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Consequências e impactos da seca na fisiologia e fenologia do cafeeiro

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A cafeicultura é uma atividade altamente dependente de fatores climáticos. Isso porque que os cafeeiros, geralmente são plantados em ambientes abertos e na maioria das vezes em sistema de sequeiro. Dessa forma, mudanças climáticas, como o aumento da temperatura e modificações no regime de chuva podem afetar diretamente a produção, além de alterar a geografia e o calendário da produção agrícola brasileira.

fenologia do cafeeiro

Figura 1. (Foto: Vinicius Teixeira).

De acordo com o gráfico (Figura 2), nos últimos anos, observa-se aumento constante da temperatura global. Nesse sentido, condições de aumento da temperatura associado ao déficit hídrico trazem consequências a fisiologia das plantas, afetando assim a produtividade da cultura.

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Figura 2. Fonte: NASA

O ano de 2020 é um ano de bienalidade positiva do café, ou seja, um ano com alta produção de café. De acordo com a CONAB (Companhia Nacional de abastecimento), em levantamento realizado em setembro de 2020, estima-se uma produção de 61,6 milhões de sacas beneficiadas, sendo desse total, 47,4 milhões de café Arábica e 14,3 milhões de café Conilon.

Já, o ano de 2021, será um ano de bienalidade negativa, onde é esperado um volume menor de produção do grão. Com a seca prolongada observada em 2020, projeta-se uma safra ainda menor para 2021. Isso ocorre pois, como já mencionado, condições de altas temperaturas associadas ao déficit hídrico trazem consequências para a fisiologia das plantas, sendo observado um aumento na evapotranspiração das plantas, e redução da taxa fotossintética, em função do fechamento estomático.

Fenologia da planta

Para entender o comportamento da cultura do café em relação ao clima é necessário conhecer alguns aspectos de sua fenologia e fisiologia, pois o café arábica (Coffea arábica L.) leva dois anos para completar o ciclo fenológico de frutificação, ao contrário da maioria das plantas, quem completam seu ciclo reprodutivo no mesmo ano fenológico (CAMARGO & CAMARGO, 2001).

Conforme mostra o esquema abaixo (figura 3), o ciclo fenológico é constituído de seis fases distintas, dessas, sendo duas vegetativas e quatro reprodutivas: 1ª Vegetação e formação de gemas foliares, 2ª indução e maturação das gemas florais, 3ª florada, 4ª granação dos frutos, 5ª maturação dos frutos, e 6ª repouso e senescência dos ramos terciários e quaternários, sendo a 1ª e 2ª no período vegetativo e da 3ª a 6ª no período reprodutivo.

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Figura 3. Esquematização das seis fases fenológicas do cafeeiro arábica, durante 24 meses, nas condições climáticas tropicais do Brasil.

Adaptado CAMARGO E CAMARGO (2001).

Nesse sentido, condições de seca na 1ª fase (setembro a março do primeiro ano fenológico), que ocorre a vegetação e formação de gemas foliares, pode afetar as gemas e produção do ano seguinte. Da mesma forma, condições de seca na 3ª fase, que compreende o período de setembro a dezembro do 2° ano fenológico, pode ocasionar em abortamento das flores, e em peneiras baixas.

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Figura 4. Florada em condições de seca e altas temperaturas (Foto: Vinicius Teixeira).

Figura 5. Flores do tipo “estrelinha” caracterizada pelo abortamento da florada, que é atribuído a altas temperaturas e períodos secos durante o abotoamento e floração.

Florada

A florada do café acontece geralmente entre os meses de setembro a novembro, em que após uma restrição hídrica, seguida por chuva ou irrigação abundante, acarreta em florada da cultura. 

No florescimento do cafeeiro, as gemas seriadas, localizadas nos nós dos ramos plagiotrópicos, são induzidas a gemas florais pelo estímulo da diminuição do comprimento do dia, e entram em dormência devido ao estresse hídrico que coincide com o estímulo de dias curtos. Quando a estação da seca termina e o balanço hídrico da planta volta as condições normais, essas gemas florais iniciam o processo de antese (SAKIYAMA et al., 2015).

Uniformidade da florada

A irregularidade na distribuição de chuvas, afetam a uniformidade do florescimento do café, implicando em maior número de floradas e com isso uma maturação desuniforme, tendo por consequência problemas logísticos de colheita e perda na qualidade do produto final.

Figura 6. Desuniformidade na maturação – Presença de flores e frutos na mesma planta. (Foto: Larissa Cocato).

Florada x produção da safra seguinte

Além da irregularidade na florada, há prejuízos na safra seguinte, uma vez que, em condições de seca, a interferência na capacidade de gerar novos ramos do cafeeiro e somente a partir desses ramos novos o café pode produzir no ano seguinte.

Fisiologia

Em relação a fisiologia, a fotossíntese das plantas é caracterizada pela captação da energia solar para oxidar a H2O (água), liberando O2 (oxigênio), e para reduzir CO2, produzindo compostos orgânicos, primeiramente açúcares.  Esta energia estocada nas moléculas orgânicas é utilizada nos processos celulares da planta e serve como fonte de energia.

Sob condições de altas temperaturas, e déficit hídrico, há o fechamento estomático, como estratégia para a planta reduzir a perda de água, e dessa forma, há redução da taxa fotossintética, uma vez que, não há a entrada de CO2, que é um produto da fotossíntese, afetando assim a produtividade das plantas.

Além disso, devido ao cafeeiro ser uma planta C3 (nome dado devido ao composto formado apresentar 3 carbonos), a faixa adequada de temperatura para se obter a máxima fotossíntese é inferior quando comparada a uma planta C4, como exemplo do milho. E também, as plantas com esse tipo de metabolismo (C3), apresentam maiores taxas de fotorrespiração, ou seja, processo que há a absorção de luz, associada a liberação de CO2. Esta estratégia, apesar de ruim, é necessária para a sobrevivência da planta.

Considerações

Portanto, em condições de altas temperaturas, como vem sendo observado nos últimos anos, associados ao déficit hídrico, há interferências na fisiologia da planta de café e em seu desenvolvimento vegetativo e reprodutivo. Por isso, estratégias que visem atenuar o efeito dessas condições desfavoráveis as plantas, tornam-se altamente desejáveis. Elas devem visar a proteção do solo, reduzir a perda de água por evaporação, também, condições que proporcionem maior desenvolvimento radicular em profundidade, com boas condições químicas e físicas desse solo em profundidade, pois, dessa forma, as plantas tendem a sentir menos as condições de seca e altas temperaturas.

Quer saber mais sobre as estratégias que podem ser utilizadas a fim de mitigar esses efeitos? Acesse nosso artigo: Estratégias para minimizar o efeito de déficit hídrico na cultura do café. É só clicar AQUI!

Referências: 

  • CAMARGO, Â. P. D.; M. B. P. D. CAMARGO. Definição e esquematização das fases fenológicas do cafeeiro arábica nas condições tropicais do Brasil. 2001. 
  • .RONCHI, C. P., et al. Respostas ecofisiológicas de cafeeiros submetidos ao deficit hídrico para concentração da florada no Cerrado de Minas Gerais. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.50, n.1, p.24-32. 2015. 
  • SAKIYAMA, N., et al. Café arábica do plantio a colheita. Viçosa: Ed. UFV, p.316. 2015. 

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