O setor leiteiro vem enfrentando grandes desafios desde o segundo semestre de 2025. Nesse período, o preço médio do leite ao produtor acumulou uma queda de 20% em apenas um ano, chegando a R$ 2,11 por litro em dezembro de 2025. Essa foi a oitava baixa consecutiva nas cotações, e as projeções indicam que esse movimento de queda deve se estender, pelo menos, até o segundo bimestre de 2026.
Enquanto os preços recuam, os custos de produção seguem em trajetória oposta. Em 2025, os custos operacionais das fazendas leiteiras aumentaram 12,5%, pressionados principalmente pelos preços do milho, do farelo de soja, da energia elétrica, da mão de obra e da logística.
Para agravar ainda mais o cenário, o mercado interno permanece fortemente abastecido por importações, que somaram 2,2 bilhões de litros equivalentes até dezembro de 2025, ao mesmo tempo em que as exportações caíram 23,4% no mesmo período.
Do lado da oferta, a produção de leite também apresentou crescimento expressivo. No terceiro trimestre de 2025, houve um aumento de 10,3% na produção, sustentado por investimentos realizados ao longo de 2024 e por condições climáticas favoráveis. Esse excesso de oferta contribui diretamente para a manutenção da pressão sobre os preços pagos ao produtor.
Prioridades das fazendas em momentos de crise
Em momentos como este, acreditamos que todas as fazendas devem ter três grandes prioridades:
- Os seus colaboradores;
- As vendas;
- A saúde financeira da empresa.
Nosso foco neste material é tratar do terceiro item: a saúde financeira do projeto leiteiro.
Como princípio básico, devemos nos lembrar que a vida de uma empresa depende diretamente do caixa. Portanto, neste momento, mais do que nunca, o fluxo de caixa deve ser o centro das atenções.
Cabe ressaltar que as empresas que estarão mais sujeitas aos impactos desta crise são aquelas que já estão com um caixa apertado (reduzido), têm uma estrutura fixa alta, estão com alto grau de endividamento e/ou estão em um alto ciclo de investimentos.
Para apoiar você, produtor de leite ou consultor, gostaríamos de compartilhar algumas reflexões para momentos de crise em forma de dicas práticas, que permitirão a análise de várias ações que precisam ser observadas neste momento.
Na crise, o objetivo é a empresa sobreviver. Lucros e retorno sobre capital investido devem ficar em segundo plano. O foco não deve ser maximizar lucro, mas sim maximizar caixa (dinheiro disponível).
Caixa é oxigênio! Mantém a empresa viva.
Neste momento de crise, as empresas se encontram em diversas situações financeiras, de forma que as reflexões a seguir se aplicam a todas as empresas de maneira distinta.
Dicas práticas para manutenção do caixa
Reavaliar investimentos
1. Em casos onde a empresa está com caixa, investir apenas no que for estritamente necessário para a condução do negócio nos próximos meses. Exemplo: adiar ampliação da ordenha e trabalhar com turnos mais longos ou com funcionário a mais nos próximos meses.
2. Em casos onde a empresa está com dificuldades de caixa, avaliar a parada ou prorrogação de investimentos.

Estruturar caixa mínimo para o período de crise
3. Buscar empréstimos para aumentar o caixa, mesmo que tenha hoje dinheiro em caixa, ainda que os juros sejam mais altos que o rendimento da aplicação. É o preço da segurança.
Contudo, é importante fazer uma ressalva: com a taxa Selic elevada e o crédito mais restrito, essa estratégia exige cautela redobrada e muita conta na ponta do lápis para garantir que o custo financeiro não asfixie a operação.
Buscar mais de um banco é fundamental, pois a concorrência ajuda e ter opção é estratégico.
Focar em empréstimos de longo prazo, negociando carência, mesmo que com juros um pouco maiores. Muito cuidado com prazo de vencimento: custo alto “aleija”, prazo errado “mata” a empresa.
4. Estudar a possibilidade de reduzir o valor do pró-labore momentaneamente ou até mesmo avaliar aporte dos sócios no negócio.
Focar na atividade operacional e ajustar estrutura de custos
5. Avaliar o “contas a pagar” e verificar se é possível adiar ou renegociar compromissos, tanto ligados às compras quanto aos financiamentos, priorizando os de maior valor.
6. Ao fazer novas compras, negociar prazos de vencimento maiores, mesmo que com algum custo adicional (usar bom senso), e também renegociar preços de compra. Pedir descontos e atentar ao preço dos insumos, gastando tempo no planejamento da demanda e na pesquisa de fornecedores.
7. Gastar apenas o essencial. Focar na redução de despesas não operacionais, pois estas têm menor impacto na produção. Cortar insumos como alimentação, medicamentos e BST sem critério reduz receita e piora o resultado.
8. Estudar a possibilidade de interromper pagamento de bonificações, promoções de cargo e reajustes salariais previstos.
9. Avaliar substituição de insumos, mesmo que haja perda de produtividade, desde que se garanta margem bruta.
Exemplo: substituir farelo de soja e milho por subprodutos como cevada, DDG ou polpa cítrica. O leite pode cair um pouco, mas o custo alimentar pode cair muito (ou deixar de subir).

Melhorar a gestão da necessidade de caixa
10. Demissões devem ser estudadas com muito cuidado, pois consomem caixa no curto prazo devido aos acertos e podem gerar perdas de eficiência. Ainda assim, em alguns casos, podem valer a pena. É necessário fazer conta.
11. Caso a fazenda venda outros produtos além do leite, monitorar a inadimplência e negociar descontos para garantir recebimento, como na venda de gado comercial ou de genética.
12. Estudar a possibilidade de vender máquinas e equipamentos parados, mesmo que por valor abaixo do normal.
13. Avaliar a venda de parte da recria sem afetar a reposição das vacas. Em muitos casos, é possível apenas reduzir a velocidade de crescimento do rebanho sem diminuir o número de vacas em lactação. Para isso, é essencial conhecer a evolução do rebanho, projetando animais por categoria nos próximos meses e anos.
14. Trabalhar fortemente no planejamento de caixa: evolução do rebanho, previsão de receitas, gastos e saldo bancário.
15. Atualizar diariamente as contas a pagar e a receber, enxergar as próximas semanas e tomar decisões. Com base no caixa, criar cenários:
- E se a receita cair 20%?
- E se os insumos subirem 10%?
- Avaliar os impactos nos saldos futuros.
16. Redobrar a atenção aos animais menos produtivos e rever regras de descarte.

Reavaliar a dívida da empresa
17. Evitar contas garantidas, como cheque especial. Além das altas taxas, elas consomem rapidamente o caixa restante da fazenda.
18. Caso a decisão seja renegociar dívidas, considerar carências e alongamentos de prazo. Iniciar negociações com bancos onde a empresa já tem relacionamento e linhas disponíveis, e depois buscar bancos oficiais com possíveis incentivos governamentais.
19. Buscar apoio de pessoas mais experientes e de consultorias técnicas e de gestão financeira.

Planejar o futuro
20. Oportunidades
É importante lembrar que a crise vai passar. Ela é temporária. Será necessário estar preparado para a retomada. Quem estiver mais forte ao final da crise aproveitará melhor as oportunidades que surgirão.
Nós do Rehagro estamos à disposição para ajudá-lo no que for necessário.
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