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Adaptação no confinamento: protocolos essenciais para máximo desempenho animal

Gado de corte em um confinamento

O sucesso de um confinamento se define nas primeiras semanas. Essa afirmação, compartilhada por técnicos e pecuaristas experientes, reflete uma realidade incontestável: a fase de adaptação no confinamento é o alicerce sobre o qual todo o desempenho zootécnico e econômico do sistema será construído.

Animais que passam por uma adaptação bem conduzida apresentam maior consumo de ração, melhor conversão alimentar, menor incidência de doenças metabólicas e, consequentemente, maior rentabilidade para o produtor.

Entretanto, essa etapa crítica ainda é negligenciada em muitas propriedades, seja por desconhecimento técnico, pressa em alcançar resultados ou subestimação dos riscos envolvidos. O resultado são perdas expressivas: animais que não se adaptam adequadamente podem apresentar ganhos de peso até 40% inferiores, taxas de morbidade elevadas e, em casos extremos, mortalidade significativa nos primeiros dias de confinamento.

O que é a adaptação no confinamento e por que é crítica?

A adaptação no confinamento é o período de transição durante o qual os animais, provenientes geralmente de sistemas a pasto, são gradualmente acostumados às condições do confinamento: nova dieta (alta em concentrados), novo ambiente, nova rotina e novo manejo social.

Mudanças que o animal enfrenta

Quando um bovino é transferido do pasto para o confinamento, ele vivencia transformações abruptas:

  • Nutricional: De uma dieta rica em fibras de baixa qualidade para alimentos concentrados e de alto valor energético;
  • Ambiental: Do espaço amplo ao curral limitado, do solo natural ao piso compactado;
  • Social: Formação de novos lotes, hierarquia social em disputa, competição por recursos;
  • Comportamental: Mudança na rotina de alimentação, restrição de movimento, aprendizado do cocho.

Consequências de uma má adaptação

Falhas no processo de adaptação resultam em:

  • Desenvolvimento de acidose ruminal aguda ou subaguda;
  • Timpanismo e distúrbios digestivos;
  • Imunossupressão e maior susceptibilidade a doenças respiratórias;
  • Mortalidade precoce (morte súbita);
  • Redução permanente no desempenho;
  • Aumento nos custos com medicamentos e tratamentos;
  • Comprometimento do bem-estar animal.

Por esses motivos, investir em protocolos de adaptação adequados não é despesa, mas sim economia preventiva e maximização de resultados.

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Fisiologia da adaptação: o que acontece com o animal?

Compreender as alterações fisiológicas durante a adaptação é fundamental para desenhar protocolos eficientes.

Adaptação ruminal: a transformação do rúmen

O rúmen é um ecossistema complexo habitado por bilhões de microrganismos (bactérias, protozoários, fungos) responsáveis pela digestão da fibra e produção de ácidos graxos voláteis (AGV).

No pasto, predominam microrganismos celulolíticos (digestores de fibra). No confinamento, com dietas ricas em amido, é necessário que populações amilolíticas (digestoras de amido) se estabeleçam.

As principais mudanças que ocorrem são: aumento da produção de ácido propiônico, redução do pH ruminal, desenvolvimento das papilas ruminais e aumento da capacidade absortiva do epitélio ruminal.

Esse processo não ocorre instantaneamente. São necessários de 14 a 21 dias para que o rúmen esteja completamente adaptado a dietas de alto concentrado.

Adaptação metabólica

O fígado e outros tecidos também precisam se adaptar ao maior aporte energético e à nova composição de nutrientes absorvidos. A capacidade de metabolizar propionato em glicose, por exemplo, aumenta progressivamente durante a adaptação.

Estresse e bem-estar animal

A mudança de ambiente, transporte, manejo e mistura de lotes gera estresse agudo nos animais. O cortisol elevado suprime o sistema imunológico, reduz o consumo alimentar e aumenta a susceptibilidade a doenças. Minimizar o estresse é, portanto, componente essencial do protocolo de adaptação.

Objetivos principais da fase de adaptação

Um protocolo de adaptação no confinamento bem estruturado deve alcançar quatro objetivos integrados:

1. Desenvolvimento da musculatura e superfície absortiva ruminal

As papilas do rúmen aumentam em tamanho e número quando expostas aos AGV produzidos na fermentação de concentrados. Esse desenvolvimento é crucial para a eficiência digestiva.

2. Estabilização da microbiota ruminal

Estabelecer populações microbianas adequadas para digerir dietas ricas em amido, mantendo pH ruminal estável e evitando distúrbios metabólicos.

3. Aceitação gradual da dieta final

Acostumar os animais ao sabor, textura e composição da ração de terminação, evitando recusas e garantindo consumo voluntário adequado.

4. Redução do estresse e habituação ao ambiente

Permitir que os animais se acostumem ao novo ambiente, rotina de manejo, competição no cocho e interações sociais.

Duração ideal do período de adaptação

A duração do período de adaptação varia conforme diversos fatores, mas protocolos entre 14 e 21 dias são os mais recomendados pela literatura científica e pela experiência prática.

Fatores que influenciam o tempo necessário

  • Origem dos animais: Animais direto do pasto exigem adaptação mais longa que animais de recria com suplementação.
  • Categoria: Novilhos jovens adaptam-se mais rapidamente que bois adultos.
  • Nível de concentrado da dieta final: Dietas com 80-85% de concentrado exigem adaptação mais cuidadosa.
  • Condição corporal: Animais muito magros podem ter resposta imunológica comprometida.
  • Genética: Animais Bos taurus geralmente são mais sensíveis a distúrbios metabólicos.

Protocolos mais utilizados

  • Protocolo de 7 dias: Indicado apenas para animais já habituados a suplementação concentrada. Apresenta maior risco de acidose.
  • Protocolo de 14 dias: Padrão na maioria dos confinamentos comerciais. Equilibra segurança e custo.
  • Protocolo de 21 dias: Recomendado para animais direto do pasto, dietas muito ricas em concentrado ou em períodos de estresse térmico intenso.

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Protocolo de adaptação no confinamento passo a passo

Um protocolo eficiente de adaptação no confinamento segue etapas sequenciais e bem definidas.

Etapa 1: Recepção dos animais

Imediato à chegada:

  • Oferecer água de qualidade à vontade imediatamente;
  • Fornecer feno ou volumoso de boa qualidade nas primeiras 24 horas;
  • Permitir descanso mínimo de 12-24 horas antes de manejos intensivos;
  • Realizar avaliação visual do lote (identificar animais problemáticos).

Nas primeiras 48-72 horas:

  • Executar protocolo sanitário (vacinas, vermífugos, antibióticos se necessário);
  • Realizar pesagem de entrada;
  • Aplicar identificação (brincos, bottons);
  • Evitar múltiplos estresses simultâneos.

Etapa 2: Dietas de transição

As dietas devem progredir gradualmente em concentração energética. Um protocolo clássico de 14 dias pode ser estruturado assim:

Exemplo de protocolo de 14 dias:

Protocolo prático para 14 dias de confinamento

Observações importantes:

  • Incrementos diários não devem superar 5-10% do concentrado total;
  • Manter volumoso de qualidade (feno, silagem, bagaço de cana) durante toda adaptação;
  • Ajustar conforme observação do comportamento e consumo do lote.

Etapa 3: Monitoramento diário

Durante toda a fase de adaptação, é essencial monitorar:

Consumo de ração:

  • Registrar sobras diariamente;
  • Calcular consumo de matéria seca (CMS);
  • Meta: atingir 2,0-2,5% do peso vivo em MS ao final da adaptação.

Comportamento no cocho:

  • Percentual de animais se alimentando em cada trato;
  • Sinais de competição excessiva;
  • Animais isolados ou apáticos.

Sinais clínicos:

  • Fezes líquidas (acidose);
  • Distensão abdominal (timpanismo);
  • Tosse e secreção nasal (pneumonia);
  • Animais deitados isoladamente.

Consumo de água:

  • Verificar se todos os bebedouros estão funcionando;
  • Observar formação de filas excessivas.

Etapa 4: Ajustes necessários

Baseado no monitoramento, realize ajustes:

  • Se consumo baixo: reduzir ritmo de incremento do concentrado;
  • Se muitas fezes líquidas: aumentar volumoso temporariamente;
  • Se timpanismo frequente: adicionar ionóforos ou reduzir grãos finamente moídos;
  • Se problemas respiratórios: intervir com protocolo sanitário de resgate.

Estratégias nutricionais na adaptação

A nutrição é o pilar central da adaptação no confinamento.

Incremento gradual de concentrado

O princípio fundamental é aumentar progressivamente a densidade energética da dieta, permitindo adaptação ruminal sem causar distúrbios. Incrementos muito rápidos são a principal causa de acidose.

Temos como boas práticas: nunca aumentar concentrado em mais de 10% da MS total de um dia para o outro, sendo que em animais muito sensíveis, esse incremento deve ser de 5%.

Proporção volumoso:concentrado

O volumoso na adaptação tem funções múltiplas:

  • Estimular ruminação e salivação (tamponamento natural do rúmen);
  • Reduzir velocidade de fermentação;
  • Fornecer fibra fisicamente efetiva;
  • Melhorar palatabilidade inicial.

Uso de aditivos

  • Ionóforos (monensina, lasalocida): reduzem a produção de lactato, melhoram eficiência energética e reduzem risco de acidose;
  • Probióticos e leveduras: auxiliam no estabelecimento da microbiota e estabilizam pH ruminal;
  • Tamponantes (bicarbonato de sódio, óxido de magnésio): neutralizam a acidez ruminal.

Qualidade dos ingredientes

É importante que os ingredientes sejam de boa qualidade. Grãos mofados causam micotoxicoses e imunossupressão, o processamento inadequado aumenta risco de acidose e a variação na composição da dieta gera instabilidade ruminal.

Manejo de cocho durante a adaptação

O cocho é o ponto de contato entre a estratégia nutricional e o animal. Seu manejo correto é determinante.

Frequência de fornecimento

  1. Uma vez ao dia: Economia de mão de obra, mas maior competição e consumo irregular.
  2. Duas vezes ao dia (recomendado): Reduz competição, estimula consumo, permite ajustes mais precisos.
  3. Três ou mais vezes: Ideal para adaptação de animais muito sensíveis, mas aumenta custos operacionais.

Quantidade de ração

Na adaptação, trabalhe com sobras de 3-5% do fornecido. Sobras excessivas indicam rejeição ou problemas. Falta de sobras pode indicar subnutrição ou competição excessiva.

Limpeza e higienização

Remova sobras diariamente, especialmente em períodos chuvosos ou de alta umidade. Alimentos deteriorados são focos de contaminação e recusa alimentar.

Espaço de cocho por animal

Mínimo recomendado:

  • 0,35 m/animal para confinamentos intensivos;
  • 0,40 m/animal para adaptação mais confortável.

Espaço insuficiente gera competição, dominância excessiva e animais subordinados com baixo consumo.

Manejo de água e conforto térmico

Água e conforto são fatores frequentemente subestimados, mas críticos para o sucesso da adaptação.

Disponibilidade e qualidade da água

  • Fornecer no mínimo 10-15 litros de água/100 kg de peso vivo/dia e uma quantidade maior em dias com temperaturas maiores que 30ºC;
  • Garantir 10-15 cm lineares de bebedouro por animal;
  • Água limpa, fresca e de qualidade microbiológica adequada;
  • Verificar funcionamento diário dos bebedouros.

Sombreamento e ventilação

Estresse térmico durante a adaptação agrava todos os problemas, pois reduz consumo alimentar drasticamente, aumenta frequência respiratória e temperatura corporal e compromete o sistema imunológico.

Temos como soluções: sombreamento natural ou artificial, ventilação adequada dos currais e aspersão de água em temperaturas acima de 30ºC.

Densidade de animais por curral

Evite superlotação durante a adaptação. Densidade excessiva aumenta competição, estresse e incidência de doenças respiratórias.

Recomendado:

  • 15-25 m²/animal em confinamentos de chão batido;
  • 10-15 m²/animal em instalações com piso de concreto.

Protocolos sanitários na entrada

A adaptação é o momento ideal para implementar protocolos sanitários preventivos.

Vacinações essenciais

Obrigatórias:

  • Febre aftosa (conforme calendário oficial);
  • Raiva (em áreas endêmicas);
  • Clostridioses (7 ou 8 vias).

Altamente recomendadas:

  • Vacinas respiratórias (IBR, BRSV, PI3, Mannheimia haemolytica);
  • Reforços após 21-30 dias (especialmente em animais jovens).

Vermifugação e controle de parasitas

  • Vermífugos de amplo espectro na entrada;
  • Controle de carrapatos, bernes e moscas;
  • Produtos pour-on ou injetáveis conforme necessidade.

Tratamentos preventivos

Em lotes de risco (animais magros, origem duvidosa, histórico sanitário desconhecido):

  • Antibióticos de longa ação (metafilaxia respiratória);
  • Vitaminas ADE;
  • Minerais injetáveis se deficiência conhecida.

Monitoramento e indicadores de sucesso

Como saber se a adaptação está sendo bem-sucedida? Monitore estes indicadores:

Consumo de matéria seca

Meta progressiva:

  • Dias 1-5: 1,0-1,5% do peso vivo;
  • Dias 6-10: 1,5-2,0% do peso vivo;
  • Dias 11-15: 2,0-2,5% do peso vivo;
  • Após adaptação: 2,5-3,0% do peso vivo.

Comportamento animal

Sinais positivos:

  • 70-80% dos animais se alimentando logo após o trato;
  • Ruminação ativa (animais deitados ruminando);
  • Consumo de água constante;
  • Interações sociais normais.

Sinais de alerta:

  • Animais apáticos, isolados;
  • Ausência de ruminação;
  • Fezes muito líquidas ou ausentes;
  • Distensão abdominal.

Taxa de morbidade e mortalidade

Metas aceitáveis:

  • Morbidade (animais doentes): < 5% do lote;
  • Mortalidade: < 0,5-1,0% durante adaptação.

Taxas superiores indicam falhas no protocolo ou lotes de alto risco.

Ganho de peso na adaptação

Embora não seja o objetivo principal, animais bem adaptados ganham peso desde o início:

  • Meta: 0,5-1,0 kg/dia durante adaptação;
  • Ganhos negativos ou nulos indicam problemas sérios.

Diferenças entre categorias animais

Nem todos os animais respondem igualmente aos protocolos de adaptação.

Novilhos jovens (18-24 meses)

Eles se adaptam mais rapidamente e possuem maior capacidade de ganho compensatório, porém são mais suscetíveis a doenças respiratórias e requerem atenção especial ao protocolo sanitário.

Bois adultos (acima de 30 meses)

Possuem uma adaptação mais lenta, maior resistência a distúrbios metabólicos e um menor ganho de peso potencial.

Fêmeas de descarte

Elas têm um menor consumo relativo, maior deposição de gordura, necessitam de um cuidado com excesso de concentrado e apresentam sensibilidade a estresse social.

Bos indicus vs Bos taurus

  • Zebuínos (Nelore, Guzerá): mais rústicos, toleram melhor estresse térmico, adaptação geralmente mais tranquila;
  • Taurinos (Angus, Hereford): mais sensíveis a distúrbios metabólicos e estresse térmico, requerem protocolos mais cuidadosos.

Conclusão

A adaptação no confinamento é, sem dúvida, a fase mais crítica e determinante de todo o processo de terminação de bovinos em confinamento. Um protocolo bem executado, que respeita a fisiologia animal, implementa transição nutricional gradual, garante conforto e bem-estar, e realiza monitoramento constante, é a diferença entre o sucesso e o fracasso econômico do sistema.

Lembre-se: animais que iniciam o confinamento de forma adequada mantêm desempenho superior durante todo o período, apresentam menor incidência de problemas sanitários e geram maior rentabilidade. Economizar na adaptação é, invariavelmente, perder dinheiro na terminação.

Invista tempo, conhecimento e recursos na fase de adaptação. Os resultados aparecerão no ganho de peso, na saúde do rebanho e, principalmente, no resultado financeiro do seu confinamento. A adaptação bem-feita é o primeiro passo para a excelência em terminação de bovinos.

Tenha sucesso na fase de adaptação no confinamento

Aumentar a produtividade na pecuária de corte não significa investir mais, mas sim investir melhor. Com boas práticas de manejo de pastagens e nutrição planejada, é possível acelerar o ganho de peso, reduzir o tempo de abate e melhorar a eficiência da fazenda.

O Curso Gestão da Nutrição e Pastagens na Pecuária de Corte foi feito para pecuaristas que querem aplicar técnicas modernas e ver resultados concretos no rebanho e no bolso.

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