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Sistema de pastejo para vacas leiteiras: como ajustar a dieta e o manejo do pasto?

Vacas leiteiras em uma pastagem

O sistema de pastejo para vacas leiteiras apresenta particularidades importantes no manejo nutricional. Diferentemente de sistemas em que os componentes da dieta são fornecidos de maneira conjunta e em quantidades definidas, no pastejo é comum que o concentrado seja ofertado em quantidade fixa, enquanto a própria vaca determina quanto da porção de forragem disponível no piquete conseguirá consumir.

Nesse contexto, formular uma dieta adequada é apenas parte do trabalho. O consumo de pasto também é influenciado por fatores como composição e estrutura da pastagem, disponibilidade de folhas, teor de FDN e condições de ambiência, incluindo acesso à água, sombra, condições dos corredores e distância percorrida pelos animais. Por isso, o manejo da pastagem e do pastejo assume papel fundamental para garantir o consumo adequado das vacas.

Ao longo deste artigo, vamos abordar os principais desafios da alimentação de vacas leiteiras a pasto, desde o fornecimento de concentrado e o espaço de cocho até a avaliação da altura e qualidade da pastagem, eficiência de pastejo, capacidade de suporte e ajuste diário dos piquetes. O objetivo é entender como essas decisões se relacionam e por que o acompanhamento diário do pasto é essencial para o manejo nutricional do rebanho.

Quais são os principais desafios da alimentação de vacas a pasto?

Em sistemas de pastejo, um dos principais desafios nutricionais está na variação da quantidade e da qualidade da forragem efetivamente consumida pelas vacas. Diferentemente do concentrado, cuja quantidade fornecida pode ser pesada e definida previamente, o consumo de pasto depende das características da própria pastagem e da capacidade dos animais de aproveitar a forragem disponível.

A composição nutricional do pasto está relacionada ao nível de adubação do solo, especialmente em relação ao teor de proteína bruta (PB). Além disso, oscilações no teor de fibra em detergente neutro (FDN) merecem atenção, uma vez que esse componente pode limitar o consumo pela capacidade de enchimento do trato gastrointestinal.

A estrutura do pasto também interfere diretamente nesse processo. A proporção entre folhas e talos influencia a taxa de consumo, sendo a maior presença de folhas associada à melhor qualidade da forragem, já que nelas se concentra uma parcela importante dos nutrientes. Essa proporção, por sua vez, está relacionada à altura adequada da pastagem e à capacidade de consumo dos animais.

Por isso, compreender essas variações é essencial para ajustar os demais componentes da dieta. Como o pasto representa a fração mais variável do consumo, o fornecimento de concentrado precisa ser organizado de forma criteriosa para complementar a dieta sem aumentar a competição entre os animais.

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Como deve ser feito o fornecimento de concentrado para vacas a pasto?

Em sistemas de pastejo, é comum que as vacas recebam diariamente uma quantidade previamente definida de concentrado ou “lanche”, que pode ser composto pela mistura do concentrado com uma pequena quantidade de silagem. Enquanto o consumo de pasto apresenta maior variação, essa porção da dieta é fornecida em quantidade fixa por animal.

Uma possibilidade é realizar o fornecimento individual durante a ordenha, utilizando alimentadores automáticos ou dosadores previamente calibrados, como canecas e baldes. Dessa forma, é possível controlar a quantidade destinada a cada vaca.

Nas propriedades em que o concentrado não é fornecido durante a ordenha, essa porção da dieta pode ser distribuída em grupo, em cochos localizados fora da sala de ordenha. Nesse caso, o manejo exige maior atenção para que a quantidade ofertada corresponda corretamente ao número de animais do lote. A pesagem adequada, a homogeneidade da mistura e sua boa distribuição ao longo do cocho são fundamentais para manter a oferta planejada.

Quando o concentrado é fornecido coletivamente e em quantidade restrita, a competição pelo cocho merece atenção. Por isso, é fundamental garantir espaço suficiente para que todas as vacas tenham acesso adequado ao alimento.

Espaço de cocho: por que merece atenção?

Quando o concentrado ou “lanche” é fornecido em grupo, o espaço linear de cocho por vaca passa a ser um ponto importante do manejo. Como esse alimento é ofertado em quantidade fixa e restrita, espaços insuficientes aumentam a competição e podem dificultar o acesso uniforme dos animais à dieta.

Para esse tipo de sistema, recomenda-se 0,85 a 1,00 metro linear de cocho por vaca. Outra alternativa é o uso de canzis, que ajudam a individualizar o acesso ao alimento e reduzir a competição durante o fornecimento.

Garantir espaço adequado contribui para uma distribuição mais uniforme do concentrado entre as vacas, reduzindo diferenças de acesso dentro do lote.

Como fazer o ajuste diário do pasto?

Em sistemas de pastejo, a maior variação da dieta ocorre justamente na fração de forragem consumida pelos animais. Por isso, o gerenciamento do pasto precisa ser realizado de forma frequente, considerando tanto a disponibilidade quanto a condição da pastagem.

Uma prática importante é realizar a leitura do pasto no período da tarde, especialmente no momento de troca dos animais de piquete. Nessa avaliação, devem ser observados os resíduos pós-pastejo e definida a área que será utilizada no dia seguinte.

A altura do pasto na entrada e na saída dos animais também merece atenção. A taxa de consumo é maximizada quando o rebaixamento ocorre até cerca de 50% da altura ideal, o que exige conhecer a massa de forragem disponível nessa faixa e a densidade da pastagem em cada propriedade.

Esse acompanhamento diário permite ajustar melhor a capacidade de suporte dos piquetes e reduzir oscilações na qualidade da forragem efetivamente consumida pelas vacas.

Eficiência de pastejo e capacidade de suporte

Em sistemas a pasto, é importante considerar que a utilização total da forragem disponível não é esperada. Uma eficiência de pastejo em torno de 80% já pode ser considerada adequada, pois parte da forragem permanece como resíduo após a saída dos animais.

Esse ponto está diretamente ligado à capacidade de suporte do piquete, ou seja, à quantidade de animais que determinada área consegue sustentar com a forragem disponível. Como o consumo é ajustado pelas próprias vacas, erros nessa estimativa podem resultar tanto em sobra excessiva de pasto quanto em oferta insuficiente.

Por isso, a avaliação da quantidade de matéria seca disponível deve caminhar junto com a leitura do resíduo pós-pastejo e com o número de animais do lote. Esse ajuste ajuda a manter maior regularidade no consumo e evita que a qualidade da dieta varie excessivamente ao longo dos dias.

Período de descanso: por que não deve ser fixo?

O período de descanso da pastagem não deve ser definido apenas por um número fixo de dias. Isso porque a velocidade de crescimento do pasto varia conforme fatores como adubação, temperatura, pluviosidade e luminosidade, que alteram o tempo necessário para que a planta atinja novamente a condição adequada de entrada dos animais.

Entre esses fatores, a adubação é um dos poucos que podem ser manejados de forma mais direta pela propriedade. Já as condições climáticas apresentam maior variabilidade, o que torna pouco eficiente trabalhar com intervalos rígidos entre pastejos.

Por isso, o acompanhamento da altura e da estrutura do pasto deve orientar a escolha do próximo piquete. Essa avaliação permite ajustar o manejo à velocidade real de crescimento da forragem e favorece maior regularidade na oferta de alimento às vacas.

Além do pasto: quais pontos merecem atenção no manejo?

A qualidade e a disponibilidade da forragem não são os únicos fatores que determinam o consumo em sistemas de pastejo. As condições oferecidas aos animais também podem facilitar ou limitar o aproveitamento do pasto e, por isso, precisam fazer parte da rotina de avaliação da propriedade.

Entre os principais pontos de atenção estão a disponibilidade de sombra e água nos piquetes, além da facilidade de acesso às áreas de pastejo. As condições dos corredores e a distância entre os piquetes e a ordenha também devem ser consideradas, pois integram a ambiência à qual as vacas estão submetidas.

Dessa forma, avaliar o sistema de pastejo exige observar não apenas quanto e qual pasto está disponível, mas também as condições que os animais encontram para acessá-lo e consumi-lo.

Pasto e concentrado: atenção ao equilíbrio da dieta

Em sistemas em que o pasto e o concentrado são fornecidos separadamente, podem ocorrer oscilações mais acentuadas no pH ruminal, especialmente após o consumo do concentrado. Mesmo quando a quantidade total de gordura da dieta está dentro do esperado, episódios de pH baixo podem interferir no metabolismo ruminal e favorecer a formação de intermediários associados à redução da síntese de gordura do leite.

Por isso, o fornecimento de concentrado deve ser avaliado não apenas pela quantidade ofertada, mas também pela forma como ele se integra ao consumo de forragem ao longo do dia. Alterações na gordura do leite, quando presentes, precisam ser interpretadas em conjunto com outros fatores nutricionais, como excesso de gordura insaturada, baixo pH ruminal e uso elevado de monensina.

Conclusão

O manejo nutricional de vacas leiteiras em sistema de pastejo exige acompanhamento constante, principalmente porque a porção mais variável da dieta está justamente no pasto. Enquanto o concentrado pode ser fornecido em quantidade previamente definida, a oferta e o consumo de forragem dependem da estrutura da pastagem, da altura de entrada e saída, da capacidade de suporte e das condições encontradas pelos animais no piquete.

Por isso, o bom desempenho do rebanho depende da integração entre manejo do pasto, fornecimento adequado de concentrado, espaço de cocho, ambiência e avaliação diária dos piquetes. Ajustar esses fatores de forma conjunta contribui para maior regularidade no consumo e melhor aproveitamento da dieta ao longo dos dias.

Mais do que seguir períodos fixos ou decisões padronizadas, sistemas a pasto exigem monitoramento e capacidade de ajuste, acompanhando o crescimento da forragem e a resposta dos animais para manter o equilíbrio nutricional e o desempenho produtivo.

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Bruna Maeda - Equipe Leite Rehagro

Referências

  • Aulas da Pós-graudação em Pecuária Leteira do Rehagro – Professor Ricardo Peixoto.

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