“Meio ambiente e agro não combinam muito bem.” Essa frase, repetida com frequência em rodas de conversa fora do campo, é um dos maiores mal-entendidos sobre o setor produtivo brasileiro.
Para Artur Falcette — secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul — essa confusão nasce de um problema simples: falta de conhecimento sobre o que sustentabilidade realmente significa. Em entrevista ao Podcast Fazenda Lucrativa (Rehagro), Falcette resgatou o conceito original de sustentabilidade no agronegócio e explicou por que ele foi tão desgastado no Brasil nos últimos anos.
Se você é produtor, sucessor ou gestor de uma propriedade rural e sente que esse termo virou apenas um jargão de marketing, este guia foi feito para você. Aqui você vai entender o conceito na origem, os três pilares que sustentam qualquer negócio de longo prazo, os dados que provam a relação entre produção e preservação, e como colocar tudo isso em prática na gestão da sua fazenda.
O que é sustentabilidade no agronegócio, afinal?
Sustentabilidade não é um conceito ambiental, mas um conceito de desenvolvimento. Ele deriva da definição criada na década de 80 pela Comissão de Brundtland, que a resume assim: a capacidade de atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades.
Falcette usa uma analogia simples para explicar: imagine uma jarra de água limitada sobre a mesa. Você pode beber dela, mas não pode tomar a jarra inteira, porque quem está ao seu lado também precisa beber, assim como as próximas gerações. Esse é o núcleo da ideia: uso responsável de um recurso finito para garantir continuidade.
No Brasil, segundo o secretário, o conceito foi distorcido dos dois lados. De um lado, parte da sociedade passou a tratar sustentabilidade como sinônimo exclusivo de meio ambiente, criando a falsa ideia de que agro e preservação são opostos. Do outro, o próprio setor produtivo, pressionado por essa narrativa, “cansou o conceito” ao aplicar o rótulo de sustentável a praticamente tudo, mesmo sem entender profundamente do que se tratava.
Os três pilares da sustentabilidade no agronegócio
O ponto de partida para resgatar o conceito é entender que sustentabilidade sempre foi um tripé: econômico, social e ambiental. Falcette reforça que, já no relatório original da Comissão de Brundtland, o aspecto econômico é reconhecido como aquele que sustenta os outros dois, porque sistemas que não geram resultado econômico simplesmente não perseveram.
A analogia usada na conversa é a de um banquinho de ordenha de três pernas: se qualquer uma delas for menor ou mais fraca que as outras, o banquinho cai.

Entender esse equilíbrio muda a forma como um produtor, sucessor ou gestor deve olhar para a estratégia da fazenda: sustentabilidade não é um departamento à parte, é um critério que atravessa toda decisão de gestão.
Os dados que desmontam o mito de que agro e preservação são opostos
Um dos pontos mais fortes trazidos por Falcette é a realidade documentada de Mato Grosso do Sul, estado que ele usa como estudo de caso porque reúne, ao mesmo tempo, crescimento econômico acelerado e altíssimo nível de preservação ambiental.
- O estado cresceu, nos últimos 10 anos, mais de três vezes a média nacional, e em 2023 avançou 15% enquanto o Brasil crescia cerca de 2%.
- É a indústria de transformação que mais cresceu no Brasil na última década.
- Produz o dobro da energia elétrica que consome, exportando metade para o sistema nacional, com 94% da matriz elétrica vinda de fontes renováveis, boa parte de biomassa do próprio agro.
- 92% do território do estado é propriedade privada.
- 97% do Pantanal, considerado o bioma mais preservado do mundo, está dentro do estado, também em área majoritariamente privada.
- O índice de desmatamento ilegal no estado está pouco acima de 1%.
Esses números sustentam um argumento central do secretário: o que hoje garante boa parte da preservação ambiental no Brasil é a exigência legal de reserva legal e Área de Preservação Permanente (APP) dentro das próprias propriedades rurais, uma área somada que supera, no país, o total protegido em unidades de conservação e terras indígenas. Ou seja, quem preserva o bioma mais conservado do planeta é, majoritariamente, o produtor rural.
Acompanhe o episódio completo do podcast a seguir:
O pilar social: o maior desafio do agronegócio brasileiro
Perguntado sobre qual dos três pilares representa o maior desafio hoje, Falcette foi direto: o desenvolvimento social. Enquanto o Brasil já acumula bons exemplos nos aspectos econômico e ambiental, o avanço social ainda deixa lacunas importantes, principalmente em educação.
Ele descreve um raciocínio de política pública que também serve como referência para a gestão de qualquer negócio rural com impacto em sua comunidade: cuidar da educação desde a primeira infância é decisivo, porque o que a criança absorve até os 7 anos determina em grande parte o adulto profissional que ela se tornará. A partir daí, qualificação técnica se torna a ponte entre vulnerabilidade social e empregabilidade real em um estado com nível de desocupação historicamente baixo e milhares de vagas em aberto no setor produtivo.
A conclusão prática que ele traz, inspirada em um texto sobre caridade, resume bem o espírito social do tripé: entregar comida pronta é bom, mas gerar o emprego que permite a uma pessoa levar comida para casa fruto do próprio trabalho entrega, além do alimento, dignidade.
Créditos de carbono: como o ativo ambiental vira resultado econômico
Um exemplo prático de como transformar preservação em resultado financeiro é o programa criado por Mato Grosso do Sul através da MS Ativos Ambientais, empresa de economia mista lançada para certificar e comercializar créditos ambientais do estado. O modelo trabalha, por enquanto, com duas frentes principais:
- Créditos RR (Redução de Emissões): originados da redução comprovada de desmatamento – o estado já obteve autorização do Ministério do Meio Ambiente para certificar 86 milhões de toneladas de carbono que deixou de emitir.
- Créditos ARR (Restauração): ligados a projetos de restauração de unidades de conservação.
O próximo passo do programa, segundo Falcette, são os créditos de ALM (gestão da propriedade rural), voltados diretamente para práticas adotadas pelo produtor no dia a dia da fazenda, como integração lavoura-pecuária, integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto, culturas de cobertura no inverno e sistemas com culturas perenes em consórcio.
Hoje, participar do mercado de carbono tem custo alto e é viável apenas para grandes propriedades; o objetivo declarado é criar um modelo integrador, liderado pelo estado, que permita a produtores de qualquer porte acessarem essa receita.
Mudanças climáticas: por que a resiliência virou questão de sobrevivência do negócio
Falcette identifica dois grupos como os mais afetados pelas mudanças climáticas: os produtores rurais e as populações urbanas em situação de vulnerabilidade. No campo, o impacto aparece em eventos como secas, cheias, granizo fora de época e ondas extremas de calor ou frio, fenômenos que, segundo ele, vão determinar diretamente quais negócios rurais permanecerão competitivos nos próximos anos.
Ele chama atenção ainda para um paradoxo da agenda climática: os grupos que menos emitem, tanto o agro brasileiro quanto as populações mais vulneráveis, são justamente os que mais sofrem os efeitos das quebras de safra, da escassez e da alta de preços gerada por rupturas no sistema produtivo.
A resposta estratégica passa por investimento em tecnologia, irrigação, integração de sistemas produtivos e diversificação, ou seja, construir resiliência estrutural na propriedade em vez de depender de um único sistema de produção.
Como aplicar sustentabilidade na gestão da fazenda: pontos práticos
A partir do que Falcette compartilha sobre sua própria trajetória, desde gestão de um grande negócio agropecuário até à frente de uma secretaria de estado, é possível traduzir a conversa em ações concretas para quem gerencia ou vai suceder uma propriedade rural:
- Trate os três pilares com o mesmo peso estratégico. Decisões de investimento, sucessão e expansão devem considerar impacto econômico, social e ambiental juntos, não isoladamente.
- Documente e formalize a conformidade ambiental. Falcette cita o exemplo de exportações barradas não por problema sanitário real, mas por falha na documentação, reforçando que rigor documental é parte da gestão de risco do negócio.
- Avalie práticas de manejo com potencial de gerar receita ambiental. Integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto e culturas de cobertura já são, hoje, portas de entrada para futuros créditos de carbono.
- Invista em resiliência produtiva. Irrigação, diversificação e integração de sistemas reduzem a exposição da fazenda a eventos climáticos extremos.
- Pense a sucessão como parte da sustentabilidade econômica. A frase citada na conversa “não estou construindo um negócio para ter o máximo de lucro este ano, mas para estar aqui com meus filhos daqui a 50 anos” resume a lógica de longo prazo que sustenta negócios rurais duradouros.
Perguntas frequentes sobre sustentabilidade no agronegócio
O que significa sustentabilidade no agronegócio?
É a capacidade de um negócio rural gerar resultado econômico, impacto social positivo e uso responsável dos recursos naturais ao mesmo tempo, sem comprometer a capacidade de produção e de vida das próximas gerações.
Quais são os três pilares da sustentabilidade?
Econômico, social e ambiental. Os três precisam ter peso equilibrado: se um deles falha, o sistema como um todo perde sustentação.
Sustentabilidade é a mesma coisa que preservação ambiental?
Não. Preservação ambiental é apenas um dos três pilares. Reduzir a sustentabilidade ao meio ambiente foi um dos motivos que desgastaram o conceito no Brasil.
Como o produtor rural pode transformar preservação em receita?
Por meio de mercados de créditos de carbono, como os créditos RR (redução de desmatamento), ARR (restauração) e, futuramente, ALM (gestão da propriedade), que remuneram práticas como integração lavoura-pecuária-floresta e plantio direto.
Por que o pilar social é considerado o maior desafio do agronegócio brasileiro?
Porque, apesar dos avanços econômicos e ambientais, o país ainda tem lacunas grandes em educação e qualificação técnica no meio rural, o que limita o desenvolvimento pleno do tripé.
Qual a relação entre mudanças climáticas e gestão da fazenda?
Eventos climáticos extremos afetam diretamente a produtividade e a viabilidade dos sistemas produtivos. Investir em irrigação, diversificação e integração de sistemas é hoje parte da gestão de risco de qualquer propriedade rural.
Conclusão
Sustentabilidade no agronegócio não é só escolher entre produzir e preservar, mas construir um negócio rural onde resultado econômico, impacto social e cuidado ambiental caminham juntos e se sustentam mutuamente. Os dados de Mato Grosso do Sul mostram que essa combinação já acontece na prática, e o mercado de créditos de carbono aponta um caminho concreto para transformar boas práticas de manejo em resultado financeiro.
Para o produtor, sucessor ou gestor rural, o próximo passo é olhar para a própria fazenda com essa lente de tripé: onde estão os pontos fortes e onde estão as lacunas nos três pilares? Esse diagnóstico é o primeiro passo para construir um negócio pensado não para o lucro deste ano, mas para as próximas gerações.
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Conteúdo baseado no Podcast Fazenda Lucrativa (Rehagro), episódio com Artur Falcette — secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul.







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