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Composto orgânico: quais os benefícios? Como é feito?

O que é composto orgânico?

O composto orgânico é um condicionador de solo, a base de resíduos orgânicos, que são decompostos de maneira controlada, pela ação de microrganismos. Este condicionador pode proporcionar melhorias nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. 

composto orgânico

Figura 1 Composto orgânico (Foto: Luiz Paulo Vilela)

Quais os benefícios? Por que aplicar?

Quando aplicado no solo o composto orgânico fornece macro e micronutrientes, mas também material orgânico estabilizado, propiciando não só a fertilização da cultura, como a melhoria das características físicas e químicas do solo. O incremento de matéria orgânica contribui para o aumento da CTC (capacidade de troca de cátions), permitindo maior retenção de nutrientes, sejam eles do próprio composto ou de outras fontes, inclusive fertilizantes químicos (LACERDA; SILVA, 2014). Estes nutrientes retidos vão sendo liberados de forma gradativa para a planta, contribuindo com o aumento da produtividade. 

Além de proporcionar maior retenção de nutrientes e de água no solo (importante para os períodos de estiagem) e dos outros benefícios já citados, a aplicação de composto orgânico contribui ainda para maior disponibilização de fósforo para as plantas. A disponibilização do fósforo é um fator muito importante, visto que ele apresenta grande interação com o solo, podendo ser fixado e por isso, não fica disponível para as plantas. Porém, na presença dos ácidos orgânicos produzidos no processo de decomposição da matéria orgânica, ocorre uma competição pelos sítios de adsorção, deixando este nutriente disponível para as plantas absorverem. 

Outro aspecto importante é que a utilização de composto orgânico favorece a atividade biológica do solo, que consiste principalmente de microrganismos que realizam diversas funções essenciais para o funcionamento do solo. Os microrganismos decompõem a matéria orgânica, liberam nutrientes em formas disponíveis às plantas e degradam substâncias tóxicas (KENNEDY E DORAN, 2002). Além disso, eles formam associações simbióticas com raízes de plantas, atuam no controle biológico de patógenos, influenciam na solubilização de minerais e contribuem para a estruturação e agregação do solo. Dessa forma, sendo extremamente desejáveis.

Os benefícios da aplicação do composto orgânico como um componente da adubação do solo podem ser visualmente notados pela observação do vigor das plantas em uma gleba submetida a este tipo de tratamento.  Para comprovar isso, trouxemos duas fotografias de uma lavoura cultivar Mundo Novo, em que foi realizada a aplicação de composto orgânico. Observem o ótimo vigor e enfolhamento das plantas! 

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Figura 2 Lavoura com a aplicação de composto orgânico. (Foto: Luiz Paulo Vilela).

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Figura 3 Lavoura com a aplicação de composto orgânico. (Foto: Luiz Paulo Vilela).

Como é feito o composto orgânico?

O composto orgânico é produzido através da compostagem. A compostagem é um processo de degradação controlada de materiais orgânicos na presença de oxigênio, mediante uma relação adequada de carbono e nitrogênio. Ao final do processo os nutrientes são convertidos em formas mais disponíveis para as plantas, podendo ser observado aumento no teor de N, P, K em relação aos materiais adicionados inicialmente na leira (COSTA et al., 2015). Durante a estabilização do material orgânico em substâncias húmicas há a formação de um produto mais estável, o composto, com propriedades diferentes do material que lhe deu origem. 

Quais matérias podem ser compostados?

A compostagem pode ser conduzida com a utilização de diversos tipos de materiais orgânicos.  Na maioria das vezes o processo é conduzido utilizando resíduos como: restos de alimentos crus, dejetos de animais, folhas secas, serragem ou maravalha, palha de milho, palha de trigo, palha de café, bagaço de cana, subprodutos da indústria cervejeira, resíduos de matadouro, entre outros (LACERDA; SILVA, 2014).  O que vai variar é a quantidade de cada um destes materiais, conforme a quantidade de carbono e nitrogênio de cada um.  

De forma geral os materiais orgânicos podem ser divididos em nitrogenados e carbonáceos, é a relação carbono nitrogênio (C/N) que indica se um material é rico em carbono ou em nitrogênio. Os materiais nitrogenados são aqueles que em sua composição tem uma quantidade de nitrogênio maior que de carbono orgânico, ou seja, uma menor relação carbono nitrogênio (C/N). Já os materiais carbonáceos são aqueles que apresentam uma maior relação carbono nitrogênio.  Na tabela abaixo são listados alguns resíduos ricos em carbono e em nitrogênio. 

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Tabela 1 Classificação de alguns resíduos orgânicos

A quantidade de carbono e de nitrogênio ideal para se iniciar um processo de compostagem é entre 25/1 a 35/1 (KHIEL,2001), esta relação supre as necessidades dos microrganismos para iniciar o processo de decomposição. Para estabelecer uma relação C/N adequada, é necessário dosar a quantidade de resíduos nitrogenados e carbonáceos de acordo com as características de cada material.  Em termos práticos, uma leira deve composta por 3 partes de resíduo carbonáceo para 1 parte de resíduo nitrogenado.

Como montar sua compostagem

Tipos de leira:

Para iniciar o processo de compostagem, além de verificar os tipos de materiais disponíveis deve-se atentar também para a montagem das leiras. Leiras são formas de acondicionar os resíduos para iniciar a compostagem. 

Existem diferentes métodos de compostagem, o mais simples é o método windrow, conhecido também como leiras reviradas (PEREIRA NETO, 2007). Este método consiste em acondicionar a mistura de resíduos em leiras e revirá-las periodicamente para garantir a presença de oxigênio, fundamental para que o processo ocorra de forma correta. 

Os tipos de leira mais comumente utilizados são piramidal, trapezoidal e cônico. Em compostagem de grande escala as leiras piramidais e trapezoidais são as mais indicadas. Independentemente do tipo de leira escolhida recomenda-se montá-la a uma altura de até 1,5m. Pilhas muito altas podem ocasionar a compactação do material, prejudicando o fluxo de ar. Pilhas muito baixas prejudicam a manutenção da temperatura, perdendo calor para o meio. A largura e o comprimento são variáveis. 

Parâmetros a serem monitorados durante o processo

A compostagem é um processo biológico e aeróbio, influenciado por fatores como a natureza dos microrganismos, umidade, aeração, temperatura e relação carbono nitrogênio(C/N) (Kiehl,2001). Os microrganismos responsáveis pelo processo dependem de condições específicas para sobreviverem e realizarem o seu “trabalho”, condições estas: 

Tabela 2 Parâmetros ideias para a condução do processo de compostagem.

No dia a dia do processo, a temperatura deve ser medida diariamente, em pontos diferentes da leira. O reviramento garante a presença de oxigênio e deve ser feito no mínimo uma vez por semana ou sempre que a temperatura foi maior que 65°C. A umidade deve ser verificada e corrigida sempre que necessário, para verificar se está adequada aperte um pouco de composto na mão, ele deve estar igual a foto da Figura 4. Se escorrer está úmido demais, se esfarelar precisa de mais água. 

Figura 4 – Método de verificação da umidade da leira. Observe que após ser apertado na mão o material manteve o formato dos dedos sem escorrer, esta é uma boa condição de umidade da leira. (Foto: Ana Elisa Daher)

Etapas da compostagem

O tempo necessário para produção do composto orgânico varia conforme as características dos materiais que compõem a leira, dependendo da relação C/N inicial, do teor de nitrogênio dos resíduos, do tamanho das partículas, da aeração e do número e frequência dos reviramentos (KHIEL, 1998), podendo durar até 120 dias (PRIMO et al., 2010).

O processo de compostagem pode ser subdividido de forma simplificada em duas fases: a fase de decomposição ativa (termofílica) e a fase de maturação do composto (FERNANDES; SILVA, 1996). A fase ativa (biodegradação rápida) caracteriza o início do processo onde se tem grande quantidade de nutrientes (nitrogênio) e energia (carbono) para serem consumidos pelos microrganismos e convertidos em dióxido de carbono, calor, água e composto. Devido à alta atividade bacteriana a característica principal desta etapa é o aumento da temperatura. O fim da fase de degradação ativa é indicado pela redução da temperatura, à medida que os materiais vão sendo degradados e a taxa de atividade microbiana vai sendo reduzida, conforme o gráfico da Figura 5.

Figura 5 Exemplo da evolução da temperatura em uma leira de compostagem. Fonte: Fernandes; Silva, 1996.

Após a faixa de biodegradação rápida ocorre a fase maturação do composto, quando a maior parte da matéria orgânica já foi estabilizada/degradada. Nesta etapa não é necessário o reviramento periódico, este é usado apenas quando for observado aumento de temperatura da pilha, ou quando houver formação de maus odores. A umidade nesta fase deve ser mantida entre 45 a 50%.

Após a fase de maturação o composto está pronto para ser aplicado no solo. 

Por que realizar a compostagem e não somente aplicar os materiais orgânicos diretamente no solo?

O processo de compostagem promove a bioconversão dos nutrientes presentes nos materiais orgânicos, transformando-os da forma orgânica (não assimilável pela planta) para a forma mineral (disponível para a planta). Além da mineralização dos nutrientes contidos, ocorre ainda a imobilização do material orgânico (ECKHARDT et al., 2018). 

Um estudo conduzido por Eckhardt e colaboradores (2018) comparando a taxa de mineralização de N, P, K  no solo pela aplicação de  fertilizantes orgânicos e resíduos de bovinos de corte e de leite in natura mostrou as fezes de bovino de leite aplicadas diretamente no solo imobilizaram nitrogênio do mesmo, ao passo que os composto orgânico produzido com fezes de bovino de corte e palha obteve a maior taxa de disponibilização de nitrogênio entre os fertilizantes analisados. 

O estudo realizado por Silva (2019) com o objetivo de avaliar o vigor de cafeeiros submetidos a diferentes práticas de manejo visando atenuar os efeitos da escassez hídrica, mostrou que a utilização do composto orgânico no manejo proporcionou incremento no solo de vários nutrientes, com destaque para o fósforo, em que foi superior a todos os outros manejos utilizados, como mostra o gráfico abaixo (figura 6). Dessa forma, salientando, sobre os diversos benefícios proporcionados pela utilização de composto orgânico, desde melhora na retenção de água no solo, até mesmo no fornecimento de nutrientes, destacando o fósforo que é um nutriente com grande interação no solo.

Legenda: Barras seguidas de mesma letra não diferem entre si a 5% de probabilidade pelo teste Scott-Knott. Fonte: Silva (2019).

Considerações

Portanto, são nítidos os benefícios químicos, físicos e biológicos ao solo com a utilização de composto orgânico. Refletindo assim em melhores condições para o crescimento e desenvolvimento das plantas, e, consequentemente acarretando em melhores resultados para a cultura.

A compostagem é um processo que pode ser realizado na própria fazenda, e em muitos casos com resíduos que ela mesma produz, reduzindo assim custo de produção desse material orgânico. 

Para a realização do processo, é importante estar atento aos aspectos citados anteriormente, como: a quantidade de resíduos nitrogenados e carbonáceos, altura da leira, umidade, temperatura e presença de oxigênio (revirar a leira), para que o processo ocorra de forma adequada e se produza um composto orgânico de qualidade.

Referências

  • COSTA, M. S. S. DE M. et al. Improving the nutrient content of sheep bedding compost by adding cattle manure. v. 86, p. 9–14, 2015. 
  • DE ARAÚJO, A. S. F.; MONTEIRO, R. T. R.. Indicadores biológicos de qualidade do solo. Bioscience Journal, v. 23, n. 3, 2007.
  • ECKHARDT, D. P. et al. Cattle Manure Bioconversion Effect on the Availability of Nitrogen, Phosphorus, and Potassium in Soil. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 42, n. 0, p. 1–10, 2018. 
  • FERNANDES, F.; SILVA, S. M. C. P. DA. MANUAL PRÁTICO PARA A COMPOSTAGEM DE BIOSSÓLIDOS. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 1996. 
  • KENNEDY, A.; DORAN, J. Sustainable agriculture: role of microorganisms. In: BITTON, G. (Org.) Encyclopedia of Environmental Microbiology. New York: John Wiley & Sons, 2002. p. 3116-3126.
  • KIEHL E.J. Fertilizantes orgânicos. São Paulo: Agronômica Ceres, 1998. 326p.
  • KIEHL, C.J. Produção de composto orgânico e vermicomposto. Informe Agropecuário, v.22, n.212, p.40-42, 47-52, Belo Horizonte, 2001. 
  • LACERDA, J. J. DE J.; SILVA, D. R. G. FERTILIZANTES ORGÂNICOS: USOS, LEGISLAÇÃO E MÉTODOS DE ANÁLISE. 96. ed. Lavras: Editora UFLA, 2014. 
  • PRIMO, D. C. et al. Avaliação da qualidade nutricional de composto orgânico produzido com resíduos de fumo. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v. 14, n. 7, p. 742–746, 2010. 
  • SILVA, L. C. MONITORAMENTO DO VIGOR DE CAFEEIROS SUBMETIDOS A ESTRATÉGIAS DE MANEJO PARA ATENUAR OS EFEITOS DA ESCASSEZ HÍDRICA. 2019. 83 F. Dissertação (Mestrado em produção Vegetal) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, 2019.
  • VALENTE, B.S..; XAVIER, E.G..; MORSELLI, T.B.G.A..; JAHNKE, D.S.., BRUM Jr, B.S..; CABRERA, B.R..; MORAES, P. O..; LOPES, D.C.N.. (2009) Fatores que afetam o desenvolvimento da compostagem de resíduos orgânicos. Archivos de Zootecnia, v. 58, p. 59-85

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