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Sensores no diagnóstico de solo e planta: potencial real, limitações e o que esperar do futuro

Homem utilizando sensor para diagnóstico do solo

AO campo da agricultura de precisão raramente gerou tanto entusiasmo quanto o tema dos sensores aplicados à análise de solo e planta. Nas últimas décadas, promessas de equipamentos capazes de substituir o laboratório em segundos se multiplicaram em feiras, publicações e redes sociais.

Ao mesmo tempo, pesquisadores que trabalham diariamente com essas tecnologias alertam: o potencial é real, mas exige responsabilidade técnica para não se transformar em frustração para o produtor que investe e para a tecnologia que ainda precisa amadurecer.

Este artigo reúne os principais conceitos, resultados de pesquisa e alertas práticos sobre sensores para diagnóstico agrícola, com base em estudos conduzidos em parceria entre academia e mercado ao longo de quase uma década.

O que são sensores na agricultura e como se diferenciam do laboratório tradicional

Para compreender o papel dos sensores no diagnóstico agrícola, é necessário primeiro entender onde eles se encaixam dentro da cadeia analítica tradicional.

A sequência analítica convencional e seus gargalos

A análise laboratorial de solo ou planta envolve uma sequência longa de etapas: coleta da amostra em campo, transporte, secagem, peneiramento, obtenção de alíquota e, finalmente, a aplicação de métodos químicos com uso de reagentes para a determinação dos nutrientes ou atributos de interesse.

Cada etapa dessa cadeia acrescenta tempo, custo logístico e risco de erro. A qualidade da amostragem, em especial, é determinante: se a coleta não for representativa da área, toda a análise posterior já parte de um ponto comprometido. Do ponto de vista de acurácia, porém, o método convencional bem executado e certificado produz resultados confiáveis e continua sendo a referência do diagnóstico agronômico no Brasil.

O boletim 100 do IAC, resultado de décadas de experimentação desde os anos 1960, segue como o principal documento de interpretação e recomendação do país. Esse arcabouço não será substituído pelos sensores e essa é uma afirmação intencional.

Onde os sensores entram: análise direta de amostras sólidas

Do ponto de vista da química analítica, os sensores como NIR (espectroscopia no infravermelho próximo) e XRF (fluorescência de raio X) são técnicas de análise direta de amostras sólidas. Isso significa que, ao contrário dos métodos convencionais, não é necessário transformar a amostra em solução nem utilizar reagentes químicos.

Essa característica oferece duas vantagens concretas:

  1. Velocidade: sem o processo de dissolução e reação química, o tempo de análise cai significativamente.
  2. Custo ambiental: a eliminação de reagentes reduz o descarte de resíduos químicos e simplifica a operação.

Mas há um ponto fundamental que muitas apresentações comerciais omitem: o potencial do sensor só se expressa completamente quando a amostra é processada, ou seja, seca, homogeneizada e peneirada. Levar o sensor diretamente ao campo, sem esse preparo, resulta em perda de desempenho que pode ser expressiva.

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Por que levar o sensor ao campo é mais difícil do que parece

O grande sonho da agricultura de precisão é instalar sensores diretamente em máquinas que percorrem o campo, gerando mapas de atributos em alta resolução espacial sem a necessidade de amostrar, embalar e transportar solo. A densidade de informação que isso geraria seria transformadora para o manejo localizado.

O problema é que o campo impõe variáveis que o laboratório não tem.

O efeito da umidade no desempenho do sensor NIR

O sensor NIR é altamente sensível à presença de água na amostra. Dados de pesquisa mostram que, a cada incremento de 5% na umidade da amostra de solo, o coeficiente de determinação (R²) cai de 0,94 para 0,61 — o que representa um aumento de erro superior a 1.000%. No campo, onde a umidade do solo varia continuamente com as chuvas e a evapotranspiração, manter condições analíticas estáveis é um desafio técnico de difícil solução.

Além da umidade, a heterogeneidade natural da amostra em campo também compromete a reprodutibilidade dos resultados.

O tradeoff entre praticidade e precisão

Quando o sensor é levado ao campo, ganha-se praticidade e perde-se precisão. Esse é um tradeoff que existe e precisa ser assumido com honestidade. A questão a responder para cada aplicação é: qual é o nível de erro aceitável?

Para um mapeamento exploratório que busca identificar zonas contrastantes de fertilidade dentro de um talhão, um erro maior pode ser tolerável. Para uma recomendação de adubação que definirá doses específicas, o erro precisa ser menor e precisa ser conhecido.

Esse ponto é crítico: grande parte das ofertas comerciais de análise via sensor no mercado não informa o erro associado ao diagnóstico entregue. Isso equivale a receber uma análise convencional sem ter acesso ao desvio padrão e aos critérios de acreditação do laboratório.

NIR e XRF: o que cada sensor consegue e o que não consegue estimar

Um projeto de pesquisa conduzido entre 2022 e 2025, com financiamento da FINEP e apoio da FAPESP, em parceria entre a CENA/USP e a Ribersolo, gerou um banco de dados de escala nacional com amostras de solo e planta submetidas tanto à análise convencional de referência quanto à análise pelos sensores NIR e XRF.

Os modelos foram desenvolvidos com técnicas de estado da arte em machine learning, com processamento realizado em colaboração com pesquisadores da Universidade de Sydney. Os resultados, apresentados publicamente pela primeira vez, oferecem um panorama técnico robusto sobre o que cada sensor consegue estimar.

Desempenho para atributos de solo

Atributo NIR XRF Destaque
Textura Bom potencial Bom potencial XRF 17–20% superior ao NIR
Matéria orgânica Alto potencial Potencial menor NIR 28% superior; fusão de dados melhora resultado
CTC Bom potencial Bom potencial XRF 16% superior
Soma de bases / Cálcio Limitado Único com potencial Apenas XRF
Atributos de acidez Limitado Limitado Baixa performance em escala nacional
Potássio, magnésio Limitado em escala nacional Potencial local Modelos por fazenda podem funcionar
Fósforo Muito difícil Muito difícil Nem em escala local

Um ponto importante: para nutrientes como potássio, cálcio e magnésio, os modelos em escala nacional apresentaram limitações. Porém, em nível local a predição desses elementos pode fazer sentido e merece exploração específica.

Desempenho para análise foliar

Na análise de folha, o cenário é mais favorável para os sensores. Praticamente todos os macronutrientes e a maioria dos micronutrientes apresentam bom desempenho quando a amostra está processada:

  • Nitrogênio e boro: o XRF não detecta elementos leves, portanto não consegue estimar N e B. O NIR supre essa lacuna — aqui os dois sensores são genuinamente complementares.
  • Magnésio, boro e ferro: R² entre 0,70 e 0,88 — desempenho considerado aceitável como ponto de partida.
  • Demais macronutrientes e micronutrientes: XRF se destaca com boa performance.

A combinação NIR + XRF é, portanto, especialmente valiosa para análise foliar completa, com cada sensor cobrindo as lacunas do outro.

O que descartar: o caso do LIBS

Outro sensor muito citado em apresentações sobre análise de solo é o LIBS (espectroscopia de emissão por plasma induzido por laser). Embora tenha bom desempenho para análise de rocha, o LIBS exige que a amostra de solo seja comprimida em forma de pastilha, um processo que envolve moagem e prensagem, eliminando a principal vantagem dos sensores (dispensar preparo complexo).

Por esse motivo, o LIBS foi descartado como candidato viável para análise de solo em campo ou em rotina laboratorial de alta escala.

Como avaliar se um sensor realmente funciona: além do R²

Quando se discute desempenho de modelos preditivos baseados em sensores, o R² (coeficiente de determinação) é a métrica mais citada. Um R² próximo de 1 indica que o modelo explica bem a variação dos dados. Mas essa métrica, usada isoladamente, não é suficiente para decidir se um sensor deve ou não ser adotado para uma aplicação específica.

O erro que importa para a decisão

O R² é útil para comparar sensores entre si em papers científicos. Para uma decisão prática, o que importa é o erro máximo aceitável para aquela determinação específica.

O raciocínio é análogo ao usado na validação de sistemas de GPS: não basta saber o erro médio; é preciso saber com que frequência o erro ultrapassa um limiar crítico. Um receptor GPS que garante precisão centimétrica em 95% das leituras é muito diferente de um que erra centímetros na média, mas pode errar metros em 20% das situações.

Da mesma forma, para um sensor de solo:

  • Estimar matéria orgânica com erro de ±0,5% pode ser suficiente para um mapeamento de zonas de manejo;
  • Mas para uma recomendação de calcário, o mesmo erro pode levar a doses significativamente distintas;
  • Para fósforo e potássio, onde pequenas variações já mudam a classe de interpretação, o critério de aceitação do erro precisa ser muito mais rigoroso.

A ausência de certificação no mercado atual

Outro ponto que a pesquisa levanta com clareza: o mercado de análise via sensor opera hoje sem fiscalização nem certificação equivalente à exigida para laboratórios convencionais. Os laboratórios tradicionais, para terem credibilidade, precisam participar dos ensaios de proficiência organizados pelo IAC e atender aos critérios do Inmetro. Para os sensores, ainda não existe um esquema equivalente estruturado no Brasil.

Isso cria um ambiente em que qualquer empresa pode oferecer “análise em 30 segundos” com um sensor portátil, sem precisar demonstrar a acurácia do que entrega. O caminho proposto pela pesquisa é criar testes de proficiência específicos para sensores, o que permitiria tanto exigir boas práticas dos fornecedores quanto dar ao usuário uma base objetiva para comparação.

O laboratório híbrido: integração, não substituição

O modelo que emerge da pesquisa não é o sensor substituindo o laboratório. É o laboratório híbrido, um conceito em que sensores e métodos convencionais coexistem, cada um cumprindo o papel para o qual tem melhor desempenho.

Na prática, esse modelo funciona assim:

  • A análise de referência convencional continua sendo a base agronômica para interpretação e recomendação.
  • Os sensores aceleram etapas do processo analítico dentro do laboratório, eliminando o uso de reagentes para atributos onde têm bom desempenho.
  • A biblioteca espectral — banco de dados que correlaciona os dados do sensor com os resultados laboratoriais de referência — é o que torna os modelos preditivos confiáveis e escaláveis.
  • Modelos treinados com dados nacionais abrangentes, usando machine learning de estado da arte, permitem estimativas robustas para atributos com bom desempenho comprovado.

A visão de longo prazo é que sensores embarcados em máquinas agrícolas gerem mapas de alta resolução complementando — não substituindo — as análises laboratoriais que sustentam as recomendações de manejo.

O que a prática recomenda para quem está avaliando sensores

Para técnicos, consultores e gestores que precisam decidir se e como incorporar sensores ao seu fluxo de trabalho, as orientações que emergem da pesquisa são objetivas:

Antes de adotar qualquer solução baseada em sensor:

  • Pergunte quais atributos o sensor consegue estimar e com qual erro.
  • Exija dados de validação com amostras independentes, não apenas com as amostras usadas no treinamento do modelo.
  • Entenda se o preparo de amostra adotado é com solo seco e peneirado ou com solo úmido de campo e o impacto disso no desempenho.
  • Questione se o modelo foi treinado com amostras da sua região ou apenas de locais distintos.

Análise foliar: a combinação NIR + XRF apresenta melhor cobertura de atributos e pode agregar valor real em laboratórios que lidam com alto volume de amostras

Análise de solo: o XRF tem maior potencial para atributos químicos do que o NIR; modelos locais (por fazenda) podem estimar potássio, cálcio e magnésio com desempenho aceitável, mas exigem banco de dados local robusto

Para uso em campo diretamente: espere por mais evidências antes de incorporar qualquer sensor portátil como substituto do laboratório; o impacto da umidade e da heterogeneidade ainda não foi resolvido de forma satisfatória

Conclusão

Os sensores representam uma das fronteiras mais promissoras da tecnologia aplicada ao diagnóstico agrícola. NIR e XRF, utilizados em combinação, têm potencial comprovado para estimar uma gama significativa de atributos de solo e planta com velocidade e custo operacional menores do que os métodos convencionais, especialmente quando integrados ao fluxo de trabalho laboratorial.

Mas o entusiasmo com a tecnologia não pode substituir o rigor técnico. O desempenho dos sensores cai quando saem do laboratório para o campo. Muitos atributos de interesse agronômico ainda não podem ser estimados com a precisão necessária para orientar recomendações. E o mercado ainda carece de certificação e transparência para que o usuário possa avaliar a qualidade do que está contratando.

O futuro do diagnóstico agrícola passará pelos sensores, isso é praticamente certo. Mas esse futuro será construído com validação científica rigorosa, bancada de dados robusta e padrões de acreditação que garantam ao produtor e ao técnico saber, antes de tomar uma decisão, qual é o erro que está aceitando.

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Artigo produzido pela Equipe Grãos Rehagro com base em palestra do Dr. Thiago Rodrigues Tavares, pesquisador de pós-doutorado do CENA/USP com atuação em bibliotecas espectrais, modelagem preditiva e monitoramento agrícola com sensores, e de Victor Monseff (CEO do 3r ribersolo), em apresentação conjunta sobre o projeto de laboratório híbrido conduzido com financiamento da FINEP e FAPESP.

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