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Suplementação no período das águas: estratégias para maximizar o desempenho do rebanho

Gado de corte em uma pastagem verde no período das águas

Quando chega o período das águas e as pastagens ficam verdes e volumosas, muitos pecuaristas se perguntam: “se o pasto está bonito, por que suplementar?”. Essa dúvida é comum e, se não for bem esclarecida, pode fazer a fazenda perder uma das melhores oportunidades de acelerar ganho de peso, reduzir idade ao abate e organizar melhor o fluxo de caixa do negócio.

O fato de o pasto estar verde não significa que a dieta dos animais está completa nem que o sistema está operando no seu máximo potencial. A suplementação no período das águas entra justamente para corrigir limitações nutricionais, capturar o “ganho de oportunidade” dessa época e transformar capim em arrobas com mais eficiência.

O que é suplementação no período das águas?

Suplementação no período das águas é o fornecimento estratégico de nutrientes adicionais aos animais em pastejo, durante a estação chuvosa, para complementar aquilo que o capim não entrega sozinho. Ela faz parte de um planejamento nutricional anual, que considera tanto a seca quanto as águas como fases integradas do mesmo sistema.

Nas águas, o capim é abundante e, em geral, apresenta boa proteína, mas nem sempre há equilíbrio entre energia, proteína, minerais e consumo efetivo. Já na seca, o desafio é a falta de massa e qualidade.

Por isso, a lógica da suplementação muda: na seca, muitas vezes se “salva” o desempenho; nas águas, se potencializa o desempenho, aproveitando o melhor momento do ano para ganho de peso e para “preparar” o rebanho para a época crítica.

Por que suplementar quando o pasto está verde?

Limitações nutricionais do pasto de águas

Apesar do visual atrativo, o pasto de águas tem limitações. A qualidade nutricional varia conforme a espécie, idade da planta, taxa de lotação e manejo de pastejo. Em muitas situações, o animal tem volume, mas não tem o equilíbrio ideal entre energia e proteína para atingir ganhos mais altos. Além disso, o capim jovem é muito úmido, o que limita o consumo de matéria seca.

Outro ponto é a variação da qualidade ao longo da estação. No início das águas, o capim é bastante tenro; à medida que cresce e passa do ponto, a fibra aumenta, a digestibilidade cai e o desempenho diminui. Suplementar nas águas ajuda a “amortecer” essa variação, mantendo o nível nutricional oferecido mais estável ao longo da estação.

Ganho de oportunidade

O período das águas é o melhor momento para o animal ganhar peso: há capim, temperatura favorável e, em geral, melhor bem-estar. Quando a suplementação no período das águas é bem planejada, o pecuarista aproveita esse ambiente favorável para aumentar o ganho médio diário e reduzir o tempo total de permanência do animal no sistema.

Isso significa abater mais cedo, girar capital mais rápido e liberar área para novas categorias ou para intensificar o sistema. Em vez de pensar a suplementação apenas como custo, é preciso enxergá-la como investimento para encurtar ciclos e melhorar a rentabilidade por hectare e por cabeça.

Padronização de lotes e planejamento de venda

Outro benefício relevante é a padronização de lotes. Sem suplementação, alguns animais respondem muito bem ao pasto e outros nem tanto, gerando lotes desuniformes, com dificuldade de fechamento de cargas e negociação.

Com um programa bem desenhado de suplementação nas águas, os ganhos tendem a ser mais homogêneos, o que facilita planejamento de venda, uso de escalas de frigorífico, contratos e até estratégias de travas de preço.

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Principais tipos de suplementação no período das águas

Suplementação mineral

A base de qualquer sistema é a suplementação mineral. Mesmo com pasto verde, a exigência de minerais (principalmente macro e microminerais) nem sempre é atendida somente com o capim. Fornecer mistura mineral adequada mantém o metabolismo em equilíbrio, sustenta a imunidade e evita perdas silenciosas de desempenho.

No entanto, em muitos projetos focados em maior desempenho, o mineral isolado tende a ser a porta de entrada, e não o ponto de chegada. Ou seja, é fundamental, mas limitado quando a meta é acelerar o ganho de peso nas águas.

Proteinado de águas

O proteinado de águas é indicado quando se busca ganhar mais peso por cabeça sem perder a lógica de sistema a pasto. Em geral, é utilizado em recria, em categorias em crescimento e em sistemas que desejam antecipar idade de abate ou entrada em confinamento.

Esse tipo de suplemento ajusta a oferta de proteína e energia fermentescível no rúmen, permitindo melhor aproveitamento do capim e aumento no ganho médio diário, muitas vezes com incrementos significativos em relação ao animal apenas a pasto.

Suplementação energética e proteico-energética

Há cenários em que a suplementação no período das águas entra de maneira ainda mais intensa, com produtos proteico-energéticos ou predominantemente energéticos. Isso ocorre em sistemas mais intensivos, com metas agressivas de ganho, áreas limitadas ou quando se trabalha com categorias mais pesadas próximas do abate.

Nesses casos, o manejo precisa ser ainda mais cuidadoso. Ajustar dose, observar consumo, evitar mudanças bruscas e seguir a recomendação técnica do fabricante e do nutricionista é determinante para evitar problemas de acidose, distúrbios ruminais e desperdício de insumo.

Benefícios zootécnicos da suplementação no período das águas

A decisão de suplementar nas águas traz reflexos diretos sobre os principais indicadores zootécnicos. O primeiro é o ganho médio diário (GMD), que tende a subir de forma consistente quando se oferece uma suplementação bem ajustada ao nível de pasto.

Animais que ganhariam, por exemplo, 400–500 g/dia apenas a pasto podem passar a ganhar bem mais, dependendo da categoria, do plano nutricional e do tipo de suplemento.

Outro ponto é a conversão alimentar do sistema como um todo. Não se trata apenas do suplemento, mas da eficiência com que o conjunto “pasto + suplemento” é transformado em peso vivo e, mais adiante, em arroba. Animais que passam pela estação das águas com bom ganho chegam à seca em melhor condição corporal, o que facilita o manejo posterior e reduz o esforço de recuperação.

Impactos econômicos: vale a pena suplementar nas águas?

Do ponto de vista econômico, a pergunta-chave não é “quanto custa a suplementação?”, e sim “quanto retorno ela gera por real investido?”. Quando a suplementação no período das águas é bem dimensionada, o incremento de ganho de peso compensa o custo do suplemento e ainda aumenta a margem.

Abaixo, um exemplo simplificado para ilustrar o raciocínio:

Exemplo de cenários com e sem suplementação nas águas

Supondo que o ganho adicional seja de 45 kg (105 kg – 60 kg) e que a arroba vendida remunere o sistema de forma positiva, o produtor precisa comparar o valor dessa arroba extra com o custo do suplemento. É assim que se avalia se a estratégia é economicamente viável na realidade da fazenda.

Além do peso extra, entram na conta: redução de tempo de permanência, melhor uso da área, oportunidade de fazer mais giros e até melhoria na negociação de preço por entregar animais mais padronizados e no momento certo.

Como planejar a suplementação no período das águas?

Definição de objetivos do sistema

O planejamento começa com uma pergunta simples: qual é o objetivo do sistema? Cria, recria, engorda ou ciclo completo? A estratégia de suplementação no período das águas para recria de fêmeas de reposição, por exemplo, será diferente daquela utilizada em novilhos em terminação a pasto.

Definir metas de ganho de peso, idade de abate e lotação desejada por hectare ajuda a escolher o tipo de suplemento e a intensidade da suplementação.

Escolha do tipo de suplemento

Com os objetivos claros, é possível decidir se a fazenda vai trabalhar com mineral, proteinado, proteico-energético ou combinações em diferentes categorias. Essa escolha deve levar em conta:

  • Categoria animal (bezerro, garrote, novilho, vaca).
  • Oferta e qualidade de pasto ao longo das águas.
  • Meta de desempenho (manter, ganhar moderado, ganhar agressivo).

Em muitos casos, vale a pena começar com estratégias mais “simples” e evoluir à medida que a fazenda ganha dados e confiança no resultado.

Dimensionamento de cochos, logística e manejo

A parte prática é decisiva para que a suplementação funcione. É fundamental dimensionar bem o espaço de cocho por animal, garantindo acesso adequado e evitando a dominância de alguns animais sobre outros. A rotina de fornecimento também precisa ser realista para a equipe, com frequência e horários bem definidos.

Treinar a equipe para observar consumo, sobras, comportamento dos animais e possíveis sinais de problemas gastrointestinais é parte do manejo. Um bom suplemento, mal manejado, dificilmente entrega o resultado esperado.

Erros mais comuns na suplementação no período das águas

Alguns erros se repetem em muitas fazendas. Um deles é acreditar que o pasto verde resolve tudo e deixar de aproveitar o potencial da estação. Outro é escolher suplemento apenas pelo preço por saco, sem analisar concentração de nutrientes, consumo esperado e custo por cabeça/dia.

Também é comum não alinhar suplementação com o manejo de pastagem. Capim passado, excesso de lotação ou falta de rotação prejudicam o desempenho, mesmo com suplemento. Além disso, deixar de monitorar ganho médio diário e consumo faz com que o produtor fique sem saber se a estratégia está dando o retorno esperado.

Boas práticas para aumentar o retorno da suplementação nas águas

Para extrair o máximo da suplementação no período das águas, algumas boas práticas são fundamentais. Entre elas, realizar pesagens periódicas e registrar o desempenho dos diferentes lotes, ajustando a estratégia conforme os resultados. Acompanhar consumo de suplemento e sobras ajuda a evitar tanto desperdício quanto suboferta.

Outro ponto é integrar nutrição e pastagem: manejar altura de entrada e saída dos piquetes, ajustar lotação e, quando possível, trabalhar com algum nível de rotação de pastos. Assim, o suplemento passa a complementar um capim bem manejado, e não a “tapar buraco” de uma pastagem mal conduzida.

Conclusão

Suplementar no período das águas não é luxo, nem exagero: é estratégia. A suplementação no período das águas transforma o melhor momento do ano em uma verdadeira alavanca de resultados, encurtando ciclos, aumentando ganho de peso, padronizando lotes e melhorando o uso da área. Quando bem planejada, deixa de ser vista como custo e passa a ser reconhecida como investimento em produtividade e rentabilidade.

Para quem deseja profissionalizar o projeto de gado de corte, vale revisar o plano nutricional de forma anual, alinhando pastagem, suplementação e metas de produção. Isso coloca a fazenda em outro patamar de eficiência e prepara o sistema para enfrentar a seca com muito mais segurança.

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Autoria: Equipe Corte Rehagro.

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