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Aplicação de defensivos agrícolas

Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas: veja as melhores práticas

A tecnologia de aplicação é um conjunto de conhecimentos que integram informações sobre os defensivos agrícolas, suas formulações e adjuvantes, o processo de pulverização, os alvos e o ambiente, visando uma aplicação correta, segura e responsável.

Sendo assim, a tecnologia de aplicação visa a colocação do produto no alvo; no ‘timing’ adequado; na quantidade requerida; de forma econômica; e com o mínimo de contaminação humana e ambiental.

O principal objetivo de uma pulverização é garantir a lucratividade e rentabilidade da cultura, de modo que não se possa reduzir os custos ao ponto de comprometer significativamente a produtividade final e, consequentemente, a lucratividade esperada.

 

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Quais as melhores práticas para aplicação de defensivos agrícolas?

1. Inspeção Periódica de Pulverizadores

A Inspeção Periódica de Pulverizadores (IPP), visa avaliar o estado de pulverizadores agrícolas com base no estado de conservação e operacionalidade que pode nortear orientação de uso e manutenção, além da redução do impacto ambiental.

Devem ser examinados os componentes do circuito hidráulico do pulverizador (tanque, bomba, manômetro, filtros, mangueiras, bicos entre outros) a fim de verificar se estes componentes se encontram em boas condições. Caso o pulverizador esteja equipado com controlador automático de taxa de aplicação e pressão, suas configurações e programação deve ser conhecida do operador.

Ampliação da variação na vazão das pontas de pulverização

Avaliação da variação na vazão das pontas de pulverização.

Teste de vazão de pontas de pulverização

Teste de vazão de pontas pulverizadoras

Teste de vazão de pontas de pulverização.

Modelo de check list para realizar a IPP

Modelo de checklist para realização da IPP

2. Qualidade da Água para Pulverização

Dentre os fatores que podem influenciar a qualidade química da água e tem grande interferência sobre a eficácia dos defensivos agrícolas está a “dureza”.

A dureza da água está relacionada aos teores de carbonatos, sulfatos, cloretos e nitratos de vários cátions. Íons livres (Al+3, Zn+2, Ca+2, Mg+2, HCO3-, NO3-) podem combinar com moléculas orgânicas como a reação dos íons de 2,4-D com Ca+2 e Mg+2 e da quelação dos íons pelo glifosato.

Isso reduz a quantidade de ingrediente ativo disponível, por consequência reduz a eficiência biológica do herbicida, além do entupimento das pontas de pulverização, em função da aglutinação e precipitação das partículas. Neste sentido, níveis de até 320 ppm de CaCO3 apresentam boa compatibilidade.

Tabela com as formas de classificação da dureza da água

Formas de classificação da dureza da água. (Fonte: Queiroz et al. (2008)).

Além da qualidade química, a qualidade física da água é de extrema importância, principalmente quanto a quantidade de sedimentos em suspensão. Sedimentos como argila e matéria orgânica, além de obstruir filtros e pontas, reduzem a vida útil dos equipamentos (bombas e pontas), sendo que também podem se associar aos produtos químicos adicionados ao tanque, inativando ou reduzindo sua eficiência.

Um exemplo clássico é a inativação do glifosato pela argila presente na solução de aplicação. A adsorção do herbicida as partículas de argila ocorrem devido à atração entre as cargas da superfície do colóide do solo com as moléculas do herbicida.

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3. Adjuvantes

As superfícies das plantas apresentam uma barreira para a penetração de líquidos, denominada cutícula, cujas características variam de espécie para espécie e dependem da idade dos órgãos vegetais e das condições climáticas.

Para vencer estas barreiras das plantas à penetração dos defensivos agrícolas, são utilizadas substâncias inertes, denominadas aditivos ou adjuvantes, capazes de modificar a atividade dos produtos aplicados e as características da pulverização, aumentando a eficiência da aplicação.

Estes produtos podem ser acrescentados à formulação dos defensivos agrícolas pelas empresas fabricantes, ou ser adicionados à calda no momento da pulverização.

Gota de água em folha com e sem uso de adjuvantes

Gota sem uso de adjuvante (esquerda) e com uso de adjuvante (direita). 

A cutícula da folha é a primeira barreira que o defensivo agrícola precisa passar. A adição de adjuvante pode influenciar nesse processo. A utilização de óleos tem como função melhorar a penetração e adesão dos defensivos agrícolas nas folhas e da camada de quitina dos insetos.

Os três principais modos de ação dos adjuvantes para melhorar a penetração dos produtos são:

  1. Alteração no depósito do ingrediente ativo na superfície foliar;
  2. Efeito na difusão transcuticular;
  3. Permeabilidade da membrana plasmática.

Dentre os efeitos dos adjuvantes, destaca-se a redução da tensão superficial das gotas pulverizadas, causando o seu achatamento, o que aumenta a sua superfície de contato com o alvo biológico e melhora a cobertura deste.

Tabela com classificação e função dos adjuvantes

Classificação e função dos adjuvantes.

No Brasil os adjuvantes estão em duas categorias:

  1. Os adjuvantes utilizados em pacotes casados (oficiais);
  2. Adjuvantes caracterizados como fertilizantes foliares (não oficiais), devido a nova determinação do MAPA que isentam o registro de adjuvantes.

Grande parte dos problemas advindos da utilização de aditivos de calda origina-se do desconhecimento de sua ação e das implicações de sua utilização.

Atualmente o uso de adjuvantes é uma prática importante no aumento da eficiência dos defensivos agrícolas. Sua utilização melhora na medida que a qualidade de aplicação aumenta e assim, a quantidade de ingrediente ativo nas plantas.

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4. Mistura de Defensivos Agrícolas

Segundo a instrução normativa N° 40 de 11 de outubro de 2018 do MAPA, a mistura em tanque é permitida desde que haja recomendação técnica, que só pode ser feita por um profissional de nível superior.

Desta forma, cabe aos engenheiros agrônomos e/ou engenheiros florestais receitarem a aplicação combinada de diferentes produtos. A normativa traz transparência a esta prática, que deixa de ser um tabu, em que todos executam a prática, mas ninguém fala sobre ela.

Nas aplicações de defensivos agrícolas os produtores realizam mistura de defensivos a fim de otimizar a pulverização. Por consequência tem como resultante uma mistura de difícil previsão devido às variáveis envolvidas como pH, viscosidade, tensão superficial, formação de  espuma, dispersibilidade, decantação, temperatura, cristalização, entre outros.

Nessas misturas, é muito provável que alguns tipos de perdas ocorram com os defensivos adicionados. A fim de minimizar esses efeitos, assim que adicionados os defensivos agrícolas no tanque é necessário ligar o sistema de agitação.

Em tanques de maior capacidade, é comum a existência de “pontos mortos”, onde há dificuldade de se manter a uniformidade na concentração dos produtos. Recomenda-se também a pré-diluição de defensivos de baixa solubilidade (WG, WP e SC), caso contrário pode haver deposição no fundo do tanque reduzindo assim, sua funcionalidade.

Independente da solubilidade ou formulação dos produtos, a agitação deverá estar sempre ligada e ininterrupta, e os produtos adicionados gradativamente no reservatório. A mistura de dois produtos ou mais, sejam defensivos agrícolas ou demais produtos, podem ocasionar três efeitos:

  1. Aditivo: o efeito da aplicação da mistura será semelhante ao da aplicação dos produtos individualmente, ou seja, um produto não interfere na eficácia do outro;
  2. Sinérgico: o efeito da aplicação da mistura será superior ao da aplicação dos produtos individualmente, ou seja, um produto melhora a eficácia do outro;
  3. Antagônico: o efeito da aplicação da mistura será inferior ao da aplicação dos produtos individualmente, ou seja, um produto piora a eficácia do outro.

Como medida de precaução, assim que os defensivos agrícolas chegarem à propriedade deve ser realizado uma pré-mistura em garrafa pet, nas mesmas proporções indicadas nas aplicações de campo, seguindo a sequência apresentada na tabela logo abaixo.

Caso tenha algum problema de incompatibilidade, deve-se advertir para retirada do defensivo que ocasionou o problema e seguir com a sequência de mistura.

Pré-mistura de defensivos agrícolas em garrafas pet

Pré-mistura de defensivos agrícolas em garrafas pet.

Pré-mistura de defensivos agrícolas

Etapas do preparo de calda de pulverização

Equipamentos para preparo de calda de pulverização

Equipamentos utilizados para o preparo de calda de pulverização.

Tabela com sugestão de ordem de mistura em tanques de pulverização

Sugestão para ordem de mistura em tanques de pulverização.

5. Pressão de trabalho

A pressão de trabalho está associada ao fluxo de calda que estará quando passar pelo orifício de saída da ponta de pulverização.

Sua importância está ligada à formação de gotas de diâmetro correto, para formação do jato no ângulo nominal e para que as gotas tenham velocidade suficiente para atingir o alvo sem que haja tempo para se perderem por deriva.

1 bar = 100 kPa = 14,5 PSI = 1,01 kgf/cm²

A forma de checar a pressão do sistema é por meio de um manômetro. Sem a utilização dele é impossível saber qual é o espectro de gotas que está sendo produzido pela ponta e estimar vazão da ponta.

Em alguns pulverizadores montados ou de arrasto, é comum não encontrar o manômetro ou que ele esteja quebrado ou ausente.

O manômetro de ponta pode indicar a leitura com maior acurácia. Caso tenha acúmulo de resíduos por sedimentação na tubulação ou obstrução de filtros, é provável que ocorram diferenças na leitura entre o manômetro do regulador de pressão e o acoplado na saída da ponta.

Manômetro de ponta e do pulverizador

Manômetro de ponta (esquerda) e manômetro do pulverizador (direita). 

Não se deve utilizar pressões abaixo de 2,7 bar (40 PSI), pois alguns modelos de pontas não abrem totalmente o jato pulverizado e/ou apresentam desuniformidade no espectro de gotas produzidas.

Na tabela a seguir é apresentada uma sugestão para pressão de trabalho de acordo com o grupo de defensivos agrícolas que são utilizados.

Tabela com faixa de trabalho de pulverização

Faixa de pressão de trabalho.

Ao escolher uma ponta de pulverização pelo diâmetro de gota produzido, é necessário correlacionar seu diâmetro com a pressão de trabalho.

Nesse sentido é comum o operador aumentar a velocidade de trabalho e o controlador compensar com aumento da pressão do sistema, reduzindo o diâmetro de gotas, o que pode gerar deriva.

6. Pontas de pulverização

Para uma boa pulverização, ela deve apresentar gotas no tamanho de interesse e com o mínimo de deriva possível, sempre de acordo com o que o produto e as condições do alvo a ser pulverizado exijam.

A ponta de pulverização é responsável por diversos aspectos relacionados à qualidade da aplicação, como diâmetro das gotas, distribuição do líquido pulverizado, uniformidade de distribuição e vazão da calda. O espectro de gotas segundo (ASABE, 2009) classifica em oito classes, sendo elas apresentadas na tabela a seguir.

Tabela com classe de gostas de pulverização

Classe de gotas de pulverização.

Tipos de pontas de pulverizador

Tipos de pontas vs. tamanho de gotas.

Sendo assim a escolha correta das pontas de pulverização deve priorizar os seguintes passos:

  1. Modo de ação dos produtos;
  2. Condições climáticas;
  3. Situação do alvo a ser controlado.

De maneira geral, as condições climáticas para uma boa pulverização preconizam que tenha umidade relativa superior a 50%, temperatura inferior a 30°C e velocidade do vento entre 2 e 10 km/h.

As condições climáticas podem interferir diretamente no risco de deriva, onde é definido através do volume pulverizado por determinada ponta a uma determinada pressão com gotas inferiores a 100 micrômetros de diâmetro. 

Para avaliação do risco de deriva no campo tem-se utilizado papel sensível à água, posteriormente uso de um software que realiza a contagem de gotas por cm² e mensurar o diâmetro mediano volumétrico das gotas. Além disso, possibilita a investigação do percentual de cobertura no interior do dossel das plantas cultivadas.

Tabela com número de gotas e o tipo de aplicação

Número de gotas por cm² vs. tipo de aplicação.

7. Limpeza do tanque de pulverização

Com a intensificação de cultivo de safra e safrinha, mistura de defensivos agrícolas nos tanques de pulverização e o número de aplicações realizadas durante os cultivos, os pulverizadores começam a acumular resíduos de defensivos agrícolas até que seja feita a correta limpeza de todo o sistema de pulverização.

Antes da aplicação, comece com o equipamento limpo e bem conservado. Imediatamente após a aplicação, deve ser realizada uma completa limpeza de todo o equipamento para reduzir o risco da formatação de depósitos sólidos que podem se tornar difíceis de serem removidos.

O adiamento, mesmo por poucas horas, somente torna a limpeza mais difícil. A não lavagem ou mesmo a lavagem inadequada do pulverizador pode resultar em danos às culturas posteriores.

Caldas com dificuldade de homogeneização, entupimentos de pontas, obstrução de filtros pode ser advindo de uma falta de limpeza do sistema de pulverização. Na tabela a seguir são apresentados os passos a serem seguidos para uma limpeza de tanque de pulverização.

Tabela com etapas de limpeza de tanque de pulverização

Etapas para limpeza do tanque de pulverização. 

Tubulação com resíduos de defensivos agrícolas

Tubulação de pulverizador com resíduos de defensivos agrícolas. 

8. Uso de EPI’s

O uso seguro de defensivos agrícolas exige o uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI). As recomendações hoje existentes para o uso de EPI são bastantes genéricas e padronizadas, não considerando variáveis importantes como o tipo de equipamento utilizado na operação, os níveis reais de exposição e, até mesmo, as características ambientais e da cultura onde o produto será aplicado.

EPI’s são ferramentas de trabalho que visam proteger a saúde do trabalhador que utiliza os defensivos agrícolas, reduzindo os riscos de intoxicações decorrentes da exposição.

Vias de exposição aos defensivos agrícolas

Vias de exposição do corpo humano. 

A função básica dos EPI’s é proteger o organismo de exposições ao produto tóxico, minimizando o risco. Intoxicação durante o manuseio ou a aplicação de produtos fitossanitários é considerado acidente de trabalho.

O uso do EPI é uma exigência da legislação trabalhista brasileira através de suas normas regulamentadoras. O não cumprimento poderá acarretar ações de responsabilidade cível e penal, além de multas aos infratores.

Quanto às responsabilidades a legislação trabalhista prevê que são obrigações do empregador:

  • Fornecer os EPI’s adequados ao trabalho;
  • Instruir e treinar quanto ao uso dos EPI’s;
  • Fiscalizar e exigir o uso dos EPI’s;
  • Repor os EPI’s danificados.

Como obrigação do trabalhador:

  • Usar e conservar os EPI’s.

É recomendado que o fornecimento de EPI e que treinamentos ministrados sejam registrados através de documentação apropriada para eventuais esclarecimentos em causas trabalhistas.

EPI para aplicação de defensivos agrícolas

EPI para manuseio de defensivos agrícolas. 

Tabela com ordem de vestir e retirar o EPI

Ordem de vestir e retirar o EPI.

Conclusão

Percebemos que para obter sucesso na aplicação de defensivos agrícolas, o mais importante é a capacitação do operador do pulverizador na compreensão dos pontos críticos atrelados à prática da pulverização, protegendo a lavoura com eficiência e otimização dos recursos.

Seguindo essas e outras recomendações, as chances do sucesso e eficácia da aplicação de defensivos agrícolas serão com certeza maiores. Por isso, a busca pelo conhecimento e especialização deve ser contínua.

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Alessandro Alvarenga

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