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Alimentação e exigência nutricional de bezerras em aleitamento

Criar bezerras em aleitamento saudáveis, que garantam uma boa reposição do rebanho, começa já no pré-parto, oferecendo às vacas conforto, nutrição adequada, um excelente manejo, entre outros. Logo após o parto, o colostro deve ser fornecido em quantidades que atendam às necessidades nutricionais e de anticorpos das recém-nascidas. Ao ser administrado em tempo hábil, o colostro garante que esse primeiro alimento seja bem absorvido pelo organismo. Depois de todo este trabalho é fundamental ter um bom manejo nutricional, sanitário e ambiental garantindo que o fruto desse esforço não se perca.

Em todo o Brasil, há uma crença de que devem ser fornecidos 4 litros diários de leite às bezerras durante a fase de aleitamento. Este “mito” surgiu baseado em uma correlação das necessidades alimentares com o peso ao nascimento, sendo 10% do peso vivo em leite. Entretanto, na prática, nunca certificamos se esse volume atende à necessidade de uma bezerra durante essa fase.

A pergunta é: o volume de 4 litros de leite está atendendo a necessidade nutricional das bezerras para que cresçam de forma saudável? Lembrando que devemos levar em consideração o percentual de proteína, gordura e lactose. Se a composição do leite varia de vaca para vaca, de fazenda para fazenda, será que esses animais não estão passando fome?

Hábitos das bezerras em aleitamento

Outro hábito comum entre os criadores em nosso país, principalmente de rebanhos mestiços, é desmamar as bezerras aos 60 dias de idade. Mas, se a quantidade de alimento fornecido durante todo esse tempo foi insuficiente, os animais estarão em condições de sofrer mais uma restrição alimentar? Aos 60 dias já foi atingido o peso ideal para o desmame?

Depois de tais questionamentos, é preciso rever nossos conceitos sobre as bezerras em aleitamento. Para isso, devemos saber qual é a exigência energética e proteica do animal nessa fase.  Diante dessa exigência, é possível saber se o volume de 4 litros, de acordo com a composição média do leite para proteína, gordura e lactose (boletim dos laticínios), atende à demanda nutricional dessa categoria.

As exigências nutricionais devem ser avaliadas em kilocal (kcal) de Energia Metabolizável por dia e em gramas(g) de proteína digestível por dia. Essa exigência varia de acordo com o peso vivo da bezerra e o ganho de peso diário que se quer atingir durante a fase de aleitamento. Veja a tabela abaixo:

Tabela 1

Exigências nutricionais de Energia Metabolizável (EM) e Proteína Digestível (PD) para bezerras de acordo com o peso vivo e 500 gramas ou 800 gramas de ganho de peso diário

bezerras em aleitamento

Energia Metabolizável (EM) e Proteína digestível (PD) para mantença e ganho de peso de acordo com o peso da bezerra. *Peso médio ao nascimento **Peso médio próximo a desmama.

De posse da exigência de energia e proteína da Tabela 1 e de acordo com a composição média do leite, é possível então avaliar se realmente nossas estão passando fome. Na Tabela 2 foi feito um simulado com fornecimento de 4 ou 6 litros de leite. Usou-se duas diferentes composições de leite recebidas do Boletim de Leite do pagamento de um laticínio.

Tabela 2

Cálculo de disponibilidade de energia e proteína de acordo com a composição do leite em dois diferentes volumes de leite (4 versus 6 litros).

Para calcular a quantidade de energia metabolizável  (EM) em 4 ou 6 litros de leite foi considerado o valor energético por grama de Proteína= 4 kcal,  grama de Lactose= 4 kcal e grama de Gordura= 9 kcal.

Outro ponto importante é saber que o consumo de concentrado de uma bezerra nos primeiros 20 dias é muito baixo. Uma bezerra recém-nascida não consome mais do que 100 gramas de concentrado por dia nesse período, já que está aprendendo a consumir este tipo de alimento. Na tabela 3 temos o consumo total de energia metabolizável e proteína digestível por dia. Eles são provenientes do consumo de leite de acordo com sua composição (simulado da tabela 2). Também temos o consumo médio de 100 gramas de concentrado nos primeiros 20 dias de idade. Por meio dos cálculos da tabela 1 e 2 podemos então certificar se existe déficit ou excesso de energia e proteína. Nesse simulado foi considerado a exigência de uma bezerra de 38 kg de peso vivo descrito na Tabela 1.

Tabela 3

Déficit ou excesso de energia, proteína e litros de leite por dia de uma bezerra de 38 kg de peso vivo ganhando 800 g/dia consumindo 4 ou 6 litros de leite.

bezerras em aleitamento

* 100 gramas de concentrado de alta qualidade possui 315 kcal de energia metabolizável e 15 g de proteína digestível. ** Para calcular a quantidade necessária de leite para suprir o déficit, foram usados valores de EM de um litro de leite que varia de acordo com a composição do mesmo.

Podemos verificar que nas duas primeiras situações (1 e 2), com o volume de 4 litros de leite fornecidos por dia, a quantidade total de alimento ingerido (leite + concentrado) não foi suficiente para suprir as exigências das bezerras tanto energética quanto proteica. Interessante, nesse caso, que mesmo o leite com alto teor de gordura e proteína (situação 2) também não conseguiu atender à demanda nutricional do animal. Importante lembrar que nessas duas situações, se o concentrado dado à bezerra for de pior qualidade. Isto significa que o concentrado tem baixo teor de energia e proteína de pior qualidade, fazendo com que essa situação seja ainda mais grave.

Ajustando o volume para pelo menos 6 litros diários (simulação 3 e 4) se adéqua o aleitamento de tal forma que é possível atender à demanda de energia e proteína das bezerras. Ou seja, os dois litros de leite a mais é exatamente o que está faltando para atender à demanda das bezerras.

Na simulação 4, onde foi considerado um leite com maior teor de sólidos, o volume de seis  litros de leite fornece a quantidade de nutrientes acima da exigência das bezerras. Neste caso é possível trabalhar até com 700 gramas de leite/dia a menos no aleitamento.  Uma excelente alternativa seria fornecer os 6 litros e desmamar os animais mais precocemente. Ainda assim, eles ficariam mais pesados e mais saudáveis do que o esquema tradicional. Com as situações mostradas acima podemos afirmar que: NOSSAS BEZERRAS ESTÃO PASSANDO FOME, SIM!

Bezerras recém-nascidas possuem requerimentos energéticos maiores para manter a temperatura corporal adequada, onde a temperatura ambiental crítica para bezerros é de 10C. Caso a temperatura ambiente esteja abaixo de dez graus, as necessidades nutricionais para mantença dessas bezerras, principalmente para manutenção da temperatura corporal aumentam, retirando energia que seria destinada ao ganho de peso para controle da temperatura do corpo. Ou seja, em estações mais frias, o requerimento aumenta, fazendo com que os 4 litros diários de leite sejam ainda mais deficitários. Este é um grande problema para regiões no Brasil onde a temperatura do ambiente cai muito no inverno.

O fato de não suprir a exigência proteica, conforme observado na tabela 3, irá interferir muito na saúde das bezerras em aleitamento, pois a proteína absorvida, principalmente do leite, é usada na formação do sistema imune dos animais jovens. Até a “construção” desse sistema imune a resistência às doenças é adquirida de uma boa colostragem até 12 horas após nascimento. Entretanto, essa imunidade que o colostro transfere não perdura para sempre e sim no máximo até 40-45 dias de idade.

Ou seja, o não atendimento da exigência proteica das bezerras durante a formação do seu próprio sistema imunológico, diminuirá a capacidade desses animais de responder às injúrias. Isso as torna mais susceptíveis a várias doenças, sendo o problema mais agravado no pós desmame. Além disso, ao desenvolver qualquer tipo de doença como diarreias e pneumonias, a exigência nutricional desse animal aumenta. Desta forma o déficit nutricional de animais alimentados apenas com 4 litros de leite, fica ainda maior.

Conclusão

É preciso quebrar o paradigma do fornecimento de 4 litros de leite. A verdade é que as bezerras estão passando necessidades em um momento de suas vidas em que já enfrentam tantos desafios. Elas são parte fundamental do sistema leiteiro e merecem o máximo cuidado para que possam desempenhar todo o potencial esperado no seu futuro produtivo. Pesquisadores americanos relatam que bezerras que bebem mais leite produzem mais leite quando vacas. A relação se mostra óbvia quando pensamos: Saúde se reflete em produtividade!

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