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El Niño em 2026: o que esperar e quais os impactos na pecuária leiteira?

O clima interfere diretamente na produção agropecuária, mas seus efeitos vão muito além da ocorrência de chuva ou seca. Na pecuária leiteira, alterações na temperatura e no regime de precipitação podem afetar desde a produção de volumosos até o conforto térmico das vacas, a sanidade e os custos com alimentação.

Por isso, as perspectivas de estabelecimento do El Niño no segundo semestre de 2026 merecem atenção. Previsões apresentadas em nota técnica conjunta do INPE, Inmet, Funceme e Censipam indicam alta probabilidade de configuração do fenômeno ao longo do período, com possibilidade de persistência até o início de 2027. Sua intensidade, entretanto, ainda não está definida.

Mas o que significa a formação de um El Niño? E, principalmente, o que o produtor de leite deve acompanhar e como pode se preparar para seus possíveis impactos?

O que é El Niño e por que ele acontece?

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial associado a alterações na circulação atmosférica.

Em condições habituais, os ventos alísios contribuem para deslocar as águas superficiais mais quentes em direção ao oeste do Pacífico. Esse movimento também favorece a ressurgência, processo pelo qual águas mais frias e profundas chegam mais próximas à superfície na porção leste do oceano.

Durante o El Niño, ocorre enfraquecimento dos ventos alísios e alteração da chamada Circulação de Walker. Com isso, o deslocamento das águas superficiais é modificado e a ressurgência de águas frias diminui, favorecendo o aquecimento do Pacífico Equatorial.

Pode parecer um fenômeno distante da realidade brasileira, mas as mudanças na temperatura de uma área tão extensa do oceano alteram a circulação atmosférica e, consequentemente, a distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta.

Para caracterizar os episódios de El Niño, são utilizados indicadores que consideram tanto as anomalias de temperatura do Pacífico quanto sua persistência. O qual é caracterizado quando atinge +0,5 °C ou mais por, no mínimo, cinco trimestres sobrepostos.

El Niño 2026: o que as previsões indicam?

As projeções disponíveis apontam para alta probabilidade de estabelecimento do El Niño durante o segundo semestre de 2026.

Segundo a nota técnica conjunta, previsões divulgadas pelo Climate Prediction Center, vinculado à NOAA, no início de abril indicavam aproximadamente 61% de probabilidade de condições de El Niño no trimestre maio-junho-julho, com aumento da probabilidade para mais de 90% até o final de 2026 e início de 2027.

Isso não significa, porém, que todos os detalhes do fenômeno já possam ser previstos. A intensidade do possível El Niño ainda não está claramente definida, embora as análises indiquem condições.

Da mesma forma, El Niño não significa simplesmente “mais calor” ou “mais chuva” em todo o país. Seus efeitos variam regionalmente e também dependem da interação com outros componentes do sistema climático.

Como o El Niño pode afetar cada região do Brasil?

Historicamente, uma das respostas associadas ao El Niño é a redução das chuvas em partes das regiões Norte e Nordeste. A combinação entre menor precipitação e temperaturas elevadas pode intensificar o déficit hídrico e elevar o risco de incêndios.

No Centro-Oeste e Sudeste, o cenário exige atenção principalmente à irregularidade das precipitações, ocorrência de períodos secos e temperaturas elevadas.

Já no Sul, a tendência é de chuvas acima da média e risco de inundações. Além das inundações, o excesso de umidade no Sul pode comprometer a janela de colheita do milho silagem, resultando em volumosos de menor valor energético e maior risco de contaminação por micotoxinas. As temperaturas também tendem a permanecer acima da média, especialmente durante inverno e primavera.

Quais podem ser os impactos do El Niño na pecuária leiteira?

Na produção de leite, um dos primeiros pontos de atenção é a disponibilidade de pastagens e água. Segundo o Cepea, atrasos na recuperação das chuvas ou temperaturas acima da média podem diminuir o crescimento das forrageiras e reduzir a capacidade de suporte das áreas.

Esse efeito pode se estender à produção de volumosos conservados. Menor quantidade ou qualidade da forragem produzida na propriedade aumenta a necessidade de suplementação e pode pressionar os custos da dieta.

O calor acrescenta outro desafio. Temperaturas elevadas comprometem o conforto térmico, o que causa estresse térmico que não afeta apenas a produção imediata de leite, mas tem um efeito residual na taxa de concepção das vacas, o que pode atrasar o ciclo reprodutivo da fazenda por meses.

Nas regiões sujeitas ao excesso de precipitação, o problema muda. Chuvas intensas favorecem a formação de lama e podem aumentar desafios relacionados à saúde dos cascos, mastite, doenças respiratórias e logística da propriedade, além de comprometer a qualidade de determinados insumos.

Assim, o impacto do El Niño sobre a pecuária leiteira tende a ocorrer de forma combinada: produção de volumosos, custo da alimentação e conforto dos animais estão entre os principais pontos a serem monitorados.

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Milho e soja também entram nessa conta

O efeito climático sobre a alimentação não deve ser analisado apenas pela possibilidade de quebra de safra.

Alterações na produção de milho e soja podem repercutir sobre preços, estoques, fretes, qualidade dos grãos e decisões de compra. Isso conecta um evento climático ocorrido nas regiões produtoras diretamente aos custos de sistemas leiteiros dependentes de concentrados e suplementação.

Consequentemente, acompanhar o desenvolvimento das lavouras e o mercado de insumos passa a fazer parte da gestão do risco climático da fazenda leiteira.

Como o produtor pode se preparar para o El Niño?

O principal objetivo não deve ser tentar prever exatamente quanto choverá na propriedade, mas identificar quais pontos do sistema produtivo ficam mais vulneráveis diante do cenário esperado para sua região.

Em áreas com maior risco de seca e calor, o planejamento deve considerar disponibilidade de água, estoque de volumosos, capacidade de suporte das pastagens e estratégias de ambiência. Onde a preocupação é o excesso de precipitação, drenagem, formação de lama, acesso dos animais, qualidade da cama, saúde dos cascos e armazenamento de alimentos ganham ainda mais importância.

Para o manejo do calor, recomenda-se o uso do ITU (Índice de Temperatura e Umidade) para monitorar o estresse térmico em tempo real, permitindo o acionamento eficiente de sistemas de resfriamento, como ventiladores e aspersores.

O acompanhamento das previsões também precisa continuar ao longo do semestre. A própria nota técnica oficial ressalta que os impactos podem variar em intensidade e distribuição espacial e recomenda acompanhar previsões sub-sazonais e de tempo para decisões de menor horizonte.

Conclusão

A alta probabilidade de estabelecimento do El Niño no segundo semestre de 2026 coloca o clima entre os fatores que merecem atenção no planejamento das propriedades leiteiras. Isso não significa que perdas produtivas sejam inevitáveis, nem que os efeitos ocorrerão da mesma maneira em todo o Brasil.

Enquanto algumas regiões podem enfrentar maior risco de déficit hídrico e temperaturas elevadas, outras precisam se preparar para excesso de precipitação. Para a pecuária leiteira, essas alterações podem chegar à fazenda por diferentes caminhos, desde a disponibilidade de pastagem e volumosos até os custos da alimentação, conforto térmico, sanidade e logística.

Por isso, antecipar vulnerabilidades e acompanhar continuamente as previsões permite transformar a informação climática em ferramenta de planejamento e gestão de risco. O produtor não controla o El Niño, mas pode aumentar a capacidade da fazenda de responder aos seus efeitos.

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Bruna Maeda - Equipe Leite Rehagro

Referências

  • BRASIL. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Instituto Nacional de Meteorologia (INMET); Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (FUNCEME); Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM). Nota Técnica Conjunta – El Niño 2026. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inpe/.
  • CEPEA – CENTRO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM ECONOMIA APLICADA. Pecuária/Cepea: El Niño em 2026 eleva incertezas para a produção pecuária no Brasil. Piracicaba: Cepea/Esalq-USP, 2026. Disponível em: https://cepea.org.br/br/releases/pecuaria-cepea-el-nio-em-2026-eleva-incertezas-para-a-producao-pecuaria-no-brasil.aspx.
  • LENSSEN, N. J. L. et al. Improvements in the GISTEMP uncertainty model. Journal of Applied Meteorology and Climatology, 2020. DOI indicado no material-base: https://doi.org/10.1175/WAF-D-19-0235.1.
  • NOAA – NATIONAL OCEANIC AND ATMOSPHERIC ADMINISTRATION. Climate Prediction Center. Informações e previsões referentes ao El Niño/Oscilação Sul (ENSO), 2026.
  • MARCÍLIO, Ricardo. Conteúdo de aula/podcast sobre El Niño e dinâmica climática. Anotações fornecidas como material-base para elaboração deste artigo.

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