Qualquer pessoa que trabalha com pecuária de corte no Brasil sabe que a atividade exige muito mais do que paixão pelo campo. Em um cenário de margens cada vez mais apertadas, volatilidade de preços e crescente profissionalização da cadeia, os produtores que prosperarão nos próximos anos serão aqueles que souberem unir três dimensões de forma integrada: genética de qualidade, gestão baseada em dados e eficiência operacional.
Esse foi o fio condutor do episódio do Podcast Fazenda Lucrativa, do Rehagro, que recebeu Fabiano Araújo, médico veterinário formado pela Universidade Federal de Uberlândia, mestre em ultrassonografia aplicada ao melhoramento genético pela UC Davis (Califórnia), e especialista na Aval Serviços Tecnológicos.
Ao longo de mais de uma hora de conversa rica e prática, Fabiano compartilhou aprendizados de décadas no “chão de fábrica” das fazendas brasileiras, lições sobre melhoramento genético multiqualificado, os principais indicadores que monitoram sua operação e, acima de tudo, como uma cultura de dados transforma a qualidade das decisões e os resultados no final do ano.
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Melhoramento genético além da carcaça: o animal multiqualificado
Durante décadas, o melhoramento genético na pecuária de corte concentrou o foco em peso e ganho de massa. Essa abordagem, embora legítima em seu tempo, gerou um efeito colateral importante: animais com alto desempenho produtivo, mas com fertilidade comprometida e peso adulto acima do ideal.
Fabiano Araújo aprendeu isso observando os rebanhos americanos. Quando uma vaca passa de 600 kg, o aumento de produção não compensa mais o custo adicional de mantença. O mesmo princípio vale para o Nelore: o produtor que busca desempenho a qualquer custo aumenta o peso adulto do rebanho, eleva o consumo e reduz a eficiência econômica da fazenda.
A resposta para esse desafio é o conceito de animal multiqualificado, aquele que é selecionado simultaneamente por várias características economicamente relevantes, em equilíbrio.
As características que realmente impactam o lucro da fazenda
A Aval, empresa fundada por Fabiano, atende mais de 250 fazendas com avaliações de ultrassonografia para seleção genética. Com base nessa experiência, Fabiano identifica as principais características que devem ser monitoradas de forma integrada:

O poder da ultrassonografia como ferramenta de seleção in vivo
A grande contribuição que Fabiano trouxe para o Brasil, ainda no início dos anos 2000, foi o uso sistemático da ultrassonografia para avaliar as características de carcaça no animal vivo. Isso permitiu, pela primeira vez, identificar o potencial genético de reprodutores e matrizes com precisão, sem depender de avaliação visual subjetiva ou de dados pós-abate.
O momento ideal de avaliação é importante: é preciso ter variabilidade suficiente entre os animais do grupo para que a seleção seja efetiva. O trabalho de mestrado de Fabiano justamente estudou em que fase do desenvolvimento o Nelore apresenta a melhor variabilidade para gordura, musculatura e peso, identificando o ponto ótimo de avaliação para maximizar o ganho genético por geração.
Os indicadores que definem a eficiência da pecuária de corte
Fazenda de cria
Na fase de cria, a eficiência se mede por um conjunto de indicadores reprodutivos e de manejo que determinam quantos bezerros de qualidade saem da fazenda por vaca exposta ao touro ou à inseminação. O Grupo Santa Vitória, o qual Fabiano é gestor, consolidou um padrão de excelência que serve de referência:
- Estação de monta de 3 meses: reduz a variação na curva de nascimento e concentra os bezerros em um período favorável.
- Taxa de concepção acima de 84%: com diagnóstico de gestão final entre 71% e 72% de novilhas precoces (14-16 meses).
- Mortalidade de bezerros abaixo de 1,5%: resultado de manejo adequado, nutrição correta e genética adaptada.
- Curva de nascimento concentrada: bezerros nascidos mais cedo têm mais tempo para se desenvolver antes da desmama, chegando mais pesados e permitindo à vaca uma recuperação mais longa antes da próxima estação.
- Lotação superior a 1,3 UA/ha: desafio crescente com a pressão da integração lavoura-pecuária, mas viável com forrageiras adequadas e suplementação estratégica.
Fazenda de recria e engorda
Na fase de recria e terminação, dois indicadores se destacam: o Ganho Médio Diário (GMD) e a lotação (UA/ha). O gestor habilidoso é aquele que encontra o ponto de equilíbrio entre os dois: aumentar a lotação sem comprometer o GMD de forma que inviabilize a margem.
O Grupo Santa Vitória triplicou a média nacional de arroba por animal. Enquanto o JBS, maior frigorífico do Brasil, registra uma média de peso de abate em torno de 20,4 arrobas, o grupo de Fabiano fecha com 23,5 arrobas. Isso representa três arrobas a mais por animal, e um impacto direto na estrutura de custo do frigorífico parceiro, cujo custo fixo é diluído em 15% pelo processamento de animais mais pesados. Esse diferencial abre espaço para negociação e parcerias comerciais diferenciadas.
O problema da transição seca-chuva: onde a maioria perde dinheiro
Um dos alertas mais práticos da conversa foi sobre a transição entre a seca e as águas. Em regiões com seis meses de seca e seis de chuva (como o Vale do Araguaia, onde opera o grupo de Fabiano), os primeiros 30 dias da estação chuvosa são críticos: o pasto ainda não está pronto, e o animal para de ganhar peso ou até perde.
A solução passa por duas frentes complementares:
- Introdução de capins de ciclo curto (“pânicos”), que brotam rapidamente após as primeiras chuvas e entram em produção antes das forrageiras convencionais;
- Uso estratégico de suplementação nesse período de transição.
O Grupo Santa Vitória aumentou o rebanho e reduziu a área de pastagem justamente porque otimizou essa janela de GMD, transformando quatro meses produtivos em sete.
Integração lavoura-pecuária: mais produção, menos área
Há cinco anos, as fazendas do Grupo Santa Vitória não tinham lavoura. O modelo era extensivo, com queda acentuada de desempenho na seca. Com a introdução da integração lavoura-pecuária (ILP), o grupo dobrou o volume de abate e aumentou o rebanho, apesar de perder área para a agricultura.
O modelo adotado parte do milho com capim como sistema de reforma de pastagem. O gado passa nas palhadas pós-colheita da soja, aproveitando os resíduos e adubando naturalmente o solo com urina e esterco. Em uma das unidades irrigadas (Britânia), 200 hectares de pivô são reservados anualmente para as fêmeas em desenvolvimento que se beneficiam da forragem de alta qualidade produzida sob irrigação.
O resultado da integração vai além do GMD: a passagem do gado melhora a biologia do solo, reduz o custo de insumos nas lavouras subsequentes e aumenta o valor produtivo da terra, mesmo que esse ganho seja difícil de contabilizar no curto prazo.
Integração e o ativo invisível: o valor da fazenda que não aparece no caixa
Um ponto importante levantado por Fabiano é a dificuldade de mensurar o valor real gerado pela profissionalização da fazenda. O boi em engorda está registrado como estoque. A terra que recebeu pivô de irrigação e reformas de pastagem vale significativamente mais, mas o pecuarista que diz “não vou vender” tende a ignorar essa valorização.
A mudança de mentalidade necessária é tratar a fazenda como um ativo que vale quanto produz. Uma propriedade com confinamento instalado, pivôs em operação e pastagens reformadas gera mais faturamento, mais EBITDA e, portanto, vale mais como negócio. Esse raciocínio é fundamental para decisões de investimento e para a prestação de contas em estruturas com múltiplos sócios.
Decisão baseada em dados: como eliminar o achismo da pecuária?
A gestão moderna da pecuária não é mais compatível com decisões baseadas apenas na intuição ou na observação visual. Fabiano é categórico: não existe cheque em branco na gestão. Cada pedido de investimento precisa ser justificado com levantamento de benefício esperado, análise de custo e retorno projetado.
O Grupo Santa Vitória avançou nessa direção ao desenvolver um sistema de BI integrado à escrituração zootécnica. Com isso, é possível consultar, no próprio curral, qual foi o histórico de cada matriz (peso e área de cada filho por parto, fertilidade por estação de monta, avaliação genética atual, desempenho comparado entre reprodutores).
O resultado prático é que as opiniões pessoais perdem potência. Quando os dados estão na mesa, os conflitos diminuem, as decisões ficam mais rápidas e o erro cai significativamente.
Assista ao episódio completo do podcast e aprenda mais sobre o tema:
Gestão de equipes: o maior ativo da fazenda
Para Fabiano, existem três elementos inegociáveis na relação com a equipe de uma fazenda: salário justo, moradia de qualidade e tratamento humano. Sem esses três pilares, qualquer esforço de capacitação e desenvolvimento será diluído por rotatividade, desmotivação e queda de produtividade.
O gestor que reclama demais cria um ambiente tóxico que consome a energia do time. O bonzinho demais não gera compromisso com resultado. O equilíbrio está em ser exigente com clareza e propósito, mas genuinamente comprometido com o desenvolvimento das pessoas.
A dupla que toda fazenda precisa: executor e controlador
Uma das contribuições mais práticas do episódio foi a visão de Fabiano sobre a composição ideal de uma equipe operacional na fazenda. Toda unidade precisa de dois perfis complementares:

A combinação das duas energias é o que gera tração com qualidade. Um gerente forte em controle precisa ser apoiado por executores que operacionalizam as decisões. Um gerente executor precisa de um controlador que registre os resultados e alimente o aprendizado para a próxima safra.
Comunicação como ferramenta de liderança
Fabiano destaca que a comunicação clara é uma habilidade de liderança frequentemente subestimada. A mensagem que o gestor transmite ao gerente precisa chegar intacta até o salgador, o tratador e o funcionário recém-contratado. Para isso, não basta um comunicado, é preciso reuniões presenciais, presença de campo e a repetição constante do propósito.
Quando cada colaborador entende que o resultado da fazenda é o sustento da sua própria família, o olhar de dono emerge naturalmente. E é esse olhar que protege o negócio de eventuais pessoas que cheguem com propósitos distintos.
Qualidade da carne bovina: por que o churrasco ficou mais fácil?
O consumidor brasileiro que frequenta supermercados e açougues de qualidade percebe uma diferença substancial na carne disponível hoje em comparação à de 15 ou 20 anos atrás. Essa melhora não é coincidência, é o resultado de um conjunto de fatores que o setor alinhou ao longo de décadas:
- Animais mais jovens ao abate, graças à valorização da China pelo animal jovem e ao incentivo à suplementação e confinamento.
- Melhor acabamento de gordura, resultado da seleção genética e do aprimoramento do manejo nutricional.
- Profissionalização da indústria frigorífica, com melhores protocolos de estimulação elétrica das carcaças, controle de temperatura e maturação.
- Expansão do marmoreio no Nelore, fruto de 25 anos de avaliações sistemáticas com ultrassonografia.
- Classificação objetiva por imagem, tecnologia já em piloto pela JBS em Rondonópolis, que avalia rendimento, tamanho de contrafilé e marmoreio com câmeras, abrindo caminho para bonificação objetiva por qualidade.
Marmoreio no Nelore: possível e economicamente viável
Por muito tempo, o mercado acreditou que o Nelore era geneticamente limitado em marmorização. Fabiano desmistifica essa visão: com seleção consistente, avaliação no momento correto e acasalamento dirigido (bom com bom), é possível elevar o marmoreio no Nelore sem sacrificar as demais características.
A ressalva é fundamental: o produtor que direciona sua seleção apenas para marmoreio, esquecendo peso, fertilidade e eficiência, corre o risco de comprometer a rentabilidade. A seleção deve ser sempre multiqualificada, e o marmoreio entra como mais uma característica no conjunto, não como único critério.
Sucessão familiar e gestão do crescimento
O Grupo Santa Vitória é um negócio familiar com quatro sócios. Nesse contexto, Fabiano desenvolveu uma filosofia de crescimento que pode ser resumida em uma frase: comece pequeno, aprenda, depois escale. Cada nova atividade começa em escala experimental.
Quando uma cultura nova entra na fazenda em um único pivô de 200 hectares, o possível erro é absorvível, o aprendizado é real, a equipe desenvolve o “skill” necessário, e só então o modelo é replicado em outras unidades. Antever o sonho com endividamento elevado é o caminho mais rápido para a crise financeira.
Em empresas familiares, divergências são inevitáveis. O que diferencia as famílias que prosperam das que se fragmentam é a solidez dos valores compartilhados. No caso do Grupo Santa Vitória, a humildade, a ética no trabalho, o respeito às pessoas e o compromisso com a evolução contínua são valores documentados, expostos nas paredes de todas as unidades e comunicados em cada revisita à equipe.
Quando os valores estão alinhados, as divergências ficam mais leves de tratar. As diferenças de opinião não ameaçam a união, porque todos sabem que o objetivo final é o mesmo: deixar um ambiente de trabalho próspero para a próxima geração.
Conclusão
Ao longo de toda a conversa, uma expressão se repetiu em diferentes contextos: “arroz com feijão bem feito”. Para Fabiano Araújo, essa metáfora resume o que separa as fazendas que prosperam das que ficam estagnadas. Não é a tecnologia mais cara, o insumo mais novo ou a genética mais exótica. É a execução consistente das práticas corretas, medida pelos indicadores certos, com as pessoas certas, e com humildade para aprender a cada safra.
O suplemento em excesso é uma muleta que mascara a falha do pasto. O boi gordo no confinamento mascara a genética ruim. O caixa positivo num ano pode esconder um ativo que se deteriora. E a meta sem compromisso real é apenas um número em uma planilha.
A pecuária de corte lucrativa no Brasil já é possível, e está sendo praticada pelos melhores produtores. O desafio de quem ainda está na média é construir, passo a passo, um sistema onde genética, gestão e pessoas trabalham em sinergia. Esse é o método. E o método funciona.
GMD, lotação e genética resolvem parte do problema. A gestão resolve o restante e é ela que fecha o caixa
A pecuária de corte de alta performance exige muito mais do que bons animais, exige indicadores claros, metas que se tornam compromissos e pessoas liderando com propósito.
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