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Guia prático do consórcio da braquiária na entrelinha do cafeeiro

Por muito tempo se acreditou que o cafeeiro deveria ser mantido no limpo, ou seja, com o solo exposto, sem nenhuma planta e/ou cobertura. Esse manejo acarretava em aquecimento excessivo da superfície do solo, evaporação da água do solo mais rápido, impacto direto da água da chuva no solo e além disso, podendo acarretar em erosão do solo.

No entanto, atualmente muitos produtores já realizam o manejo do mato na entrelinha do cafeeiro, esse consorcio consiste no cultivo braquiária na entrelinha do cafeeiro, respeitando uma distância de um metro de cada lado da linha, a fim de não haver competição com o cafeeiro. Após o corte da braquiária, seu resíduo é colocado na linha do cafeeiro, trazendo muitos benefícios.

Benefícios

braquiária na entrelinha

Palhada da braquiária na linha de plantio (Foto: Diego Baquião)

Muitos são os benefícios proporcionados por esse consórcio, isso porque, o resíduo da braquiária mantido na linha do cafeeiro atua na supressão de plantas daninhas, protege o solo contra o impacto direto de gotas de chuva sobre a superfície do solo, protege o solo do superaquecimento do solo, que pode ser prejudicial as raízes. Também, essa palhada atua na manutenção da umidade do solo, reduzindo a evaporação de água do solo, é fonte de nutrientes para o cafeeiro e aumenta o teor de matéria orgânica no solo.

A braquiária na entrelinha do cafeeiro atua diminuindo o risco de erosões do solo, seu sistema radicular ajuda na estruturação do solo, devido a decomposição de parte das raízes que ocorre após a ceifa dessa gramínea. Outro aspecto importante, é a redução no uso de herbicidas no cafeeiro, isso porque, a sua utilização é feita somente na linha do cafeeiro, uma vez que a entrelinha é manejada com roçadas.

Além disso, em lavouras novas, esse consórcio atua como quebra vento, evitando problemas de tombamento de mudas, que é comum em áreas sujeitas a ventos fortes.

Escolha da espécie

Para a escolha da cultivar a ser plantada, deve-se observar algumas características, pois cada cultivar possui sua particularidade. A brachiaria brizantha (Urochloa brizantha) ou braquiarão, apresenta crescimento entouceirado, dessa forma não cobrindo totalmente o terreno. Por isso, essa espécie não é recomendada para esse fim, visto que o terreno ficará exposto, não atendendo nosso objetivo de cobrir o solo.

braquiária na entrelinha

(Urochloa brizantha) (Foto: Diego Baquião)

A brachiaria decumbens (Urochloa decumbens) ou braquiarinha, é uma cultivar rústica, apresentando boa tolerância ao sombreamento. Essa braquiária forma touceiras menores, o que proporciona maior cobertura da entrelinha do cafeeiro quando comparada a U. brizantha. Essa espécie é uma boa opção para o manejo do cafeeiro com a brachiaria, podendo ser usada com êxito.

braquiária na entrelinha

(Urochloa decumbens) (Foto: Larissa Cocato)

A brachiaria ruziziensis (Urochloa ruziziensis) não apresenta tamanha rusticidade quando comparada com a U. decumbens, dessa forma sua formação na área é mais demorada. No entanto, ela possui grandes vantagens, por entouceirar menos que as outras espécies citadas, ela cobre mais o terreno, demora mais para produzir sementes, se mantendo por mais tempo no período vegetativo e produzindo maior quantidade de massa por hectare. Portanto, essa espécie é uma ótima opção para ser utilizada no manejo com a cultura do café.

braquiária na entrelinha

(Urochloa ruziziensis)(Foto: Diego Baquião)

Como implantar a braquiária

Após a escolha da espécie de braquiária a ser colocada na área, é recomendado realizar o plantio com antecedência, deixando a braquiária já formada, e após isso realizar o plantio do café. No entanto, normalmente as lavouras são arrancadas em julho/agosto e o novo plantio já será realizado em novembro. Neste caso, deve-se optar por semear a braquiária o quanto antes possível, podendo ser realizado o semeio após a abertura do sulco, ou antes da abertura, sendo este último preferido por alguns técnicos.

Para a implantação da braquiária, deve-se aplicar herbicida em área total, após 10 dias realizar o plantio com plantadoras próprias, ou pode ser feito a lanço com adubadoras, onde deve-se utilizar um sistema de rolo ou alguma adaptação que consiga cobrir as sementes na área, pois se não estiverem cobertas as sementes não irão germinar.

braquiária na entrelinha

Germinação da braquiária semeada (Foto: Daniel Veiga)

A quantidade de semente a ser utilizada irá depender da porcentagem de germinação das sementes e se elas são peletizadas ou não, sendo utilizado em torno de 10 a 20 kgs de sementes por hectare, podendo ser a braquiária decumbens (Urochloa decumbens) ou a braquiária ruziziensis (Urochloa ruziziensis).

Como manejar a braquiária

Figura 6. Braquiária recém roçada na entrelinha do cafeeiro (Foto: Larissa Cocato)

Para o manejo da braquiária, emprega-se duas práticas: uma no período chuvoso (outubro a março) e outra no período seco (abril a setembro). No período chuvoso, em lavouras de plantio, 1ª e 2ª safra e recepa, realiza-se roçadas alternadas nas ruas. Já em lavouras a partir da 3ª safra, pode-se roçar todas as ruas, e em ambos os casos, sempre que possível, é bom direcionar o mato para a projeção da saia do cafeeiro com o intuito de manter a umidade e fornecer nutrientes. 

Nas fotos abaixo temos uma lavoura da cultivar Catuaí 62, com espaçamento 3,70 m 0,50 m, de 7 meses de idade, apresentando o manejo com linhas alternadas utilizando a braquiária Ruziziensis (Urochloa ruziziensis). (Figuras 7 e 8).

Figura 7. Manejo de lavoura nova com linhas alternadas utilizando a braquiária Ruziziensis (Urochloa ruziziensis). (Foto: Diego Baquião)

Figura 8. Manejo de lavoura nova com linhas alternadas utilizando a braquiária Ruziziensis (Urochloa ruziziensis). (Foto: Diego Baquião)

Já no período seco, realiza-se o controle em todas as ruas sem alternar, pois facilita na condução da arruação, salientando que o controle dessa gramínea na entrelinha é feito apenas através de roçadas, sem a utilização de herbicidas.

Na linha do cafeeiro, utiliza-se herbicidas para o controle de plantas invasoras a fim de não exercer competição. É importante destacar, que se deve respeitar uma faixa de controle de 100 cm de cada lado da linha do cafeeiro, de acordo com o estudo de Souza et al. (2006). Isso porque, estudos mostram a interferência negativa no crescimento das plantas quando há aumento na densidade de plantas da espécie braquiária decumbens, acarretando em redução da área foliar (DIAS et al., 2004).

Figura 9. Cafeeiro com braquiária na entrelinha respeitando a distância de 100 cm para que não ocorra competição. (Foto: Diego Baquião)

Estudos

Muitos estudos mostram os benefícios proporcionados ao solo e até mesmo as plantas de café, quando manejado adequadamente a braquiária. De acordo com Silva (2019) o manejo da braquiária na entrelinha do cafeeiro acarretou em maior vigor do cafeeiro tanto na época seca quando na época chuvosa, se comparado ao manejo com o solo exposto e a utilização do filme plástico de polietileno utilizado na linha do cafeeiro.

Há relatos de efeitos alelopáticos na cultura do café com a utilização dessa gramínea, no entanto, não foi comprovado cientificamente esse tipo de efeito sobre a cultura do café (RAGASSI et al., 2013).

Portanto, o consórcio da braquiária na entrelinha do cafeeiro se mostra um excelente manejo, com diversos benefícios.

Referências:

  • DIAS, G. F. D. S., ALVES, P. L. D. C. A., & DIAS, T. C. D. S. Brachiaria decumbens supresses the initial growth of Coffea arabica. Scientia Agricola, Sci. Agric. (Piracicaba, Braz.), v.61, n.6, p.579-583, Nov./Dec. 2004. (Link)
  • RAGASSI, C. F., PEDROSA, A. W., & FAVARIN, J. L. Aspectos positivos e riscos no consórcio cafeeiro e braquiária. Visão Agrícola, n.12, p. 29-32. 2013. (Link)
  • SILVA, L. C. da. Monitoramento do vigor de cafeeiros submetidos a estratégias de manejo para atenuar os efeitos da escassez hídrica. 2019. 82 p. Dissertação (Mestrado em Agronomia/Fitotecnia) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, 2019. (Link)
  • SOUZA, L. S., LOSSASSO, P. H. L., OSHIIWA, M., GARCIA, R. R., & GOES FILHO, L. A. Efeitos das faixas de controle do capim-braquiária (Brachiaria decumbens) no desenvolvimento inicial e na produtividade do cafeeiro (Coffea arabica). Planta Daninha, Viçosa-MG, v. 24, n. 4, p. 715-720, 2006. (Link)

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