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Conheça a nova proposta para monitoramento da colostragem em bezerras leiteiras

Estudos científicos recentes na área de colostro bovino têm discutido novas recomendações para serem adotadas durante o monitoramento da transferência de imunidade passiva em bezerras leiteiras. O intuito do presente texto consiste em abordar as visões atuais da ciência acerca da colostragem, apresentando os conceitos básicos do processo e as novas metas de monitoramento.

O que é colostro?

Entende-se como colostro a secreção oriunda da glândula mamária obtida durante a primeira ordenha pós-parto em fêmeas mamíferas. Graças a sua composição rica em gordura, proteína (principalmente imunoglobulinas G – IgG), leucócitos, fatores de crescimento, hormônios e fatores antimicrobianos, o colostro materno possui a função de fornecer imunidade, fortalecer e aquecer o recém-nascido. A tabela a seguir apresenta uma comparação da composição nutricional do colostro bovino com o leite bovino:

Devido as bezerras apresentarem uma imunidade inata limitada ao nascimento, o colostro bovino representa a principal fonte de anticorpos para o neonato. Isto se deve a característica da placenta dos bovinos ser do tipo sindesmocorial e, assim, impedir a passagem de grandes moléculas para a circulação do feto. Desta forma, a certificação de uma correta colostragem de bezerras consiste em um dos pilares da bovinocultura para se garantir a saúde e a sobrevivência dos animais.

Importâncias da colostragem e da imunidade passiva

Conforme já dito, o colostro bovino representa a principal fonte de anticorpos para o neonato, visto que a placenta bovina impede a passagem de grandes moléculas da mãe para o feto. Quando realizada de forma correta, a colostragem permite a absorção intestinal de imunoglobulinas que auxiliarão a bezerra na proteção contra doenças. Este processo de absorção de anticorpos via colostro materno é conhecido como transferência de imunidade passiva (TIP).

Já é sabido que uma boa colostragem proporciona adequada TIP, estimula o crescimento e desenvolvimento do animal e reduz as taxas de morbidade e mortalidade antes do desmame. Os benefícios adicionais a longo prazo associados à transferência passiva bem-sucedida incluem redução da mortalidade no período pós-desmame, melhor taxa de ganho de peso, redução da idade ao primeiro parto, aumento do volume de leite produzido na primeira e segunda lactação e redução das chances de descarte durante a primeira lactação.

No entanto, quais são os pilares que garantem uma boa colostragem?

Diretrizes para uma boa colostragem 

As diretrizes do modelo atual de criação de bezerras leiteiras apontam quatro aspectos básicos como sendo os pilares para se alcançar uma colostragem adequada e, consequentemente, eficiência na TIP. São eles: tempo, qualidade imunológica, qualidade microbiológica e quantidade de colostro.

1. Tempo até a colostragem

O ideal é que a colostragem de bezerras seja realizada em até duas horas após o nascimento, sendo permitido realizar em até seis horas. O período entre o nascimento do animal e a colostragem é de extrema importância, pois após as seis primeiras horas de vida a taxa de absorção das imunoglobulinas do colostro materno cai consideravelmente devido alteração estrutural das vilosidades intestinais.

2. Qualidade imunológica

Logicamente, a concentração de anticorpos no colostro bovino é outro aspecto que contribui para o sucesso da transferência de imunidade passiva. Nesse caso, o anticorpo colostral utilizado para mensuração da qualidade imunológica é a IgG. O recomendado é que 90% das amostras de colostro bovino apresentem concentração de IgG maior que  50g/L. Um método indireto de se mensurar a concentração de IgG do colostro materno é através do refratômetro de Brix, seja ele óptico ou digital, sendo que valores iguais ou superiores a 22°Brix indicam boa qualidade imunológica. No entanto, vale ressaltar que os valores de imunoglobulina estipulados como meta durante avaliação do refratômetro variam conforme o desafio de cada propriedade. Raça, idade da vaca, duração do período seco, manejo alimentar no pré-parto e vacinação constituem alguns dos fatores que interferem na qualidade imunológica do colostro bovino.

3. Qualidade microbiológica

Os parâmetros de qualidade microbiológica avaliados no colostro são a contagem bacteriana total e a quantidade de coliformes totais, sendo que as metas consideradas ideais são < 100.000 UFC/ml e < 10.000 UFC/ml, respectivamente. Diversos estudos demonstram haver correlação entre a quantidade sérica de IgG e a contagem total de coliformes, sendo que quanto maior a quantidade de coliformes menor é a concentração de IgG (James et al., JDSci 1981; Poulson et al., ACVIM 2020; Godden et al., JDSci 2012). A qualidade microbiológica do colostro bovino está totalmente relacionada com a adoção de práticas de higiene durante a sua ordenha, manipulação e armazenamento.

4. Quantidade de colostro ingerida

Por muito tempo se trabalhou somente com uma única oferta de colostro na quantidade de 10 a 12% do peso corporal (PC) da bezerra nas 6 primeiras horas de vida. Atualmente, estudos científicos (Chamorro et al., JDSci 2017) vêm demonstrando os benefícios de uma segunda oferta de colostro na quantidade de 5% do peso corporal da bezerra. Deste modo, o modelo atual de criação de bezerras leiteiras recomenda um plano de colostragem baseado em duas ofertas de colostro ao longo das primeiras 24 horas de vida, sendo a primeira ingestão do colostro materno em até 6 horas (10 a 12 % do PC) e a segunda oferta ocorrendo nas demais 18 horas antes da bezerra concluir o primeiro dia de vida (5% do PC). Uma alternativa interessante para a segunda oferta consiste no resfriamento do volume excedente utilizado para a primeira colostragem. Sempre atentar para o correto armazenamento do colostro bovino refrigerado: de preferência em sacos plásticos resistentes e higienizados, em temperatura de 2 a 8°C e por um período não superior a 48 horas.

Colostragem via sonda esofágica – Fonte: Fazenda Queima Ferro

Novas metas para monitoramento de tip

Assim como na avaliação da qualidade imunológica do colostro, a avaliação da eficiência de colostragem também pode ser feita via refratômetro. A diferença está na possibilidade de utilizar tanto o refratômetro de Brix quanto o de gramas por decilitro (g/dL) para avaliar se a colostragem foi eficiente ou não.

Em tempos anteriores, os parâmetros considerados ideais para avaliar a transferência de imunidade passiva eram 90% das bezerras avaliadas com valores de proteína sérica > 5,5 g/dL ou > 8,4° Brix. No entanto, estudos conduzidos nos Estados Unidos durante os anos de 1991 e 1992 demonstraram que 41% das bezerras apresentavam falhas na TIP quando se considerava as metas mencionadas anteriormente (> 5,5 g/dL ou > 8,4°Brix). Desde então, os processos para melhorar o gerenciamento da qualidade do colostro nas fazendas norte americanas foram intensificados, até que em 2014 somente 13% das bezerras apresentaram falha na TIP quando a média de proteína sérica foi de 6,0 g/dL. Além disso, a mortalidade pré-desmame das bezerras caiu de 10,8% em 1996 para 6,4% em 2014. Devido a esse fato, pesquisadores de Estados Unidos e Canadá passaram, a partir de 2018, a questionar a meta de TIP de 5,2 g/dL.

Com base nestas ocorrências e nos dados do Sistema Nacional de Monitoramento da Saúde Animal (NAHMS) dos Estados Unidos de 2014, pesquisadores criaram um novo consenso acerca das metas para avaliação da eficiência de imunidade passiva de bezerras leiteiras. O novo modelo, conforme apresentado na tabela a seguir, considera novas metas para colostragem de bezerras e estratifica os níveis de transferência de

imunidade passiva em excelente, bom, razoável e ruim. A construção dos quatro níveis de eficiência de colostragem teve como base a avaliação das taxas de morbidade e mortalidade de bezerras nos estudos do NAHMS, bem como outras publicações da literatura.

monitoramento de colostragem

Conforme discutido por Sandra Godden, Jason Lombard e Amelia Woolums (2019), o manejo do colostro materno consiste no fator mais importante para se garantir a saúde e a sobrevivência das bezerras leiteiras. Este manejo passa por fornecer aos bezerros um volume suficiente de colostro bovino limpo e de alta qualidade nas primeiras horas de vida. Benefícios adicionais podem ser obtidos através do fornecimento de várias mamadas e da alimentação prolongada de colostro ou leite de transição após as 6 horas iniciais. O monitoramento contínuo da colostragem de bezerras ajuda os produtores a identificar e corrigir os problemas nos programa de gerenciamento de colostro.

Novas oportunidades para intensificar a colostragem

Os dados a seguir representam informações reais sobre a eficiência de colostragem de duas fazendas no ano de 2019. Para cada uma das fazendas analisou-se a eficiência de colostragem no ano de 2019 considerando a meta antiga (> 5,5 g/dL) e a nova meta (> 6,2 g/dL). O intuito desta análise consiste em demonstrar as oportunidades criadas pela nova proposta de monitoramento da colostragem em bezerras leiteiras.

monitoramento de colostragem

Comparando os números apresentados da fazenda A no ano de 2019, pode-se observar que ao considerar a nova meta para eficiência de colostragem (> 6,2 g/dL) houve uma queda no sucesso da transferência de imunidade passiva de 14 pontos percentuais (93% de eficiência na meta de > 5,5 g/dL vs. 79% de eficiência na meta de > 6,2 g/dL). Ou seja, considerando a nova proposta de eficiência de colostragem a fazenda A passou a não apresentar a proporção ideal recomendada de bezerras bem colostradas, que é 90% dos animais com valores de transferência de imunidade passiva acima de 6,2 g/dL. Ao analisar de forma mais detalhada, nota-se que com a nova meta de colostragem em apenas dois meses obteve-se mais de 90% dos animais com eficiência na transferência de imunidade passiva, enquanto na meta antiga oito meses foram satisfatórios.

monitoramento de colostragem

monitoramento de colostragem

Comparando agora os dados de colostragem apresentados pela fazenda B, observa-se que a mudança de meta de > 5,5 g/dL para > 6,2 g/dL não afetou a proporção de bezerras bem colostradas da propriedade, pois em ambas as condições a proporção de animais com sucesso na TIP foi superior a 90% (99% de eficiência na meta de > 5,5 g/dL vs. 91% de eficiência na meta de > 6,2 g/dL). Outra observação interessante é de que mesmo com a meta mais alta, a fazenda B obteve dois meses com eficiência de colostragem de 100% (março e novembro), além de que em oitos meses a TIP obteve sucesso em mais de 90% das bezerras. Os dados apresentados demonstram que ambas as fazendas possuíam índices de eficiência de colostragem satisfatórios com a meta antiga e que com a meta atual apresentaram perfis diferentes. Perante estes dados podemos tirar duas conclusões principais:

  1. Fazendas que possuem um adequado manejo de colostro tendem a apresentar bons números de eficiência de colostragem mesmo com a mudança da meta de monitoramento, vide exemplo da fazenda B.
  2. Fazendas que apresentavam bons números de eficiência de colostragem na meta antiga (> 5,5 g/dL) e que tiveram redução no sucesso da TIP com a nova meta (> 6,2 g/dL) podem encontrar excelentes oportunidades para intensificarem o manejo de colostro que antes podiam estar negligenciados, vide exemplo da fazenda A.

Conforme já abordado durante o texto, o sucesso na colostragem é multifatorial, sendo influenciado desde questões práticas, como duração do período seco da vaca, manejo alimentar, programa vacinal, tempo até a colostragem, qualidade microbiológica do colostro e dentre outros, até questões inerentes ao manejo com os animais, como raça e idade da vaca. O recomendado está em fazer o básico bem feito, ou seja, adotar um adequado manejo de colostro que se fundamente nos quatro pilares: tempo, qualidade imunológica, qualidade microbiológica e quantidade de colostro ingerida.

Referências

  • GODDEN, Sandra M. What’s new in colostrum management? Webinar DCHA – Dairy Calf & Heifer Association. 31/03/2020.
  • GODDEN, Sandra M.; LOMBARD, Jason E.; WOOLUMS, Amelia R. Colostrum Management for Dairy Calves. Veterinary Clinics of North America, n. 35, p. 535-556, 2019.
  • FOLEY, J. A.; OTTERBY, D. E. Avaiability Storage, Treatment, Composition, and Feeding Value of Surplus Colostrum: A Review. Journal of Dairy Science, n. 61, p. 1033-1060, 1978.
  • LOMBARD, Jason E. New passive transfer standards for dairy calves and how to achieve them. In: DCHA Annual Conference 2020. 8-9/04/2020.

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