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Conheça os principais pontos para uma silagem de milho de qualidade

Considerações iniciais

Nos sistemas de produção de leite é reconhecida a relevância dos custos com a alimentação das vacas, geralmente ultrapassando 50% do custo total de produção. Sendo assim, é de suma importância realizar o manejo alimentar adequado e oferecer alimentos de qualidade para maior desempenho dos animais. Dos alimentos que compõem a alimentação de uma vaca leiteira, um dos principais é a silagem de milho. Entretanto, fazer uma silagem de milho de boa qualidade não é tarefa simples, sendo necessário muito estudo, planejamento e gerenciamento.

Uma silagem de boa qualidade possui grande impacto nos custos e no desempenho dos animais. Como exemplo, ela diminui a necessidade de grandes suplementações com concentrados energéticos e fornece fibra fisicamente efetiva capaz de estimular a ruminação e a saúde do rúmen. Vale ressaltar que a produção de uma silagem de boa qualidade começa muito antes do plantio da semente, dependendo também do manejo de fertilidade do solo, local e época para a realização do plantio, escolha do híbrido adequado e preparo e ajuste do maquinário necessário. Desta forma, é fundamental realizar uma análise do solo para conhecer a fertilidade, o perfil do solo, determinar a necessidade de corretivos e adubações da área a ser plantada visando máxima produtividade. A época de plantio varia conforme as características edafoclimáticas de cada região, devendo sempre buscar o melhor período para garantir o estabelecimento da lavoura da forma mais uniforme e adequada.

A escolha da semente deve ser pautada em avaliações técnicas, como a adaptação do híbrido ao clima, altitude e pluviosidade da região, características de sanidade da planta, adequação ao perfil do solo, produção de grãos e de matéria verde, tipo de grão e risco de tombamento da planta. Além disso, o valor estimado em kg de leite produzido/tonelada de matéria seca (MS) representa um importante parâmetro a ser considerado, sendo um indicador que avalia aspectos de qualidade do híbrido, devido considerar também a digestibilidade dos componentes (fibra, amido etc).

Maquinário utilizado

Após a escolha da época, solo e híbrido, recomenda-se que seja feita a manutenção preventiva do maquinário que será utilizado de modo a evitar que as atividades da lavoura sejam interrompidas por problemas mecânicos. A escolha do maquinário é influenciada pelo tamanho da área a ser plantada, da capacidade dos tratores e do espaçamento adotado. Atualmente existem as opções no mercado de máquinas colhedoras tracionadas nos tratores e máquinas autopropelidas, sendo que cada uma proporciona diferentes possibilidades e estratégias de corte que devem ser observadas.

Uma das características das máquinas autopropelidas (automotriz) é o seu maior rendimento de serviço, ou seja, mais hectares colhidos por hora. Outra vantagem das colhedoras autopropelidas consiste no processamento dos grãos de forma eficiente, mantendo o tamanho de partícula adequado. Vale ressaltar que a obtenção de uma silagem com fibra longa e alta disponibilidade de amido possibilita uma maior independência da utilização de concentrados na alimentação.

silagem de milho

Automotriz – Fonte: Rehagro Consultoria

No entanto, existem algumas limitações operacionais para utilização das máquinas autopropelidas em determinados perfis de propriedades. Dentre as limitações operacionais temos dependência da disponibilidade de colhedoras na época necessária, inviabilidade na colheita de áreas pequenas, necessidade de topografia pouco acidentada, capacidade de fluxo de máquinas na fazenda, capacidade de descarga e compactação da massa ensilada, e outras.

Algumas máquinas autopropelidas quando trabalhadas em uma topográfica pouco acidentada, por exemplo, são capazes de colher até 2 hectares de lavoura de milho por hora, pois isso a necessidade de ajustar a capacidade de descarga e compactação do material colhido. Silagens bem processadas podem reduzir custos, aumentar produção e sólidos do leite, promover a saúde de vacas leiteiras e contribuir para maior competitividade de fazendas produtoras de leite com outros setores do agronegócio. Para cada situação existe um tipo adequado de colheita e de maquinário, sendo que o importante é conciliar bom rendimento, bom processamento e baixo custo da operação.

Colheita

Após o plantio e condução agronômica durante o período de crescimento da planta (veja mais sobre o assunto neste texto – https://rehagro.com.br/blog/milho-para-silagem/), chega o momento da colheita. Caso ultrapasse o período ideal de colheita, a planta de milho acumula MS, reduz o teor de fibra em detergente neutro (FDN), aumenta os teores de lignina e tem a sua digestibilidade reduzida. Veja na imagem a seguir onde há representada a relação do estágio de maturidade do milho com os teores de MS, amido e FDN.

Relação do estágio de maturidade do milho com os teores de matéria seca (MS), amido e fibra em detergente neutro (FDN) Adaptado de Bal et al., 1997.

Nos estágios iniciais de desenvolvimento a planta de milho possui os grãos pouco preenchidos por amido. Já no estágio de maturidade fisiológica o teor de MS encontra-se elevado e a planta aumenta o teor de lignina em suas estruturas, fato que reduz sua digestibilidade por parte das vacas. Vale ressaltar que a relação dos teores de amido,
matéria seca e FDN podem variar em função do híbrido de milho utilizado.

Assim sendo, o ponto ideal para a colheita do milho é quando a planta atingir entre 34 e 38% de MS e entre 1/2 e 2/3 do grão preenchido por amido. Neste ponto o milho apresenta o maior acúmulo de amido e o menor teor de fibra. Entretanto, este método tende a variar de acordo com o híbrido escolhido. Uma alternativa prática para estimar o teor de MS da planta de milho e determinar a época de colheita é a através do uso de um forno micro-ondas. Para isso é necessário um forno micro-ondas, uma balança, um prato de vidro, um copo d’água (~250 ml) e cinco plantas da lavoura bem picadas ou trituradas. A metodologia consiste em pesar o prato, anotar o seu valor e colocar cerca de 300 gramas de amostra da planta picada no prato, alojando-o no interior do forno micro-ondas junto com o copo d’água para evitar o superaquecimento da amostra. Programa o micro-ondas para uma primeira rodada de 5 minutos na potência de 100%. Após 5 minutos, retirar o prato, pesar novamente e anotar o valor.

Revirar o material do prato tomando o cuidado para não perder nada da amostra e renovar o copo d’água. Ajustar o tempo para mais 3 minutos na mesma potência. Retirar, pesar, anotar novamente, revirar o material e renovar o copo d’água. Continuar com intervalos de 1 minuto de secagem, sempre revirando a amostra até que o peso seja constante por 3 rodadas consecutivas. Ao final, descontar o peso da amostra seca do peso da amostra úmida, dividir pelo peso da amostra úmida e multiplicar por 100. O resultado é o teor de umidade, que, quando subtraído de 100 obtém-se a MS.

Grão com mais de ¾ da linha do leite – Passou do ponto de colheita – Fonte: Rehagro Consultoria

Linha do leite na ½ – Ponto de colheita correto – Fonte: Rehagro Consultoria

Outro ponto a ser observado é o processamento da planta do milho que deve ser escolhida após uma análise técnico-econômica. A colheita deve ser feita por uma máquina que permita o processamento dos grãos de milho de modo a expor o amido, corte a planta em tamanho adequado para compactação do material, produza fibra em tamanho capaz de estimular a ruminação das vacas e que reduza a seleção do material no momento do consumo pelos animais.

Durante a colheita deve-se monitorar o processamento do milho de forma a analisar se a quebra dos grãos está sendo eficaz ou não. Um bom processamento da silagem pode determinar o sucesso da propriedade leiteira ao longo do ano. Portanto, devemos saber quais são os parâmetros que podem ser utilizados para analisar se o processamento da silagem está adequado. Os principais são o tamanho de partícula das folhas e a relação entre grãos inteiros e grãos danificados. Conforme já mencionado anteriormente, o ideal é que o tamanho das partículas seja capaz de estimular a ruminação e que todos os grãos estejam danificados.

Um dos métodos de monitoramento mais simples de ser feito para avaliar o processamento dos grãos da silagem é o teste do balde. Os materiais necessários para realizar este teste são um balde, água e amostra da silagem processada. A silagem processada deve ser colocada no balde até a sua metade, completando o restante com água e mexendo todo o material. A parte vegetativa da planta, por ser menos densa, tende a permanecer na superfície, enquanto os grãos, por serem mais densos, afundam na água.

Após os grãos decantarem e as folhas estarem sob a superfície, retira-se toda a água juntamente ao material vegetativo de modo a deixar no balde somente os grãos. Após a decantação, avaliar visualmente o grau de processamento dos grãos. A presença de muitos grãos inteiros é indica um processamento inadequado. Se não há muitos grãos inteiros, mas a maioria dos grãos está apenas cortado ou quebrado, então o processamento está razoável. Já o processamento adequado é obtido quando o material não apresenta grãos inteiros ou parcialmente quebrados.

silagem de milho

Foto 1: Teste do balde – Fonte: Rehagro Consultoria

Foto 2: Grãos de milho decantados no fundo do balde – Fonte: Rehagro Consultoria

silagem de milho

Foto 3: Poucos grãos íntegros – Eficiência no processamento do grão – Fonte: Rehagro Consultoria

Foto 4: Muitos grãos íntegros – Falha no processamento do grão – Fonte: Rehagro Consultoria

Outra análise importante de ser realizada no material a ser ensilado é a avaliação de fibra efetiva, à qual é feita por meio da peneira de Penn State. Esta ferramenta é composta por três peneiras mais um recipiente de fundo e possui a função de separar as partículas do alimento, nesse caso a silagem, em tamanhos pré-determinados (> 19 mm,
8 – 19 mm, 4 – 8 mm e < 4 mm). Sua utilização é essencial, pois uma das principais funções da fibra efetiva dos alimentos é a de estimular a ruminação e promover a saúde ruminal.

A metodologia de uso da peneira de Penn State consiste em, incialmente, colocar uma amostra de aproximadamente 200 gramas de silagem sobre a primeira peneira (19 mm). Logo após, em uma superfície plana, realizar 5 movimentos horizontais com todo o jogo de peneiras em uma direção, repetindo este processo em todos os lados por duas vezes, totalizando 40 movimentos. Ao final, pesar o conteúdo retido do alimento em cada peneira e calcular de forma proporcional em relação à amostra total pesada inicialmente (~ 200 gramas). A proporção de alimento retido em cada peneira encontra-se na tabela a seguir:

Peneira de Penn State e exemplo de separação das partículas do alimento – Fonte: Rehagro Consultoria

Ensilagem

Após a colheita do milho, é necessário realizar a ensilagem deste material. A ensilagem deve ser feita em silo previamente dimensionado, estando a dimensão relacionada com a capacidade de compactação do material a ser ensilado e, principalmente, com a necessidade diária de descarga do material ensilado. No momento de enchimento e compactação, deve-se ter atenção à camada de silo a ser compactada, onde ela deve ser homogênea e com 5 a 20 centímetros de espessura. As camadas devem ser espalhadas de forma a ficarem inclinadas em direção à entrada do silo. Quanto mais compactado, maior a redução de oxigênio e da temperatura, favorecendo o desenvolvimento de bactérias produtoras de ácido lático para redução rápida do pH e evitando perdas quantitativas e nutricionais do material ensilado. Para alcançar uma compactação adequada, recomenda-se a utilização de máquinas com o peso superior a Peneira de Penn State e exemplo de separação das partículas do alimento 40% da quantidade total de silo que chega por hora para ser compactada. Deve-se ter atenção durante a compactação, principalmente em períodos chuvosos, para que não haja contaminação excessiva do material ensilado por terra, alterando assim a sua composição microbiológica.

silagem de milho

Foto 1: Compactação de silo com pá-carregadeira – Fonte: Rehagro Consultoria

Foto 2: Compactação de silo com trator – Fonte: Rehagro Consultoria

A vedação do material ensilado é de extrema importância para garantir a qualidade e evitar composição microbiológica inadequada do produto, além de ser um procedimento de baixo impacto nos custos totais da silagem. O ideal é que a vedação da silagem seja feita com lona resistente a danos externos (animais, efeitos meteorológicos, etc.) e haja como barreira ao oxigênio. Vale ressaltar que a utilização de filmes com barreira ao oxigênio reduz as perdas do silo de forma significativa, além de auxiliar na manutenção da qualidade da silagem em toda a extensão do silo. Esse filme deve ter uma lona convencional ou uma rede de proteção física, pois ele não possui tratamento contra raios UV, mas possui alta barreira ao oxigênio, permitindo uma excelente vedação.

Deve-se considerar também a retirada do máximo possível de ar presente entre a lona e a superfície do material ensilado para promover a boa fermentação. Além disso, é benéfico promover adequado peso sobre a lona através da colocação de terra, pneus, resíduos etc., para maximizar a vedação e reduzir perdas do topo da silagem. A vedação total deve ser mantida por no mínimo 21 a 30 dias, período em que ocorrerá a fermentação, redução do pH e estabilização da silagem. No entanto, com 21 a 30 dias de vedação o amido da silagem de milho não está com sua máxima digestibilidade, fato que tende a ocorrer quando a silagem está vedada por aproximadamente 4 a 6 meses.

silagem de milho

Vedação de silo – Fonte: Rehagro Consultoria

Remoção da silagem

A remoção de porções de silagem consiste em uma fase crítica do processo, visto que o material ensilado vedado será exposto ao oxigênio. Para a remoção da silagem, trabalhos tem mostrado como ideais a meta acima de 250 kg/m²/ dia. Por isso é de suma importância o dimensionamento do silo, levando em conta a compactação da silagem de milho e a quantidade de silagem utilizada por dia na fazenda. Todas essas práticas auxiliam na redução da exposição da silagem ao aquecimento, nas perdas associadas e na proliferação de microorganismos indesejados.

silagem de milho

Painel frontal de silo de milho – Fonte: Rehagro Consultoria

Remoção de silagem através de fresa – Fonte: Rehagro Consultoria

Amostragem e bromatologia da silagem

Por mais homogênea que possa ser, toda silagem de milho apresentará variações em sua composição após a abertura. Por isso, é fundamental a coleta de amostras do silo para análise bromatológica. A contemplação dos valores nutricionais e de matéria seca (MS) são essenciais para o entendimento da qualidade da silagem de milho e para o balanceamento adequado de dietas para todas as categorias animais.

Para realizar a amostragem, o recomendado é que uma faixa de silagem seja removida do topo até a base do silo, em toda sua largura. Desta silagem removida, coletar 8 ou mais amostras em pontos aleatórios, colocando-as em um balde. Despejar as amostras em uma superfície limpa, separá-las em 4 partes iguais e enviar uma das partes
para o laboratório.

A tabela a seguir apresenta alguns dos valores que são recomendados para uma silagem de boa qualidade:

Outros parâmetros como fibra em detergente ácido (FDA) e proteína ligada ao FDA (PIDA – % MS) ainda não possuem valores definidos, no entanto o recomendado é remoção de silagem através de fresa que sejam os menores possíveis, visto se tratar de componentes de baixa degradabilidade.

Parâmetros como proteína solúvel (PS – % PB) e amônia (NH3-N %PB) também ainda não possuem valores definidos, mas, por outro lado, diferentemente de FDA e PIDA, o recomendado é que apresentem os maiores valores possíveis, pois estão correlacionados diretamente com a digestibilidade do amido. Ou seja, quanto maior forem os valores de proteína solúvel e amônia de uma silagem, maior será a digestibilidade do amido e melhor será o aproveitamento pelos animais. Vale ressaltar que o tempo de ensilagem contribui para elevação de proteína solúvel e amônia, sendo que o esperado é que silagens com maior tempo de vedação apresentem maiores valores desses componentes quando comparadas a silagem de milho de menor tempo de vedação.

Referências

  • BAL, M. A., COORS, J. G., SHAVER, R. D. Impact of the maturity of corn for use as silage in the diets of dairy cows on intake, digestion, and milk production. Journal of Dairy Science, v. 80, p. 2497-2503, 1997. (Link)
  • BARBOSA, Eugenio Faria; JUNIOR, Gilson Sebastião Dias; SALVATI, Gustavo. Silagem de milho colhida com colhedoras de forragem autopropelidas. Milk Point, 18/04/2019. (Link)
  • BERNARDES, T. F., CARDOSO, M. S., LIMA, L. M. Silage feeding programs on intensive dairy farms. Journal of Dairy Science, vol. 101, suppl. 2, p. 257, 2018.
  • DIAS, F.N. Avaliação de parâmetros agronômicos e nutricionais em híbridos de milho (Zea mays L.) para silagem. 2002. 96p. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, Piracicaba, SP.
  • HEINRICHS J & JONES CM. 2013. The Penn State Particle Separator. DSE 2013– 186. Disponível em: https://extension.psu.edu/penn-state-particle-separator.
  • UNDERSANDER, Dan. Milk 2006. Agronomy, University of Wisconsin. 2013.

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