A busca por eficiência alimentar é um dos maiores desafios enfrentados pelos confinadores brasileiros. Com o milho e o bezerro representando a maior fatia dos custos de produção, a escolha correta da fonte de energia pode determinar o sucesso ou fracasso de um projeto de terminação.
Uma mudança significativa tem transformado o cenário dos confinamentos nacionais: a crescente migração do milho grão seco para as silagens de grãos. Levantamentos técnicos revelam uma tendência clara de adoção dessas tecnologias, com uma parcela cada vez mais expressiva dos confinamentos brasileiros incorporando alguma modalidade de silagem de grãos em suas dietas.
Esta transformação não é uma tendência passageira, mas uma resposta técnica e economicamente fundamentada para aumentar a rentabilidade da produção de carne. Neste artigo, você compreenderá as três principais modalidades de silagem de grãos disponíveis e saberá exatamente qual escolher para o seu confinamento.
O que são as silagens de grãos?
Antes de nos aprofundarmos nas comparações, é fundamental entender o conceito de cada uma dessas tecnologias.
Silagem de grãos úmidos
A silagem de grãos úmidos é produzida através da colheita precoce do milho, quando os grãos atingem aproximadamente 35% de umidade. O processo envolve:
- Colheita com colhedora de grãos (não de forragem);
- Processamento imediato dos grãos;
- Transporte até o silo;
- Compactação e vedação adequadas.
É importante destacar que, ao contrário da silagem de planta inteira, aqui utilizamos equipamentos específicos para colheita de grãos, o que influencia diretamente a logística da operação.
Grãos reidratados (ou reconstituídos)
Nesta modalidade, trabalhamos com grãos secos que são artificialmente reidratados até atingir 35% de umidade. O processo inclui:
- Aquisição de grãos secos (milho ou sorgo);
- Moagem em moinho de martelos;
- Hidratação durante ou após a moagem (350-400 litros de água por tonelada);
- Ensilagem imediata do material reidratado.
Esta alternativa é particularmente interessante para quem não possui área agrícola própria ou competência para produção de grãos.
Silagem de espigas (Snaplage)
A tecnologia mais recente é a silagem de espigas, também conhecida como snaplage ou ear lage. Suas características incluem:
- Colheita com colhedora autopropelida equipada com plataforma despigadora;
- Coleta apenas de espigas (grãos + sabugo + palha);
- Umidade ideal de 35% no momento da colheita;
- Produtividade 15-20% superior aos grãos úmidos.
O grande diferencial desta modalidade é que o resíduo da cultura permanece no campo, podendo ser aproveitado para pastejo ou como matéria orgânica para o solo.
Como escolher entre as três opções?
A decisão sobre qual tipo de silagem utilizar deve considerar múltiplos fatores. Vamos analisar comparativamente cada opção.
Grãos úmidos vs. grãos reidratados
Do ponto de vista nutricional, estudos demonstram que não há diferença significativa entre grãos úmidos e grãos reidratados quando ambos são produzidos corretamente. Portanto, a escolha deve basear-se em critérios práticos:

Quando optar por grãos úmidos:
- Você possui área agrícola suficiente;
- Tem competência para produzir lavouras de alto rendimento;
- Já possui ou pode adquirir colhedora de grãos;
- O custo de produção própria é competitivo.
Quando optar por grãos reidratados:
- Não possui área disponível para agricultura;
- Prefere focar exclusivamente na pecuária;
- Tem acesso a grãos secos a preços competitivos;
- Já possui moinho com capacidade adequada.
Grãos úmidos vs. silagem de espigas
Esta comparação tende a favorecer a silagem de espigas na maioria das situações, pelos seguintes motivos:
- Competência agrícola: Ambas as opções exigem habilidade em produzir lavouras de milho, portanto não há vantagem diferencial neste quesito.
- Área disponível: A silagem de espigas apresenta produtividade 15-20% superior por hectare, pois além dos grãos, incorpora o sabugo e parte da palha. Para confinadores com limitação de área, esta é uma vantagem significativa.
Exemplo prático: Com produtividade de 11 toneladas de MS de espigas por hectare e fornecimento de 6,5 kg de MS por animal/dia durante 100 dias, você precisaria de aproximadamente 60 hectares para cada 1.000 bois confinados.
- Janela de colheita
- Grãos úmidos: 4-5 dias de janela ideal;
- Silagem de espigas: 8-12 dias de janela ideal.
O sabugo, componente mais úmido da espiga, sustenta a umidade adequada por mais tempo, facilitando o planejamento da colheita.
- Maquinário e logística
- Grãos úmidos: Requer colhedora de grãos + moinho + transportadores;
- Silagem de espigas: Utiliza colhedora autopropelida (mais comum em propriedades ou disponível para locação).
A operação com silagem de espigas é mais simples: colheita, transporte e ensilagem direta, sem necessidade de moagem prévia.
Grãos hidratados vs. silagem de espigas
Esta decisão requer análise mais cuidadosa, considerando:
Vantagens da silagem de espigas:
- Maior produtividade por área (15-20%);
- Processo de ensilagem mais simples;
- Custo da matéria seca 30-40% inferior (em regiões com milho caro);
- Menor dependência de compra externa de insumos.
Vantagens dos grãos reidratados:
- Não requer área agrícola;
- Não depende de condições climáticas para produção;
- Flexibilidade de compra conforme mercado;
- Menos investimento em maquinário agrícola.
Desafios dos grãos reidratados:
- Necessidade de moinho com grande capacidade;
- Alto consumo de água (350-400 litros/tonelada);
- Sistema de hidratação mais lento;
- Logística mais complexa.
A decisão deve considerar o perfil do produtor: aquele com vocação agrícola tende a ter melhor resultado com espigas, enquanto o pecuarista exclusivo pode preferir a reidratação.
Sete aspectos-chave: onde não se pode errar
Independentemente da opção escolhida, certos aspectos técnicos são críticos para o sucesso da silagem de grãos:
1. Umidade ideal: 35%
Este é o ponto de colheita/reidratação para todas as modalidades:
- Grãos úmidos: colher com 35% de umidade;
- Grãos reidratados: reidratar até 35% de umidade;
- Silagem de espigas: colher com 35% de umidade.
2. Processamento adequado
O processamento deficiente compromete todo o investimento. Grãos mal processados resultam em maior excreção de amido nas fezes, redução da energia líquida do alimento e perda de eficiência alimentar.
- Para grãos reidratados: Evite usar moinhos de rolo; prefira moinhos de martelo com capacidade adequada. Faça testes de granulometria usando peneiras para avaliar a eficiência do processamento.
- Para silagem de espigas: A colhedora autopropelida deve processar 100% dos grãos. Ajuste o cracker (rolo processador) com distância de 1-2 mm entre os rolos. Não tolere grãos inteiros.
3. Uso de aditivos
Silagens de grãos são altamente suscetíveis à deterioração pós-abertura. Use obrigatoriamente:
- Opção 1: Inoculantes contendo Lactobacillus buchneri. Mas atenção, nem todo inoculante contém esta cepa específica, algumas cepas requerem 1,5-2x a dose recomendada para silagens de grãos.
- Opção 2: Ácidos orgânicos também são efetivos contra deterioração aeróbia.
Importante: Outros inoculantes que não contenham Lactobacillus buchneri NÃO funcionam adequadamente para silagens de grãos.
4. Vedação de qualidade
Utilize lonas com barreira de oxigênio. O investimento inicial é compensado pela:
- Maior tempo de prateleira;
- Redução de perdas por deterioração;
- Melhor conservação das características nutricionais;
- Menor risco de micotoxinas.
5. Tempo mínimo de estocagem
As silagens de grãos precisam de no mínimo 60 dias de fermentação antes da utilização. Quanto mais tempo estocadas, maior a digestibilidade do amido.
Planeje seu confinamento considerando este período de maturação da silagem.
6. Formulação adequada
Ao formular dietas com silagens de grãos, atenção especial para:
Relação úmido de alta degradação : úmido de baixa degradação
- Recomendação: 70% amido de alta degradação (silagem) : 30% amido de baixa degradação (grão seco)
- Esta proporção otimiza a fermentação ruminal e previne distúrbios metabólicos
Proteína degradável no rúmen (PDR)
- Dietas com silagem de grãos demandam aproximadamente 65% da proteína bruta como PDR;
- O amido de alta degradação aumenta o dreno de amônia ruminal;
- Microrganismos precisam de mais fonte nitrogenada prontamente disponível.
Relação amido:PDR
- Mantenha em torno de 5,5:1;
- Valores menores indicam excesso de PDR (desperdício econômico);
- Valores maiores indicam deficiência de PDR (limita fermentação ruminal).
Fibra fisicamente efetiva
- Mínimo de 20-23% de FDN na dieta;
- Essencial para mastigação e tamponamento ruminal;
- Compensa o alto teor de amido rapidamente fermentável.
7. Adaptação e monitoramento
A adaptação dos animais é fundamental e deve seguir um protocolo mínimo de 15 dias. O processo consiste em reduzir gradualmente o teor de fibra na dieta através de um sistema chamado “step up“.
Nos primeiros cinco dias, os animais devem receber dieta com 35% de FDN. Entre o sexto e décimo dia, esse percentual é reduzido para 30% de FDN. Do décimo primeiro ao décimo quinto dia, trabalha-se com 25% de FDN. A partir do décimo sexto dia, os animais estão aptos a consumir a dieta final, com 20-21% de FDN.
Paralelamente ao protocolo de adaptação, é essencial estabelecer um monitoramento intensivo em múltiplas frentes. A avaliação diária do cocho deve contemplar padrões de consumo, possíveis seleções de ingredientes pelos animais e volume de sobras.
O escore de fezes precisa ser realizado de duas a três vezes ao dia, permitindo identificar precocemente qualquer desequilíbrio digestivo. A observação comportamental dos animais é igualmente importante, buscando sinais clínicos de acidose como apatia, redução de consumo ou salivação excessiva. Por fim, as pesagens periódicas fornecem dados objetivos para avaliar se o desempenho está dentro do esperado.
Lembre-se: o problema nunca está no alimento, mas na forma como é utilizado. Silagens de grãos são seguras quando manejadas corretamente.
Considerações finais
A adoção de silagens de grãos representa uma evolução natural e necessária dos sistemas de confinamento brasileiro. Com milho e bezerro respondendo por mais da metade dos custos de produção, cada ponto percentual de melhoria na eficiência alimentar reflete diretamente na rentabilidade do negócio.
Todas as três opções de silagem são nutricionalmente superiores ao grão seco, desde que os sete aspectos críticos sejam respeitados: umidade, processamento, aditivos, vedação, tempo de estocagem, formulação adequada e adaptação criteriosa.
O futuro dos confinamentos passa necessariamente por maior eficiência no uso dos nutrientes. As silagens de grãos não são modismo passageiro, mas ferramentas consolidadas que finalmente encontram condições técnicas e econômicas para adoção em larga escala no Brasil.
O sucesso está nos detalhes: invista em tecnologia, capacite sua equipe, monitore processos e busque sempre o suporte de profissionais qualificados. A diferença entre um confinamento lucrativo e um projeto deficitário está na soma desses pequenos cuidados cotidianos.
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