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Manejo alimentar de vacas em período de transição


Este texto sobre o manejo alimentar das vacas em período de transição, consiste em uma adaptação do Webinar Leite Online apresentado pelo professor PhD da Universidade da Flórida, José Eduardo Portela, no intuito de abordar os principais pontos citados na apresentação (Link).

O período de transição consiste em um momento crítico de extrema influência na saúde e produção das vacas leiteiras. Manejos pontuais tornam-se necessários nesta época para garantir condições adequadas às fêmeas gestantes durante o periparto, evitando a ocorrência de distúrbios. O esquema abaixo resume os principais pontos a serem desenvolvidos em cada fase do periparto:

Todos os pontos citados no esquema acima devem associados ao conforto animal e redução do estresse calórico. A redução do estresse calórico não deve se limitar apenas ao período pré-parto, devendo ocorrer durante todo o período seco da vaca.

Morbidade de acordo com dias no lote pré-parto

O tempo de permanência das vacas no lote de pré-parto impacta diretamente na probabilidade de ocorrência de doenças durante o período de transição, principalmente no pós-parto imediato. Vieira-Neto e colaboradores (dados não publicados) avaliaram a probabilidade de ocorrência de doenças aos 60 dias de lactação em aproximadamente 20.000 vacas Holandesas de 7 fazendas localizadas nos estados da Califórnia e da Flórida.

As doenças consideradas foram problemas de parto, retenção de placenta, metrite, doenças respiratórias, mastite, deslocamento de abomaso e doenças digestivas, além de óbito. Os resultados obtidos encontram-se no gráfico abaixo. Podemos observar que a permanência das vacas no lote pré-parto em período inferior a 30 dias ou superior a 50 dias aumentou a probabilidade de ocorrência de doenças nos primeiros 60 dias de lactação.

Fonte: Vieira-Neto et al. (dados não publicados).

Ao analisarmos os períodos de maior incidência das doenças do periparto vemos que a metrite tende a ocorrer nos primeiros 7 a 10 dias de lactação, enquanto as doenças de origem não uterina (mastite, deslocamento de abomaso, doenças metabólicas etc.) tendem a se concentrar até os 15 dias pós-parto. Conforme relatado por Ribeiro et al. (2016), 30 a 35% das vacas são diagnosticadas com doença nas primeiras 3 semanas pós-parto. 

O pós-parto imediato é conhecido como um estágio de aumento exacerbado da demanda de nutrientes pelas fêmeas mamíferas. Em casos de doenças no periparto esta demanda aumenta consideravelmente devido aos desafios impostos pelos patógenos ao organismo do animal. Isso contribui para que haja maiores chances de deficiência nutricional neste período crítico.

Algumas recomendações para o período de transição

Estimular a ingestão de matéria seca (MS): conforme citado anteriormente, a ingestão de nutrientes é essencial para garantir um balanço nutricional adequado, boa saúde, boa produção de leite e índices reprodutivos ideais. Para que a fêmea no período de transição tenha uma ingestão de MS satisfatória torna-se fundamental que pontos como escore de condição corporal, conforto térmico e manejo alimentar estejam adequados.

Reduzir as doenças: a ocorrência de doenças ocasiona inflamação e dano tecidual, o que altera a partição de nutrientes e favorece o reparo tecidual ao invés da síntese de tecidos. Portanto, a prioridade metabólica do organismo do animal passa a ser de sobrevivência, e não de produção/crescimento.

Dietas de pré-parto: focar em quatro aspectos importantes, que são:

  • Evitar a ingestão excessiva de calorias (ganho de tecido adiposo e condição corporal);
  • Reduzir esteatose hepática e cetose;
  • Prevenir hipocalcemia;
  • Fornecer quantidade adequada de proteína metabolizável.

Controle do peso corporal: evitar que as vacas ganhem peso durante o período seco, pois conforme se aproxima o parto o risco de esteatose hepática aumenta, principalmente nos animais com maior escore de condição corporal. O risco maior se concentra nas 3 primeiras semanas pós-parto devido à mobilização das reservas corporais. O uso de colina pode ser uma alternativa para auxiliar na prevenção do ganho de peso. No entanto esta colina deve ser fornecida na forma protegida para não sofrer degradação rumenal.

A colina protegida, quando absorvida, é utilizada na síntese de fosfolipídios, moléculas que atuam no transporte e metabolização dos lipídeos. Zenobi et al. (2018) citam que altas concentrações dietéticas de colina protegida promovem redução da concentração de triglicerídeos a nível hepático, auxiliando assim na prevenção de esteatose e demais distúrbios metabólicos. Além disso, a colina tende a estimular a produção de leite (2,3 kg/dia), auxiliar na redução da ocorrência de retenção de placenta (28% a menos) e de mastite (22% a menos) (ZENOBI et al., 2018).

Importância da dieta acidogênica

As dietas acidogênicas (aniônicas) são conhecidas por promoverem ligeira acidose metabólica (pH sanguíneo de 7,38-7,40), induzindo uma melhor resposta dos receptores de paratormônio (PTH). De forma resumida, essas duas alterações facilitam o processo de mobilização de cálcio no organismo e auxiliam na prevenção da hipocalcemia. Além disso, essa ligeira acidose metabólica induz uma acidose tubular a nível renal que promove maior absorção de cálcio pelos rins. 

Vacas que consomem dieta com diferença cátion-aniônica positiva (DCAD), ou seja, dietas alcalogênicas, tendem a reduzirem mais o consumo de MS quando comparadas às vacas alimentadas com dietas com DCAD negativo (dietas acidogênicas). A produção de leite também tende a seguir esta mesma resposta, exceto nas nulíparas que não apresentam maior produção de leite quando alimentadas com dietas acidogênicas. Doenças como retenção de placenta e metrite também apresentam menos riscos de serem desenvolvidas quando há oferta de dieta com DCAD negativo.febre do leite

Observamos no gráfico acima (p < 0,01) que o risco de ocorrência de hipocalcemia (febre do leite) é diretamente proporcional à diferença cátion-aniônica da dieta (DCAD). Ou seja, quanto maior o DCAD, maior a chance das vacas desenvolverem hipocalcemia.

DCAD e risco de febre do leite em vacas pluríparas

DCAD e risco de retenção de placenta ou metrite

Os gráficos acima demonstram que o risco de retenção de placenta e metrite possuem a mesma premissa da ocorrência de hipocalcemia: quanto maior o DCAD da dieta, maior a chance do desenvolvimento das doenças do período de transição. Estes dados confirmam um dos pontos importantes para se oferecer dietas acidogênicas para as vacas durante o período de pré-parto.

Resumo geral

A listagem dos tópicos abaixo possui o intuito de apresentar de forma sucinta os principais pontos relacionados ao manejo durante o período de transição.

  • Realizar a secagem das vacas com 230 dias de gestação, aproximadamente. O tempo para secagem varia conforme a média do período de gestação das fazendas, sendo que o ideal é um período seco entre 50 e 60 dias.
  • Promover condições para que as vacas apresentem adequado ECC na secagem (3,0 – 3,5), além de evitar grandes variações no ECC durante o período seco.
  • Oferecer conforto térmico durante todo o período seco, desde a secagem até o parto.
  • Mover as vacas para o lote de pré-parto faltando 25 dias, aproximadamente, par ao parto.
  • Ofertar dieta acidogênica durante o pré-parto, além de níveis adequados de proteína metabolizável.
  • Maximizar a ingestão de matéria seca.
  • Realizar o monitoramento de doenças no pré e pós-parto, promovendo diagnóstico precoce e tratamento adequado nos casos.

 

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