A mastite subclínica é um dos principais desafios da bovinocultura leiteira, ocasionando perdas produtivas e comprometendo a qualidade do leite em rebanhos de todo o mundo. Entre os agentes etiológicos frequentemente associados a essa condição estão os Staphylococcus não-aureus (SNA), um grupo de microrganismos cuja relevância tem aumentado nas últimas décadas, especialmente em primíparas.
O gênero Staphylococcus compreende mais de 50 espécies de bactérias, destes, mais de 10 foram classificados como coagulase negativo, responsáveis por diversas infecções. Entre os SNA mais frequentemente isolados em casos de mastite bovina destacam-se Staphylococcus chromogenes e Staphylococcus simulans, além de espécies como S. hyicus e S. epidermidis. Algumas dessas espécies apresentam maior associação com a pele e o canal do teto, enquanto outras são isoladas com maior frequência em amostras de leite provenientes de quartos infectados.
Historicamente, esses microrganismos foram classificados como patógenos menores devido ao seu caráter predominantemente subclínico e por causar mastite clínica de forma mais branda, quando comparados a agentes como Staphylococcus aureus, estreptococos e coliformes.
Os SNA estão entre os agentes mais frequentemente isolados em rebanhos leiteiros de diversos países. As infecções por essas bactérias estão associadas ao aumento da contagem de células somáticas (CCS) e podem resultar em perdas econômicas relacionadas à redução da qualidade do leite e à diminuição da produção, especialmente em infecções persistentes.
Ao longo deste texto serão abordadas as principais características dos estafilococos não-aureus, sua importância na mastite bovina, os impactos sobre a qualidade do leite e os desafios relacionados ao diagnóstico, controle e prevenção dessas infecções nos rebanhos leiteiros.
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Principais características dos Staphylococcus não-aureus (SNA)
Os Staphylococcus não-aureus (SNA) constituem um grupo bastante heterogêneo de bactérias pertencentes ao gênero Staphylococcus. Embora compartilhem características microbiológicas em comum, como o formato esférico (cocos), a coloração Gram-positiva e a organização em agrupamentos semelhantes a cachos de uva, as diferentes espécies apresentam comportamentos distintos em relação à epidemiologia, patogenicidade e capacidade de causar mastite.
De forma geral, os SNA são considerados microrganismos oportunistas que habitam naturalmente a pele, as mucosas e outras regiões do corpo dos animais. Além disso, podem ser encontrados em diferentes reservatórios do ambiente, incluindo cama, equipamentos de ordenha, canal do teto e superfície da pele do úbere. Essa ampla distribuição favorece o contato frequente com a glândula mamária e contribui para a ocorrência de infecções intramamárias (DEGO et al, 2024).
Além disso, estudos demonstram que determinadas espécies possuem mecanismos de virulência que favorecem sua permanência no ambiente e no hospedeiro. Entre eles destaca-se a formação de biofilme, uma estrutura que facilita a adesão a superfícies, equipamentos de ordenha e tecidos do hospedeiro, além de dificultar a eliminação bacteriana. Essa característica também pode favorecer a disseminação desses microrganismos dentro do rebanho (DEGO et al, 2024).
Impactos produtivos e econômicos dos estafilococos não-aureus
Embora tradicionalmente classificados como patógenos menores, os SNA podem causar prejuízos relevantes, especialmente devido à elevada frequência com que são encontrados nos rebanhos leiteiros.
De modo geral, as infecções por SNA estão associadas ao aumento da CCS, um dos principais indicadores de inflamação da glândula mamária. Em infecções persistentes, a CCS pode permanecer significativamente elevada em comparação aos quartos mamários sadios, comprometendo a qualidade do leite e aumentando o risco de penalizações ou perda de bonificações relacionadas à qualidade do produto.
Além dos efeitos sobre a CCS, diversos estudos demonstram que os SNA também podem impactar a produção de leite. Embora as perdas sejam geralmente inferiores às observadas para patógenos maiores, como Staphylococcus aureus, reduções na produção de leite têm sido relatadas tanto em casos clínicos quanto subclínicos (HEIKKILÄ et al., 2018).
Em estudo realizado por Heikkila e colaboradores (2018), os SNA representaram o grupo de patógenos mais frequentemente isolado entre os casos avaliados, correspondendo a 46% dos diagnósticos, com 89% das infecções relacionadas a casos subclínicos. Quando a mastite foi diagnosticada antes do pico de lactação, a redução média na produção chegou a 1,8 kg de leite por vaca ao dia, resultando em uma diminuição de aproximadamente 5,7% da produção aos 305 dias em leite. Além disso, os autores observaram que os impactos produtivos tendem a ser maiores quando a infecção ocorre no início da lactação, quando comparados com casos ao longo da lactação.
Assim como ocorre com outros agentes da mastite, os prejuízos associados aos SNA vão além da redução da produção. Custos relacionados ao diagnóstico, monitoramento da CCS, tratamentos, descarte de leite e medidas de controle também devem ser considerados. Por isso, embora frequentemente apresentam quadros mais brandos, os estafilococos não-aureus podem gerar impactos econômicos significativos, principalmente em rebanhos onde sua prevalência é elevada.
SNA: um desafio especialmente importante em primíparas
Uma revisão conduzida por Valckenier e colaboradores (2019) demonstrou que a prevalência de infecções intramamárias em primíparas no início da lactação pode variar amplamente entre rebanhos, sendo os SNA os agentes mais frequentemente isolados, representando 76,4% das infecções intramamárias em primíparas nos primeiros 4 dias após o parto.
Além disso, quartos mamários infectados por SNA em primíparas podem apresentar maior infiltração de leucócitos e alterações na arquitetura do tecido mamário quando comparados a quartos saudáveis, sugerindo que essas infecções podem interferir no desenvolvimento da glândula mamária e, consequentemente, influenciar o desempenho produtivo futuro dos animais (PYÖRÄLÄ; TAPONEN, 2009) .
Embora o impacto produtivo das infecções por SNA em primíparas possa variar entre espécies bacterianas e características do rebanho, a elevada prevalência observada nessa categoria animal reforça a importância do monitoramento da saúde mamária ainda no período pré-parto. Dessa forma, estratégias de prevenção e controle voltadas para novilhas podem contribuir para reduzir a ocorrência de infecções no início da lactação e seus potenciais efeitos sobre a qualidade do leite e a saúde do úbere.
Como prevenir infecções por estafilococos não-aureus?
Nesse contexto, as boas práticas de ordenha continuam sendo fundamentais. Medidas como a correta higienização dos equipamentos, o uso de rotina adequada de pré e pós-dipping e a manutenção da saúde dos tetos contribuem para reduzir a transmissão de microrganismos e a ocorrência de novas infecções. Estudos demonstram que a interrupção da desinfecção dos tetos após a ordenha pode aumentar significativamente a prevalência de infecções por SNA (Lam et al., 1997).
Além disso, a prevenção não deve se limitar aos animais em lactação. Considerando a elevada prevalência de infecções por SNA em novilhas, o período pré-parto merece atenção especial. Aspectos relacionados ao ambiente, conforto, higiene e manejo das fêmeas jovens podem influenciar diretamente a saúde da glândula mamária antes mesmo do início da primeira lactação. Dessa forma, estratégias voltadas para o bem-estar das novilhas e para a redução da exposição a potenciais fontes de infecção representam uma importante ferramenta de controle.
Conclusão
Os estafilococos não-aureus (SNA) estão entre os agentes mais frequentemente isolados em casos de mastite bovina, especialmente em novilhas e vacas primíparas. Embora tradicionalmente considerados patógenos menores, evidências recentes demonstram que sua elevada prevalência, capacidade de aumentar a contagem de células somáticas e potencial impacto sobre a produção de leite justificam maior atenção por parte de produtores e profissionais da área.
Além da diversidade de espécies envolvidas, os SNA apresentam diferenças importantes quanto à capacidade de colonização, persistência e impacto na saúde da glândula mamária. Por isso, o diagnóstico microbiológico e o monitoramento contínuo do rebanho são ferramentas fundamentais para compreender a dinâmica dessas infecções e direcionar estratégias de controle mais eficazes.
Nesse contexto, medidas preventivas associadas às boas práticas de ordenha, ao manejo adequado das novilhas e ao monitoramento da qualidade do leite permanecem como os principais pilares para reduzir a ocorrência dessas infecções e seus impactos produtivos e econômicos nos rebanhos leiteiros.
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Referências:
- DEGO, Oudessa Kerro; VIDLUND, Jessica. Staphylococcal mastitis in dairy cows. Veterinary Medicine and Science, [S.l.], v. 10, n. 4, e70038, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11165426/. Acesso em: 11 de junho de 2026
- HEIKKILÄ, A.-M.; LISKI, E.; PYÖRÄLÄ, S.; TAPONEN, S. Pathogen-specific production losses in bovine mastitis. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 101, n. 10, p. 9493–9504, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.3168/jds.2018-14824. Acesso em: 12 jun. 2026.
- PYÖRÄLÄ, Satu; TAPONEN, Suvi. Coagulase-negative staphylococci—Emerging mastitis pathogens. Veterinary Microbiology, Amsterdam, v. 134, n. 1–2, p. 3–8, 2009.
- VALCKENIER, D.; PIEPERS, S.; DE VISSCHER, A.; BRUCKMAIER, R. M.; DE VLIEGHER, S. Effect of intramammary infection with non-aureus staphylococci in early lactation in dairy heifers on quarter somatic cell count and quarter milk yield during the first 4 months of lactation. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 102, n. 7, p. 6442–6453, 2019. Disponível em: https://www.journalofdairyscience.org/article/S0022-0302(19)30381-9/fulltext. Acesso em: 12 jun. 2026.








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