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Artigos Técnicos

Qual é a melhor hora para ordenhar? Veja as diferentes respostas dadas por especialistas na matéria da revista Balde Branco
Escrito em 03/01/2007 por Luiz H. Pitombo

Qual é a melhor hora para ordenhar?

Diferentes respostas foram dadas por alguns pesquisadores e técnicos que se reuniram para trocar informações e propor novas pesquisas para esta fundamental tarefa.

Com a atual obrigatoriedade do uso dos tanques de expansão e a possível flexibilidade dos horários de coleta de leite nas propriedades, a atividade de ordenha pode deixar de ser tão rígida e padronizada. A depender da condição do produtor e do seu sistema de produção, é possível pensar em outros períodos estratégicos para sua realização, em que se encontrem aliados o bem-estar do retireiro, o conforto animal, a redução de custos e o aumento da produção.

É com esta perspectiva que a Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora-MG, está propondo um amplo debate sobre o assunto, que teve seu começo num workshop realizado em setembro e que contou com a parceria da Epamig-Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais e das universidades Federal de Viçosa (UFV) e Federal de Minas Gerais (UFMG). As apresentações trouxeram dados de pesquisa, diferentes enfoques e resultados para essas questões envolvendo os horários e a freqüência das ordenhas.

Uma primeira abordagem do assunto ficou a cargo da médica veterinária Sandra Coelho, da UFMG, que tratou das alterações na glândula mamária causadas pelo intervalo e periodicidade das ordenhas. Dentre muitos fatores, ela explica que a produção de leite depende da manutenção do número das células alveolares; da capacidade de síntese do leite realizada por elas a partir da captação de precursores e da eficiência do reflexo para sua ejeção. Apesar de os hormônios terem papel destacado na lactação, a veterinária diz que, sem a remoção freqüente do leite, sua síntese não persiste.
"A secreção e a remoção do leite estão intimamente ligadas, apesar de ainda não estar bem claro o mecanismo pelo qual a produção de leite cai com o maior intervalo entre as ordenhas e cresce com a sua redução", destaca. A ampliação ou a diminuição do período entre as ordenhas acaba por alterar não só a produção de leite, como aponta a professora, mas também sua composição.

Citando uma pesquisa feita com vacas Holandesas, conta que o aumento de duas para três ordenhas acarretou num acréscimo de 3,5 kg de leite vaca/dia e no aumento da quantidade total de gordura e proteína produzidas, embora com queda em seu percentual. Já na redução no número de ordenhas - de três para uma ou de duas para uma -,  houve um aumento na concentração de gordura de 2,8%, chegando a até 6,4%, determinado pelo menor volume de leite produzido. 
 
Com base nos estudos que consultou, diz que intervalos entre ordenhas maiores que 12 horas resultam numa diminuição na captura de nutrientes e alterações nas junções celulares, trazendo queda na produção. Desta maneira, considera que este seria o período máximo ideal entre as ordenhas. Mas também pondera que o aumento de produção, obtido com mais ordenhas, pode ficar inviabilizado pela mudança nos horários de trabalho e maior demanda de mão-de-obra.

O custo da alimentação deve ser igualmente considerado, já que mais ordenhas irão requerer mais do animal e de sua nutrição. Além disso, também será preciso ver a capacidade da sala de ordenha, gastos extras com materiais, manutenção, eletricidade, dentre outros. Também irá significar menos tempo para as vacas se alimentarem e descansarem.

Supressão de ordenhas - Este foi o enfoque da apresentação do pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Oriel Fajardo de Campos. Tal qual a professora da UFMG, ele mostrou resultados de pesquisa com vacas Holandesas, que identificaram incrementos de produção de leite com o aumento no número de ordenhas, de duas para três, mas com redução na concentração de seus constituintes. Também foram identificados efeitos na reprodução com maior número de dias de serviço das vacas, intervalo entre partos, serviços por concepção, descarte de animais e crescimento na contagem de células somáticas.

Por outro lado, comentou que em sistemas de produção da Nova Zelândia e Irlanda, que se valem de menos insumos, a realização de uma só ordenha ao dia, durante toda ou parte da lactação, tem sido apontada como uma alternativa interessante. Como os produtores de leite tem sido levados a cortar custos frente a resultados financeiros menos compensadores, Fajardo diz que poderia ser vantajoso, quer do ponto de vista econômico, como social, caso não se ordenhasse os animais um dia por semana, de preferência aos domingos.
"Isto permitiria redução de custos com mão-de-obra, energia elétrica, desgaste de equipamentos, além de se proporcionar maior tempo de lazer aos funcionários", avalia. Mas adverte que o procedimento pode acarretar em menor produção dos animais. O pesquisador mostrou estudos feitos em diferentes países e raças envolvendo a supressão de ordenhas só no início da lactação, ao seu final e durante todo este período. Dentre eles, se encontra um realizado no Campo Experimental Santa Mônica, em Valença-RJ, pertencente à Embrapa Gado de Leite.

Nele, foram utilizadas 90 vacas Holandês x Gir acompanhadas por 28 semanas, sendo alocadas em diferentes tratamentos a partir dos 14 dias de produção. Um grupo de animais, o de controle, foi ordenhado duas vezes ao dia, todos os dias; num segundo grupo, as vacas deixavam de ser ordenhadas só no domingo à tarde, e um terceiro não era ordenhado durante todo o domingo. Os animais foram mantidos a pasto, com suplementações de acordo com a produção e também durante o período seco.

Os resultados estão nas tabelas 1 e 2. Nesta última, vale observar que, quando as vacas deixam de ser ordenhadas durante todo o domingo, no dia seguinte, a produção se eleva, reflui na terça para retomar ao seu patamar na quarta. Mas quando os animais não são ordenhados só no domingo à tarde, também existe um incremento de volume na segunda, mas que volta ao normal já na terça.

Em suas conclusões, considerando esta e outras pesquisas, Campos destacou alguns aspectos. A supressão da ordenha em um dia completo, quer no início da lactação, no seu final ou durante toda a lactação, traz perdas significativas na produção e nos constituintes do leite. Já a não realização de uma ordenha num certo dia da semana não traz impacto significativo na produção, nos constituintes do leite, na contagem de células somáticas e nos casos de mastite clínica. Nesta situação, houve igualmente um ganho na condição corporal das vacas.

A supressão de uma ordenha, ou de todo um dia, não altera significativamente a processabilidade do leite e, como já foi indicado, existe tendência de aumento das concentrações de gordura, proteína, mas com redução da lactose. Em relação à CCS, com a ausência da ordenha num dia todo, indica que a tendência é aumentar seu número, um efeito que parece depender da contagem ao início deste procedimento.
Por fim, como acontecem variações no efeito de uma só ordenha ao dia entre grupos genéticos e animais dentro de um mesmo grupo, diz que isso sugere que pode ser efetiva a seleção de animais neste sentido. Para o pesquisador, em rebanhos de média e baixa produção, a supressão de uma ordenha no domingo à tarde pode ser vantajosa pela maior satisfação do retireiro e economia gerada.

"Se eu fosse produtor, faria essa tentativa. Já existem dados de pesquisa, e o pecuarista pode escolher e fazer sua avaliação financeira". Ele comenta que, na Embrapa, economistas estão se debruçando nestas análises e que, oportunamente, divulgarão os resultados. Com animais de maior produção, Fajardo diz que se pretende fazer estudos na Embrapa, avaliando rebanhos holandeses puros na faixa de 20-30 kg/dia. Mas lembra que a prática já tem sido adotada na Nova Zelândia, por causa da redução de gastos.

Mais tarde e mais cedo - Retardar o horário da primeira ordenha para as 8 horas da manhã e verificar seu impacto na produção foi o estudo apresentado por Maria de Fátima Pires, da Embrapa Gado de Leite, que coordenou o workshop. Como os bovinos possuem picos de pastejo ao nascer e por do sol, para fugir do estresse térmico, a intenção principal da pesquisa era proporcionar um maior tempo de acesso ao pasto no período matutino, beneficiando a produção e, depois, num horário que não fosse tão cedo para os retireiros, como o das 3 horas, considerado o mais indicado, pela pesquisadora, do ponto de vista do animal.

Dois lotes de 27 vacas Holandês x Gir de uma fazenda comercial com média em torno de 11 kg de leite/dia foram utilizados na avaliação, em que os horários de ordenha foram os das 6 e 15 horas para um grupo, e das 8 e 17 horas para outro. Após 21 dias, aconteceu a inversão dos horários entre os lotes. Os resultados mostram que houve um ganho na produção de 0,5 kg de leite/vaca na ordenha tardia da manhã e na produção total do dia. Acredita-se que se fossem animais de produção mais elevada, também teria havido um acréscimo na parte da tarde. Mas para haver comprovação definitiva do benefício, Maria de Fátima diz que novos estudos devem ser realizados.

Um outro relato de alterações nos horários e freqüência das ordenhas foi apresentado por José Reinaldo Ruas, da Epamig. Ele explicou que na Fazenda Experimental de Felixlândia, vacas F1 Holandês x Zebu com produções diárias acima de 8 kg/dia são   ordenhadas duas vezes ao dia, e as abaixo deste volume, apenas uma vez. Isto acontece, pois, segundo o pesquisador, com este nível de produção as vacas não respondem tão bem com o incremento de volume, quando se parte para duas ordenhas.

Em relação aos horários, as ordenhas são realizadas às 6 e às 14 horas. No entanto, até julho deste ano, um horário alternativo acontecia nos finais de semana, com a primeira ordenha acontecendo às 4:30, e a segunda, às 12 horas, visando melhorar a qualidade do trabalho, pois os retireiros voltavam para casa mais cedo. A mudança não trouxe nenhuma influência negativa na produção, mas foi interrompida em função de pesquisas que estão em andamento e que poderiam sofrer alguma interferência.

O workshop também contou com a apresentação de informações da Fazenda Calciolândia, região de Arcos-MG, voltada à seleção de Gir leiteiro. Jordane José da Silva, seu gerente, mostrou dados de um teste feito a alguns anos atrás quando se antecipou a ordenha das 5 horas da manhã para as 4 horas e para as 3 horas, visando oferecer um período maior de pastejo aos animais nas primeiras horas do dia. As ordenhas da tarde eram realizadas, nos dois primeiros casos, a partir da 14 horas, e no último, às 15 horas.  Naquela ocasião, as vacas Gir estavam rendendo 7,2 litros de leite/dia e as mestiças (receptoras) 6,5 litros/dia, e as produções se mantiveram. Como não houve ganho e a antecipação dos horários da manhã apresentavam dificuldades aos retireiros, se passou a adotar o horário da 5 e 15 horas.

Mas para diminuir o estresse dos trabalhadores, o gerente da Calciolândia considera que no seu caso o caminho é dispor de duas turmas de retireiros. Para isso, conta que aumentou a quantidade de vacas em ordenha para compensar os gastos, o que foi testado com dificuldade pelo manejo dos bezerros levados até as vacas na ordenha.

Atualmente, Silva conta que a adoção de duas turmas está se tornando viável, pois se atingiu melhorias na produção das vacas, atribuídas ao avanço da seleção e alterações de manejo. As vacas Gir estão rendendo na faixa de 13-15 kg de leite/dia, e as F1 receptoras, na faixa de 10-11 kg/dia, em duas ordenhas, passando a compensar a existência de mais retireiros e com um número não tão elevado de vacas. Também se pretende testar a ordenha mecânica, em que menos homens podem fazer a tarefa.

Ao final do encontro, dada a carência de informação ainda existente, as entidades participantes decidiram montar um projeto de pesquisa no qual se verificará mais a fundo a interferência na produção de vários horários de ordenha, por exemplo, um padrão às 6 horas, um mais cedo, às 4 horas, e outro mais  tarde, às 8 horas. Também se pesquisará, junto aos retireiros, o seu grau de conforto em função dos diferentes horários.

TABELA 1
EFEITO DA SUPRESSÃO DE UMA OU DE DUAS ORDENHAS NUM DIA DA SEMANA SOBRE DURAÇÃO DA LACTAÇÃO (DIAS), A PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (KG/ANIMAL), A COMPOSIÇÃO DO LEITE (%), A PRODUÇÃO DE CONSTITUINTES DO LEITE (KG/ANIMAL), E A CONTAGEM DE CÉLULAS SOMÁTICAS

 
 a b c Médias na mesma linha, seguidas de letras diferentes, diferem entre si (P<0,05), pelo teste de Tukey


TABELA 2
EFEITO DA SUPRESSÃO DE UMA OU DE DUAS ORDENHAS NUM DIA DA SEMANA SOBRE A PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (KG/ANIMAL), NOS DIFERENTES DIAS DA SEMANA

 
 a b c Médias na mesma linha, seguidas de letras diferentes,
 diferem entre si (P<0,05), pelo teste de Tukey

Artigo publicado na revista Balde Branco em novembro de 2006. Conheça e assine Balde Branco!


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Comentários

geraldo magela ribeiro de souza - 01/08/2010
geraldo magela ribeiro de souza
Prezados Senhores, 1. Boa tarde! 2. Gostaria de saber se a alteração dos horários de ordenha, respectivamente, de 06:00h para 08:00h e de 14:00 para 17:00, manhã e tarde, poderia influenciar na produtividade dos animais. Grato, Magela
Equipe ReHAgro - 28/01/2009
Equipe ReHAgro
Tânia, Segundo o nosso consultor em pecuária de leite, Hudson Costa, se você ordenha duas vezes ao dia e pretende diminuir a frequência, irá observar queda na produção de leite.
Tânia Kita - 26/01/2009
Tânia Kita
Gostaria de saber qual o impacto na produção de leite, se se ordenhar o rebanho apenas uma vez ao dia e essa ordenha seja feita no período da tarde, depois de meio-dia. Obrigada.
ROBERTO VITAL -
ROBERTO VITAL
Achei interessante a pesquisa, principalmente do ponto de vista dos retireiros fazendo apenas uma ordenha aos domingos. Ainda que haja uma perda na produção, resolve o problema do descanso. Tenho uma produção de 200 kg/dia com bezerro ao pé e pretendo fazer somente uma ordenha ao domingo. Como fazer com os bezerros novos? Se apartar mais tarde não vou criar outro problema?
ícaro nóbrega -
ícaro nóbrega
Oi, gostaria de saber se a ordenha pela manha, quando o sol ainda esta nascendo, e pela tardem quando esta se pondo, tem a ver com a produção de lactose?