Rehagro Blog

Fazenda é como uma empresa qualquer: o case de gestão que triplicou a produtividade do café

Pessoa segurando frutos de café em um cafeeiro

Transformar uma propriedade rural em um negócio lucrativo raramente depende de sorte ou de um único ano de preço favorável. Depende, sobretudo, de método: números nas mãos, equipe engajada e disciplina para não dar “um passo maior que a perna”. É exatamente esse o retrato que emerge da trajetória de Bete Kim, hoje à frente da gestão da Fazenda São Sebastião, no Sul de Minas, em entrevista ao podcast Fazenda Lucrativa, do Rehagro.

Formada em arquitetura e com anos de experiência no mercado de moda em São Paulo, Bete assumiu em 2021 a gestão de uma propriedade cafeeira de 300 hectares plantada pelo pai a partir de 2012. O relato dessa transição de carreira reúne lições valiosas para produtores, sucessores, técnicos e investidores que querem profissionalizar o campo. Este artigo organiza essas lições em um roteiro prático para quem enfrenta o mesmo desafio.

 

Sem tempo para ler agora? Baixe este artigo em PDF!


De empresária urbana a gestora rural: uma sucessão em construção

A chegada de Bete à fazenda foi motivada pelo pai, que já cultivava café havia décadas e queria reforçar o time de gestão ao lado de outra irmã que já atuava na propriedade. Os primeiros seis meses foram dedicados apenas a entender a dinâmica do negócio, como números, processos, manejos, antes de qualquer tentativa de mudança.

Essa fase de imersão revela um princípio central para qualquer processo sucessório: conhecimento técnico e conhecimento de gestão não são intercambiáveis, mas precisam caminhar juntos. Foi só depois de buscar cursos e mentorias especializadas que Bete conseguiu transformar sua bagagem em negócios urbanos em decisões relevantes para a cafeicultura.

O mindset que destrava a profissionalização

O ponto de virada foi uma frase ouvida em mentoria: “fazenda é como uma empresa qualquer”. Esse mindset abriu caminho para a implementação de práticas que muitas propriedades rurais ainda resistem em adotar:

  • Um sistema de gestão integrado (ERP), reunindo dados financeiros, operacionais e de compras em um único lugar;
  • Contratação de consultoria técnica agronômica especializada;
  • Rotina de acompanhamento de indicadores, com metas e revisão periódica.

Eficiência operacional: fazer certo na hora certa

Um dos pilares mais citados na entrevista é eficiência operacional, a capacidade de executar a atividade certa dentro da janela de tempo correta. Não basta fazer a adubação ou a pulverização de forma tecnicamente adequada: se ela sai do prazo, o resultado se perde.

O ritual da consultoria quinzenal

Na Fazenda São Sebastião, a consultoria visita a propriedade a cada 15 dias. Em cada visita, é avaliado o percentual de atividades cumpridas dentro do prazo, fora do prazo e não realizadas — um indicador visual, apresentado como um gráfico de pizza, que orienta decisões imediatas (remanejar cronograma, antecipar compra de insumos, ajustar equipe).

Tabela com rotinas de eficiência operacional em uma fazenda

A propriedade chegou a superar 80% de eficiência operacional, patamar que tende a oscilar em períodos de pico, como a colheita, quando as atividades se acumulam. O aprendizado central: medir sem agir não gera valor. O dado só se torna ferramenta de gestão quando alimenta um plano de ação.

Liderança e cultura: a base que sustenta o método

Fazer com que a equipe adote um sistema de gestão não é trivial. Na Fazenda São Sebastião, a implementação inicial “forçou a marcha” da equipe, mas produziu um efeito colateral positivo: o time cresceu tecnicamente, ganhou autonomia e passou a sentir que “dá conta” dos desafios.

Manual de conduta e valores inegociáveis

Diante de uma maturidade baixa em gestão de pessoas identificada por diagnóstico externo em 2023, a fazenda estruturou subsistemas de RH, incluindo um manual de conduta com visão, missão, valores e o que é tolerado e o que é inegociável (respeito, honestidade, caráter). A lógica é simples: contratação é uma via de mão dupla, e a clareza cultural reduz atrito e rotatividade.

Segurança psicológica com alta exigência

Outro ponto forte é a busca por um ambiente que combine segurança psicológica com alto nível de exigência. Não se trata de tolerância a qualquer comportamento, mas de criar condições para que a equipe se sinta à vontade para contribuir, o que, segundo Bete, é decisivo para sustentar mudanças de longo prazo.

Gestão de pessoas: da seleção ao plano de carreira

A estruturação de RH também trouxe um mapeamento de cargos e uma estrutura de cargos e salários, dando a colaboradores como tratoristas uma trilha de evolução clara.

Tabela com principais práticas de gestão de pessoas em uma fazenda

Um exemplo concreto: ao medir a eficiência operacional das máquinas com rastreamento, a fazenda identificou um índice de 30%, bem abaixo da média de mercado. A resposta não foi punitiva, mas construída em conjunto com a equipe com treinamento e diálogo, e não imposição de cima para baixo.

Disciplina financeira em um negócio intensivo em capital

A fazenda descreve uma gestão financeira conservadora, evitando endividamento mesmo em momentos de preço elevado do café. Em vez de alavancar para abrir novas áreas de forma agressiva, a estratégia priorizou:

  1. Reforço de caixa;
  2. Investimento em infraestrutura e maquinário essencial à operação;
  3. Manutenção do investimento em insumos, mesmo diante de queda futura de preço, considerado um erro comum cortar exatamente o que sustenta a produtividade.

A lógica é evitar o que foi descrito como “espiral negativo”: reduzir insumos por causa do preço baixo, perder produtividade, perder receita e agravar ainda mais a crise. Produtores mais eficientes que a média, segundo o relato, tendem a não entrar no vermelho mesmo em ciclos desfavoráveis.

Diversificação: café, pecuária e olivicultura

A propriedade combina 300 hectares de café, com pecuária de cria nas áreas de relevo mais inclinado e um pequeno projeto experimental de olivicultura, iniciado após uma geada que afetou parte da lavoura. A diversificação segue um critério claro: ocupar bem cada tipo de terreno, sem abrir mão da produtividade principal.

Irrigação e tecnologia com propósito

A irrigação por gotejo, iniciada ainda pelo fundador, hoje cobre cerca de 70% da área, com meta de chegar a 90%. O manejo é orientado por estação meteorológica e consultoria especializada, evitando tanto a subirrigação quanto o desperdício de recurso hídrico.

Sobre tecnologia de forma geral, a gestora se posiciona como adotante tardia por escolha: prefere soluções já validadas em outras propriedades e que atendam a uma necessidade real do negócio, não à moda do momento. Essa visão é resumida em uma frase que resume bem o desafio da digitalização no agro: tecnologia sem gente capacitada para usá-la não entrega valor algum.

Governança familiar e sucessão

Desde 2023, a família iniciou formalmente um processo de governança, com apoio de consultoria especializada: constituição de holding, protocolo familiar e acordo de sócios, avançando para a fase de doação de cotas. O processo é descrito como demorado e por vezes doloroso, mas essencial para que decisões não peguem ninguém de surpresa.

Com sucessores já se aproximando da propriedade, a preparação da próxima geração passa por três frentes:

  1. Organização da informação em sistema, para que a nova geração acompanhe a operação à distância;
  2. Definição clara de papéis (sócios, conselho, gestão executiva);
  3. Preparo da equipe para atender às demandas dessa transição.

Principais lições para quem busca uma fazenda lucrativa

Ao ser questionada sobre o que diria a quem está construindo uma fazenda lucrativa, a gestora resumiu em poucos princípios:

  • Números nas mãos: sem informação organizada, a tomada de decisão fica comprometida;
  • Equipe alinhada com o mesmo propósito: resultado depende de time engajado, não apenas de comando;
  • Cautela no ritmo de crescimento: em um negócio intensivo em capital, um passo maior que a perna pode gerar prejuízos difíceis de reverter.

Conclusão

O relato da gestão da Fazenda São Sebastião mostra que profissionalizar uma propriedade rural não é um evento único, mas um processo contínuo que combina sistema de informação, consultoria técnica, disciplina financeira, cultura organizacional e governança familiar.

Nenhum desses pilares funciona isoladamente: um ERP sem cultura de execução não gera resultado, assim como uma equipe motivada sem dados confiáveis toma decisões no escuro. Para produtores, sucessores, consultores e investidores que buscam transformar o campo em um negócio de fato lucrativo, o caminho passa por medir, envolver a equipe na busca por metas e manter o caixa protegido para atravessar os ciclos naturais do agronegócio.

Quer profissionalizar a gestão e aumentar os resultados na cafeicultura?

O Curso Gestão na Produção de Café Arábica foi desenvolvido para quem deseja unir conhecimento técnico, gestão e eficiência econômica na condução da fazenda. Ao longo do curso, você aprenderá estratégias aplicáveis desde a implantação da lavoura até a colheita e o pós-colheita, além de ferramentas para controlar custos, melhorar a produtividade e ampliar a margem de lucro na atividade.

Conheça o curso e dê o próximo passo para tornar sua produção de café mais eficiente, profissional e lucrativa.

Curso Gestão na Produção de Café Arábica

____________________

Artigo baseado no episódio do Podcast Fazenda Lucrativa do Rehagro, com participação de Bete Kim, gestora da Fazenda São Sebastião, e condução de Clóvis Corrêa. 

Comentar