacionadas à produção devem ser levadas em consideração no momento da escolha pela utilização dessa gramínea.

O braquiarão apresenta boa produção de forragem e apresenta considerável exigência à fertilidade do solo e resistência à cigarrinha das pastagens quando comparada às outras espécies do gênero como a Brachiaria decumbens. Além disso, possui alto valor nutritivo, também comparado à outras espécies de braquiárias.

O somatório das características, em pastagens bem manejadas e adubadas, refletem em um material com proteína de alta degradabilidade ruminal e baixas quantidades de carboidratos estruturais de degradação lenta.

Fonte: Acervo pessoal de Cristiano Rossoni técnico do Rehagro.

Um ponto de atenção, significativo, deve ser tratado quando falamos sobre o cultivar Marandú é a síndrome da morte do braquiarão, também conhecida como “morte súbita do braquiarão”. É um problema de grande impacto nas regiões central e norte do país. A utilização dessa espécie forrageira deve ser criteriosamente avaliada em regiões que apresentam esse desafio.

Entre os cultivares de Brachiaria brizantha, existem diferenças que também devem ser levados em consideração, e a ressalva se faz necessária.

O cultivar Xaraés, MG5 quando comparado ao Marandu apresenta alta produtividade e rápida rebrota e florescimento tardio, prolongando o pastejo nas águas, entretanto, a alta produtividade está associada à maiores desafios no manejo, com característica significativa em alongamento de caule e perda maior na qualidade à medida que a forrageira atinge a maturidade, mas a “perda” em valor é compensado pela produtividade e eficiência de uso por área. 

Espécies forrageiras

Fonte: Braquiária xaraés. Embrapa  https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/869/brachiaria-brizantha—xaraes, acessado dia 30/04/2020

Ainda mais recente do que a Xaraés, lançada em 2003, a Embrapa disponibilizou recentemente a Brachiaria brizantha BRS Paiaguás. Esse material apresenta um porte menor do que as outras brizanthas, com porte semelhante à decumbens, de folhas e colmos finos. A Paiaguás, apresenta boa produtividade nas secas e fácil manejo, sendo uma boa opção para os sistemas de integração, entretanto, não é recomendada em áreas com grandes desafios à cigarrinha das pastagens por ser bastante susceptível.

Espécies forrageiras

Fonte: Braquiária Paiaguás. Embrapa (https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/892/brachiaria-brizantha—brs-paiaguas, acessado dia 30/04/2020).

Outra variedade interessante de Brachiaria brizantha, também lançada pela Embrapa, é BRS Ipyporã, que apresenta como característica marcante a elevada resistência à cigarrinha das pastagens e também à Mahanarva spp., também um melhor valor nutritivo que representa boas condições de proporcionar maiores ganhos individuais aos animais.

Espécies forrageiras

Fonte: Braquiária Ipypora. Embrapa (https://www.embrapa.br/busca-de-imagens/-/midia/4067002/capim-ipypora, acessado em 30/04/2020).

A Tabela abaixo traz um resumo das principais características dessas braquiárias que o produtor deve atentar-se antes de introduzi-la na propriedade. 

Fonte: Adaptado da aula professor Ricardo Reis, Pós-Graduação Produção e Manejo de Pastagem para Bovinos de Corte do Rehagro.

Além das características citadas, e aliadas a elas, a utilização desse gênero pode representar outros benefícios, como a utilização em relevos mais acidentados, com boa cobertura de solo, evitando processos de degradação e erosão do solo.

Independente de qual espécie será utilizada em seu sistema de produção, a exigência por um bom manejo é indispensável. Respeitar as alturas de entrada e saída de cada uma das espécies, corrigir e adubar o solo onde estão estabelecidas essas pastagens, controlar pragas e invasoras, sempre será um pré-requisito para o sucesso na produção.

A Brachiaria brizantha é uma das principais responsáveis pela evolução e pelo avanço na intensificação da produção de gado de corte no Brasil, sua utilização é cabível em grande parte das regiões produtoras do país, por isso entender o funcionamento e as principais característica de seus cultivares pode definir a escolha da utilização e o sucesso na produção bovina a pasto.

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