Escolher o fertilizante mais barato nem sempre é a decisão mais econômica. Quando o nitrogênio volatiliza antes de chegar à raiz, quando o fósforo se liga à argila e some da solução do solo, ou quando o enxofre demora demais para oxidar em um ciclo curto de soja, o produtor paga duas vezes: uma pelo insumo, outra pela produtividade que deixou de acontecer.
Entender as tecnologias disponíveis para fertilizantes sólidos é, portanto, um dos caminhos mais diretos para transformar custo em resultado. Este artigo apresenta, de forma didática e atualizada, o que há de mais relevante em tecnologias para nutrição nitrogenada, fosfatada e sulfatada em lavouras brasileiras.
Sem tempo para ler agora? Baixe este artigo em PDF!
O que define um bom fertilizante?
Antes de comparar tecnologias, é necessário definir o que torna um fertilizante realmente bom. Do ponto de vista técnico e econômico, as principais características a considerar são:
- Eficiência agronômica: capacidade de colocar mais nutrientes dentro da planta por unidade aplicada.
- Custo-benefício: não adianta ter alta eficiência se o custo inviabiliza o uso na escala da lavoura.
- Concentração e solubilidade do nutriente: fatores que formam boa parte do preço final do produto.
- Características físicas: dureza, fluidez, ausência de pó e pedra — aspectos que impactam diretamente a operação da semeadora.
- Adequação ao ambiente: um produto eficiente no plantio direto pode ser inadequado em café com calcário em superfície.
- Multinutrientes: a planta precisa de 14 nutrientes; soluções que entregam NPK mais micronutrientes e enxofre tendem a ser mais completas.
- Sustentabilidade: menor emissão de gases de efeito estufa e uso de compostos biodegradáveis são tendências cada vez mais consolidadas.
A equação não é simples, e um fertilizante com excelente performance em bancada ou em outra região do mundo pode apresentar baixa eficiência nas condições tropicais do Brasil.
Nitrogênio: entendendo as perdas para escolher a tecnologia certa
O nitrogênio no solo existe em duas formas principais: orgânico (fornecido pela mineralização da matéria orgânica) e mineral, que é a fração absorvida pela planta nas formas amoniacal (NH₄⁺) e nítrica (NO₃⁻). Esse é o único nutriente absorvido tanto como cátion quanto como ânion, o que torna seu comportamento no solo particularmente complexo.
O processo de conversão do amônio em nitrato — chamado nitrificação — é central para entender as tecnologias modernas. Da mesma forma, compreender as três principais rotas de perda de nitrogênio é fundamental para saber onde cada tecnologia atua:

Por que a volatilização custa tão caro
A ureia responde por 76% do nitrogênio consumido no mundo. Quando aplicada ao solo, uma enzima chamada urease a converte em amônio. Se o pH estiver elevado (acima de 7–8), esse amônio se transforma em amônia gasosa e vai para a atmosfera – é a volatilização.
Com o nitrogênio da ureia custando cerca de R$ 10/kg, cada quilo perdido representa esse valor descartado sem nenhum benefício agronômico. Dados de um estudo de 9 anos com cafeicultura mostram a dimensão do problema: usando ureia convencional, em 9 safras o produtor acumulou 647,9 kg de nitrogênio perdido por volatilização por hectare. Multiplicando por R$ 10/kg, são aproximadamente R$ 6.500/ha evaporados ao longo do período — sem contar o impacto sobre a produtividade.
Condições que potencializam a volatilização
Quatro fatores criam o ambiente perfeito para as perdas por volatilização:
- Baixa penetração da ureia no solo: ausência de chuva nos primeiros 7 a 10 dias após a aplicação (80 a 90% das perdas ocorrem nesse período).
- Solo arenoso ou com baixa CTC: menos capacidade de reter o amônio formado.
- Alta temperatura: acelera as reações enzimáticas e a conversão de amônio em amônia.
- Aplicação em solo úmido e em processo de secagem: o vapor ascendente favorece a saída do gás.
Um ponto frequentemente subestimado: não é apenas a quantidade de chuva que importa, mas a intensidade. Chuvas de 10 mm em 1 minuto têm efeito completamente diferente de 10 mm em 24 horas. Em lavouras de café, a situação é ainda mais crítica: a cobertura da copa intercepta parte da precipitação, reduzindo a quantidade de água que efetivamente chega ao solo onde o adubo foi aplicado.
Além disso, aplicações de calcário em superfície que elevam o pH de 0 a 5 cm podem intensificar drasticamente as perdas. Quando a saturação de bases sobe de 50% para 70–80%, o pH da camada superficial alcaliniza, exatamente onde a ureia é depositada — um fator de risco frequentemente ignorado na cafeicultura.
Classificação das tecnologias para fertilizantes nitrogenados
Chamar tudo de “ureia protegida” é um erro que compromete a tomada de decisão, da mesma forma que seria impreciso tratar todos os herbicidas como uma única categoria. Cada grupo tecnológico atua em um mecanismo diferente e se adapta melhor a determinadas condições.
Fertilizantes convencionais
Ureia, nitrato de amônio, sulfato de amônio, entre outros. O nitrato de amônio, por ter reação ácida, não perde por volatilização, o que o torna vantajoso em situações de pH elevado. O sulfato de amônio ganhou protagonismo recentemente justamente por combinar nitrogênio com enxofre em uma fonte de comportamento mais estável.
Fertilizantes estabilizados
São fertilizantes convencionais (principalmente ureia) com adição de inibidores enzimáticos que retardam reações específicas no solo:
Inibidores de urease (ex.: NBPT, NPPT)
- Bloqueiam temporariamente a enzima urease por 7 a 10 dias.
- Dão tempo para a chuva incorporar a ureia antes que o pH suba.
- Reduzem perdas por volatilização em pelo menos 50%.
- Importante: a concentração do inibidor no produto final é crítica, e no Brasil não existe regulamentação que obrigue o controle de qualidade dessa concentração.
Atenção ao armazenamento: estudos mostram que o tempo de meia-vida do NBPT (tempo para degradar 50% da molécula) é de 2,7 a 4,7 meses quando armazenado a 25°C. Além disso, a mistura de ureia com NBPT junto com fertilizantes fosfatados (MAP, DAP, superfosfato simples ou triplo) degrada rapidamente o inibidor — em uma semana, a concentração de NBPT pode cair para praticamente zero, pois o ácido presente nos fosfatados destrói a molécula. Esse conhecimento é responsabilidade da indústria e deve ser considerado na formulação dos blends.
Inibidores de nitrificação (ex.: DMPP, DMPSA)
- Bloqueiam temporariamente bactérias que convertem amônio em nitrato.
- Mantêm o nitrogênio mais tempo na forma amoniacal.
- Reduzem lixiviação de nitrato e emissão de óxido nitroso (N₂O).
- Não são indicados em plantio direto com calcário em superfície ou em lavouras de café: manter amônio em solo alcalino onde não há lixiviação nem desnitrificação potencializa a volatilização.
Fertilizantes de liberação lenta
Baseados em combinações de carbono e nitrogênio com diferentes graus de polimerização, entregam o nutriente em uma curva diferenciada ao longo do tempo. O principal produto disponível no Brasil é mais usado em café. A tendência global é de queda no uso desse tipo de material, substituído por tecnologias mais previsíveis.
Fertilizantes de liberação controlada
São fertilizantes convencionais (geralmente ureia) com revestimento polimérico que controla a dissolução do grânulo. O mecanismo é simples: a água entra pelo revestimento, dissolve o nutriente internamente, cria pressão e libera o nitrogênio gradualmente para a solução do solo.
Os fatores que controlam essa liberação são:
- Temperatura e umidade do solo (no campo);
- Tipo e espessura do revestimento (na indústria).
O material mais utilizado no mundo para revestimento é o poliuretano, que pode ser derivado do petróleo ou de fontes biodegradáveis, dependendo da rota industrial.
Um benefício adicional dos fertilizantes de liberação controlada é a redução do índice salino, aspecto importante para o milho safrinha, onde a proximidade do adubo com a semente pode comprometer o stand de plantas.
Em termos ambientais, o uso de tecnologias de revestimento pode reduzir a emissão de N₂O em até 85% em comparação com a ureia convencional — um dado relevante para quem precisa demonstrar a sustentabilidade da operação.
Blends com diferentes longevidades
Uma tendência crescente é a combinação de fertilizantes de liberação controlada com diferentes espessuras de revestimento e fertilizantes convencionais, criando uma curva de liberação personalizada por cultura. A mistura de frações com liberação imediata, intermediária e prolongada permite adequar a entrega de nitrogênio ao ritmo de absorção da planta ao longo do ciclo.
Fósforo: onde está o verdadeiro gargalo da eficiência
O comportamento do fósforo no solo
O fósforo tem uma característica que o diferencia completamente do nitrogênio: forte interação com a fase sólida do solo. Óxidos de ferro e alumínio (abundantes nos solos tropicais) competem com a planta pelo fósforo da solução, retendo-o em formas menos disponíveis. Esse processo, chamado de adsorção e precipitação, é o principal limitador da eficiência do fósforo.
Em solos com pH elevado, cálcio e magnésio também podem precipitar o fósforo. Por isso, o calcário é o pilar que viabiliza a agricultura no Cerrado: ao elevar o pH, reduz a competição dos óxidos de ferro e alumínio pelo fósforo da solução, aumentando significativamente a disponibilidade do nutriente.
Onde estão as tecnologias que mais importam para o fósforo
Uma perspectiva importante: as maiores alavancas para a eficiência do fósforo não estão no adubo em si, mas nas práticas de manejo do solo:
- Calagem: neutraliza a acidez e reduz a adsorção por ferro e alumínio.
- Gessagem: potencializa o crescimento radicular em profundidade, ampliando a interceptação de fósforo.
- Plantas de cobertura: aumentam a matéria orgânica e contribuem para a manutenção da fertilidade.
- Plantio direto: preserva a estrutura do solo e a continuidade dos canais de absorção.
No nível do fertilizante, as tecnologias disponíveis incluem os convencionais (MAP, DAP, termofosfato, fosfato natural) e algumas linhas de produtos sinérgicos — que combinam microrganismos, bioestimulantes e nutrientes como magnésio para potencializar a absorção. A combinação de fósforo com magnésio, por exemplo, apresenta resultado interessante na melhoria da absorção radicular.
Produtos que prometem “bloquear a fixação de fósforo pelo solo” devem ser avaliados com cautela: reduzir parcialmente a adsorção é possível, mas bloquear a reação com ferro e alumínio de forma significativa está longe de ser viável com as tecnologias hoje disponíveis.
Enxofre: a nova fronteira das tecnologias de fertilizantes
O enxofre ganhou um protagonismo inédito no mercado de fertilizantes, e entender como ele é entregue ao solo faz diferença real na eficiência do sistema produtivo.
Formas de aplicação do enxofre em fertilizantes sólidos
O enxofre elementar (S⁰) precisa ser oxidado por microrganismos do solo antes de ser absorvido pela planta. Isso significa que a velocidade de oxidação é um fator crítico especialmente em culturas de ciclo curto como a soja.
As principais formas tecnológicas disponíveis e suas velocidades de liberação são:

Dados de pesquisa mostram que, em 130 dias (ciclo típico da soja), a pastilha de bentonita oxidou apenas 9% dos 30 kg/ha aplicados, ou seja, apenas 3 kg efetivamente disponibilizados. Em solos com deficiência de enxofre, isso é insuficiente para suprir a demanda da cultura no período crítico.
Cogranulação e dispersão
Um avanço recente mostra que a eficiência do enxofre elementar não depende apenas do tamanho das partículas (área de superfície específica), mas também da qualidade da dispersão no campo. O enxofre cogranulado no fertilizante fosfatado apresenta maior número de pontos de distribuição por metro quadrado do que a pastilha, o que resulta em maior contato com os microrganismos responsáveis pela oxidação.
A regra prática é direta: quando a lavoura apresenta deficiência de enxofre e demanda resposta rápida, a fonte deve ser preferencialmente pó ou cogranulado com alta área de superfície. Quando o objetivo é manutenção em solos já bem supridos, a pastilha de bentonita cumpre o papel com custo mais baixo.
Cloreto de potássio e oportunidades de adição de micronutrientes
O KCl (cloreto de potássio) é o fertilizante potássico mais utilizado no Brasil. Por ser quimicamente neutro, ele apresenta uma característica interessante: aceita bem a adição de micronutrientes sem provocar interações que os tornem indisponíveis.
Estudos com adição de boro ao KCl demonstram que a combinação de fontes de diferentes solubilidades (por exemplo, ácido bórico de alta solubilidade com colemanita ou ulexita de menor solubilidade) equilibra a entrega do micronutriente ao longo do ciclo. Fontes exclusivamente solúveis tendem a lixiviar mais rapidamente, reduzindo a eficiência agronômica. A mistura calibrada permite ao produtor:
- Entregar o boro de forma mais graduada;
- Reduzir perdas por lixiviação;
- Aumentar o acúmulo do nutriente na planta.
O mesmo princípio se aplica a outros micronutrientes como zinco e magnésio, tornando o KCl uma plataforma interessante para formulações multinutrientes.
Conclusão
O avanço das tecnologias para fertilizantes sólidos no Brasil é concreto e expressivo. Inibidores de urease, produtos de liberação controlada, cogranulados de enxofre e formulações multinutrientes não são tendências futuras, são ferramentas disponíveis hoje, com resultados comprovados em pesquisa de campo.
O diferencial competitivo está em compreender como cada tecnologia funciona e aplicá-la de acordo com as condições do solo, da cultura e do sistema de produção. O agrônomo que conhece o mecanismo de ação de cada tecnologia consegue indicar a fonte certa para o solo certo, na condição climática certa, e isso se traduz diretamente em menos perda, mais nutriente absorvido pela planta e melhor rentabilidade para o produtor.
Em um cenário de custos elevados e margens apertadas, reduzir a ineficiência no uso de fertilizantes é uma das alavancas mais acessíveis e de maior impacto disponíveis na porteira da fazenda.
Aumente sua produtividade e reduza custos na lavoura!
A aplicação eficiente de insumos é um dos pilares para alcançar altos índices de produtividade e sustentabilidade na produção agrícola.
Se você quer entender melhor os fatores que afetam essa prática, saber como regular e calibrar corretamente os equipamentos, evitar perdas e garantir uma distribuição uniforme no campo, o Curso Online Eficiência Máxima na Aplicação de Corretivos e Fertilizantes do Rehagro pode te ajudar.
Com conteúdo prático, professores com ampla experiência no campo e aulas 100% online, você aprende a tomar decisões mais assertivas e técnicas que fazem a diferença no dia a dia.
_________________
Artigo produzido pela equipe técnica Rehagro Grãos, com base em palestra do Dr. Douglas Guelfi, professor do Departamento de Ciência do Solo da UFLA e pesquisador com atuação em nutrição de culturas e tecnologias para fertilizantes, realizada no 1º Simpósio Brasileiro de Solos e Nutrição de Plantas do Rehagro em maio de 2026.








Comentar