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Adubação verde: benefícios na produção sustentável de alimentos

Adubação verde: benefícios na produção sustentável de alimentos
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O atual contexto geopolítico tem sido pautado por questões de cunho ambiental, sobretudo pelo discurso do aquecimento global e do escasseamento dos recursos naturais; de cunho social, com as questões de miséria, fome e má distribuição de recursos financeiros; e de cunho econômico, com destaque para crise e seus efeitos sobre o mundo globalizado. Esse cenário tem pressionado a atividade agrícola na direção de uma modernização dos processos, das técnicas e da própria filosofia de produção. No mundo contemporâneo, a agricultura moderna é aquela que considera, para os fins de produção, os princípios agroecológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais. Nesse sentido, deve ser dada atenção especial às tecnologias que contribuem para a reciclagem da matéria orgânica, como base para a manutenção da fertilidade do solo e para a nutrição das plantas, além da manutenção da atividade biológica do solo, o equilíbrio de nutrientes e a qualidade da água. Dentre as diferentes tecnologias aplicáveis aos sistemas de produção, a adubação verde (ou plantas de cobertura) tem destaque, por sua capacidade de contribuir com a melhoria da fertilidade do solo e dos diversos benefícios que pode trazer aos sistemas agrícolas.

Segundo Souza e Alcântara (2008), a adubação verde pode ser definida como a prática utilizada para a fertilização do solo que consiste no cultivo de determinada planta, normalmente uma leguminosa, gramínea e outras, com a finalidade de proteger e melhorar o solo. A adubação verde tem por foco o cultivo e manejo de diferentes plantas, visando à máxima produção de biomassa, tendo em vista os benefícios que ela pode trazer ao ser incorporada ao solo.

Características desejáveis

As plantas de cobertura, ou adubo verde, têm características que as tornam benéficas, o que justifica sua utilização, contribuindo para melhoria do solo do talhão ou área em que é empregada. Estas características são variadas e devem se adequar para cada sistema de cultivo.

Estas plantas devem ser rústicas, produzindo sementes em grande quantidade e de fácil obtenção. Isso é importante para o que o agricultor possa realizar um manejo simplificado, sem a necessidade de adquirir maquinários específicos, o que representaria gastos adicionais.

O desenvolvimento inicial intenso e sistema radicular vigoroso são ótimas características que permitem um fechamento rápido da área. Essa característica também contribui para o controle de plantas daninhas por supressão ou competição.

A adaptabilidade da planta ao clima e à fertilidade do solo é fundamental para que ela cresça adequadamente. Ainda que rústicas, é importante garantir uma condição mínima para sua nutrição, o que contribui para o seu melhor desempenho e a obtenção dos benefícios almejados.

O conhecimento da fenologia e do hábito de crescimento é extremamente importante para o planejamento de uso da adubação verde. Essas características devem ser observadas para a modulação de um sistema, onde os adubos verdes possam ser utilizados em consórcio, rotação ou sucessão com os cultivos econômicos, sem que haja prejuízos por competição ou danos na colheita.

A relação C/N é uma característica dos adubos verdes que deve ser muito bem observada. Plantas da família das leguminosas produzem uma palhada de baixa relação C/N, facilmente degradada pelos microorganismos do solo, que ao encerrarem sua decomposição disponibilizam os nutrientes que estavam na palhada. Já as plantas da família das gramíneas produzem uma biomassa de alta relação C/N, de difícil degradação. Devido a essa característica, é comum observar a imobilização de nitrogênio do solo pelos microorganismos durante a decomposição da palhada, o que pode prejudicar os cultivos agrícolas. Além desses aspectos, palhadas de maior relação C/N oferecem melhor proteção do solo por ficarem mais tempo recobrindo sua superfície.

Outra característica importante é a sanidade dos adubos verdes, os quais não devem possuir pragas e patógenos em comum com a cultura principal. Pelo contrário, é interessante que contribuam com o controle ou redução da pressão de patógenos, ajudando a manter a cultura principal protegida. Um exemplo típico é o caso das crotalárias, que funcionam como plantas armadilha, reduzindo a população de algumas espécies de nematóides de solo.

Benefícios

O cultivo periódico de plantas de cobertura, ou adubos verdes, traz uma série de benefícios, excepcionalmente no que diz respeito às qualidades físicas, químicas e biológicas do solo. De acordo com Potafós (2005), o uso da adubação verde apresenta os seguintes benefícios:

  • Proteção contra a erosão do solo. Com o terreno coberto com planta ou palha, a energia das gotas de chuva é dissipada, impedindo a desagregação do solo e evitando o selamento superficial;
  • Aumento da infiltração de água no corpo do solo, possibilitando maior armazenamento e evitando o escorrimento superficial;
  • Possibilidade de aumentar a matéria orgânica do solo, pelo uso contínuo dessa prática;
  • Diminuição da amplitude de variação térmica do solo, mantendo a temperatura mais amena, o que permite o crescimento dos microrganismos e o retorno da vida no solo;
  • Papel de arado biológico, uma vez que as raízes dessas plantas normalmente são profundas e a sua decomposição futura cria galerias e macroporos, que são interessantes para promover o crescimento de microrganismos em profundidade e com isso romper barreiras físicas do solo;
  • Promoção da reciclagem de nutrientes pelo crescimento vigoroso do sistema radicular, que tem capacidade de explorar um volume maior de solo e com isso promover eficiente reciclagem de nutrientes;
  • Promoção de aumento da CTC efetiva do solo e da disponibilidade de macro e micronutrientes;
  • Colaboração com a diminuição da acidez potencial do solo, com consequente aumento na soma de bases e no V%;
  • Fornecimento de nitrogênio no caso de utilizar leguminosas (Fabaceae), para as culturas seguintes pelo processo de fixação biológica do nitrogênio;
  • Atuação na redução da população de plantas daninhas pelos processos de supressão e alelopatia. Nesse caso, é preciso um conhecimento das relações entre espécies;
  • Melhoria da eficiência no aproveitamento de adubos minerais pelas culturas seguintes e diminui a lixiviação de nutrientes, principalmente de nitrogênio;
  • Promoção da integração das atividades agrícolas, uma vez que algumas plantas de cobertura podem ser utilizadas como forragem na alimentação de animais;
  • Atuação no controle de fitonematóides, principalmente aqueles formadores de galhas e cistos, e na redução de inóculos de doenças e pragas, atuando na quebra do ciclo.

Cuidados

O emprego dos adubos verdes deve ser bem planejado para evitar possíveis malefícios ou prejuízos com o seu uso.

As espécies utilizadas não devem apresentar dormência de sementes, sendo que em seu manejo é importante que sejam eliminadas antes de produzirem sementes viáveis. É necessário também que sejam de fácil eliminação. Tais cuidados devem ser tomados para que estas plantas não venham a se tornar plantas indesejáveis.

No caso de serem empregadas como cultivo intercalar, é importante observar o hábito de crescimento e vigor das plantas, para que não venham competir por recursos com a cultura agrícola, ou prejudicar a execução de algum trato cultural. Além disso, as plantas utilizadas devem ter boa sanidade e não hospedar pragas ou doenças que possam vir a prejudicar a cultivo agrícol

Exemplos

Diversas plantas de diferentes famílias podem ser cultivadas como adubo verde ou plantas de cobertura. As principais constituem-se de leguminosas, que agregam como diferencial a capacidade de fixar nitrogênio, e gramíneas, que possuem alta produtividade de matéria seca e um sistema radicular denso e vigoroso. Além dessas, podemos citar plantas de outras famílias menos comuns, como brássicas, asteráceas, amarantháceas e outras.

Tabela 1. Produção de massa seca, fixação de nitrogênio, hábito de crescimento e ciclo de diferentes adubos verdes/plantas de cobertura.

Por sua capacidade em agregar múltiplos benefícios ao solo, a adubação verde é uma alternativa técnica a ser implementada nos sistemas agrícolas como forma de melhorar o ambiente produtivo e a própria sustentabilidade na produção de alimentos.

Referências

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Dia de campo discutirá sobre as vantagens da adubação verde.Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/vegetal/noticias/2013/08/dia-de-campo-discutira-sobre-as-vantagens-da-adubacao-verde> Acesso em 10/08/2013.

Potafós. Plantas para cobertura do solo e adubação verde aplicadas ao plantio direto. Encarte técnico. INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 112 – dez, 2005.

SOUZA, R. B.; ALCÂNTARA, F. A. Adubação no sistema orgânico de produção de hortaliças. Circular técnica 65. Brasília, jul. 2008

Créditos: planilha e foto capa / Piraí sementes

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