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Conheça a nova proposta para monitoramento da colostragem em bezerras leiteiras

No artigo 4 dicas para fornecimento do colostro para bezerros leiteiros, vimos que o colostro bovino representa a principal fonte de anticorpos para os neonatos, uma vez que a placenta dos bovinos, do tipo sindesmocorial, impede a passagem de grandes moléculas para a circulação do feto. 

Dessa forma, a certificação de uma correta colostragem de bezerras consiste em um dos principais cuidados iniciais para se garantir a saúde e a sobrevivência dos animais.

Quando realizada de forma correta, a colostragem permite a absorção intestinal de imunoglobulinas que auxiliarão a bezerra na proteção contra doenças. Este processo de absorção de anticorpos via colostro materno é conhecido como transferência de imunidade passiva (TIP).

Já é sabido que uma boa colostragem proporciona adequada TIP, estimula o crescimento e desenvolvimento do animal e reduz as taxas de morbidade e mortalidade antes do desmame. Os benefícios adicionais a longo prazo associados à transferência passiva bem-sucedida incluem redução da mortalidade no período pós-desmame, melhor taxa de ganho de peso, redução da idade ao primeiro parto, aumento do volume de leite produzido na primeira e segunda lactação e redução das chances de descarte durante a primeira lactação.

Estudos científicos recentes na área de colostro bovino têm discutido novas recomendações para serem adotadas durante o monitoramento da TIP em bezerras leiteiras. O intuito do presente texto consiste em abordar as visões atuais da ciência acerca da colostragem, apresentando os conceitos básicos do processo e as novas metas de monitoramento.

Avaliação da eficiência da colostragem

A avaliação da eficiência de colostragem pode ser feita via refratômetro. A diferença está na possibilidade de utilizar tanto o refratômetro de Brix quanto o de gramas por decilitro (g/dL) para avaliar se a colostragem foi eficiente ou não.

Em tempos anteriores, os parâmetros considerados ideais para avaliar a transferência de imunidade passiva eram 90% das bezerras avaliadas com valores de proteína sérica > 5,5 g/dL ou > 8,4° Brix. No entanto, estudos conduzidos nos Estados Unidos durante os anos de 1991 e 1992 demonstraram que 41% das bezerras apresentavam falhas na TIP quando se considerava as metas mencionadas anteriormente (> 5,5 g/dL ou > 8,4°Brix). Desde então, os processos para melhorar o gerenciamento da qualidade do colostro nas fazendas norte americanas foram intensificados, até que em 2014 somente 13% das bezerras apresentaram falha na TIP quando a média de proteína sérica foi de 6,0 g/dL. Além disso, a mortalidade pré-desmame das bezerras caiu de 10,8% em 1996 para 6,4% em 2014. Devido a esse fato, pesquisadores de Estados Unidos e Canadá passaram, a partir de 2018, a questionar a meta de TIP de 5,2 g/dL.

Com base nestas ocorrências e nos dados do Sistema Nacional de Monitoramento da Saúde Animal (NAHMS) dos Estados Unidos de 2014, pesquisadores criaram um novo consenso acerca das metas para avaliação da eficiência de imunidade passiva de bezerras leiteiras. O novo modelo, conforme apresentado na tabela a seguir, considera novas metas para colostragem de bezerras e estratifica os níveis de transferência de imunidade passiva em excelente, bom, razoável e ruim. A construção dos quatro níveis de eficiência de colostragem teve como base a avaliação das taxas de morbidade e mortalidade de bezerras nos estudos do NAHMS, bem como outras publicações da literatura.

monitoramento de colostragem

Conforme discutido por Sandra Godden, Jason Lombard e Amelia Woolums (2019), o manejo do colostro materno consiste no fator mais importante para se garantir a saúde e a sobrevivência das bezerras leiteiras. Este manejo passa por fornecer aos bezerros um volume suficiente de colostro bovino limpo e de alta qualidade nas primeiras horas de vida. Benefícios adicionais podem ser obtidos através do fornecimento de várias mamadas e da alimentação prolongada de colostro ou leite de transição após as 6 horas iniciais. O monitoramento contínuo da colostragem de bezerras ajuda os produtores a identificar e corrigir os problemas nos programa de gerenciamento de colostro.

Novas oportunidades para intensificar a colostragem

Os dados a seguir representam informações reais sobre a eficiência de colostragem de duas fazendas no ano de 2019. Para cada uma das fazendas analisou-se a eficiência de colostragem no ano de 2019 considerando a meta antiga (> 5,5 g/dL) e a nova meta (> 6,2 g/dL). O intuito desta análise consiste em demonstrar as oportunidades criadas pela nova proposta de monitoramento da colostragem em bezerras leiteiras.

monitoramento de colostragem

Comparando os números apresentados da fazenda A no ano de 2019, pode-se observar que ao considerar a nova meta para eficiência de colostragem (> 6,2 g/dL) houve uma queda no sucesso da transferência de imunidade passiva de 14 pontos percentuais (93% de eficiência na meta de > 5,5 g/dL vs. 79% de eficiência na meta de > 6,2 g/dL). Ou seja, considerando a nova proposta de eficiência de colostragem a fazenda A passou a não apresentar a proporção ideal recomendada de bezerras bem colostradas, que é 90% dos animais com valores de transferência de imunidade passiva acima de 6,2 g/dL. Ao analisar de forma mais detalhada, nota-se que com a nova meta de colostragem em apenas dois meses obteve-se mais de 90% dos animais com eficiência na transferência de imunidade passiva, enquanto na meta antiga oito meses foram satisfatórios.

monitoramento de colostragem

monitoramento de colostragem

Comparando agora os dados de colostragem apresentados pela fazenda B, observa-se que a mudança de meta de > 5,5 g/dL para > 6,2 g/dL não afetou a proporção de bezerras bem colostradas da propriedade, pois em ambas as condições a proporção de animais com sucesso na TIP foi superior a 90% (99% de eficiência na meta de > 5,5 g/dL vs. 91% de eficiência na meta de > 6,2 g/dL). Outra observação interessante é de que mesmo com a meta mais alta, a fazenda B obteve dois meses com eficiência de colostragem de 100% (março e novembro), além de que em oitos meses a TIP obteve sucesso em mais de 90% das bezerras. Os dados apresentados demonstram que ambas as fazendas possuíam índices de eficiência de colostragem satisfatórios com a meta antiga e que com a meta atual apresentaram perfis diferentes. Perante estes dados podemos tirar duas conclusões principais:

  1. Fazendas que possuem um adequado manejo de colostro tendem a apresentar bons números de eficiência de colostragem mesmo com a mudança da meta de monitoramento, vide exemplo da fazenda B.
  2. Fazendas que apresentavam bons números de eficiência de colostragem na meta antiga (> 5,5 g/dL) e que tiveram redução no sucesso da TIP com a nova meta (> 6,2 g/dL) podem encontrar excelentes oportunidades para intensificarem o manejo de colostro que antes podiam estar negligenciados, vide exemplo da fazenda A.

Conforme já abordado durante o texto, o sucesso na colostragem é multifatorial, sendo influenciado desde questões práticas, como duração do período seco da vaca, manejo alimentar, programa vacinal, tempo até a colostragem, qualidade microbiológica do colostro e dentre outros, até questões inerentes ao manejo com os animais, como raça e idade da vaca. O recomendado está em fazer o básico bem feito, ou seja, adotar um adequado manejo de colostro que se fundamente nos quatro pilares: tempo, qualidade imunológica, qualidade microbiológica e quantidade de colostro ingerida.

O colostro é a principal fonte de anticorpos para elas e um dos pilares da bovinocultura, que garante a saúde e a sobrevivência dos animais, protegendo-os contra as doenças.

Para saber mais sobre as principais doenças que podem acometer as bezerras leiteiras, confira nosso próximo artigo: Principais enfermidades envolvidas na criação de bezerras leiteiras.

 

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