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Palma forrageira na alimentação de vacas leiteiras: uma excelente opção para o semi-árido

Nos últimos anos, a produção de leite na região Nordeste vem se destacando no cenário nacional, sendo considerada por alguns especialistas a nova fronteira do leite no país (Reis Filho, 2010). Entre os anos de 2005 e 2008, o Nordeste apresentou o segundo maior crescimento do país, ficando atrás apenas da região sul, tendência que se mantêm nos dias atuais (Gráfico 1). As adversidades climáticas, marcadas por má distribuição de chuvas e falta de grandes áreas adequadas à agricultura, restringem a utilização da terra, sendo a pecuária uma alternativa de menor risco.

No contexto da produção de leite, existe, nesta região, um grande potencial para a produção de alimentos, principalmente devido às altas temperaturas e luminosidade durante grande parte do ano, o que favorece crescimento de forrageiras tropicais. Somado a isso, em localizações específicas, os recursos hídricos estão disponíveis em abundância e a utilização da irrigação se torna uma opção promissora para a região.

palma-forrageira-na-alimentacao-de-vacas-leiteiras-uma-excelente-opcao-para-o-semi-aridoFonte: IBGE (PPM, 2009)

No entanto, grande parte da produção ainda está concentrada em áreas do semi-árido, que hoje corresponde a 53% do território do nordeste. Esta região é caracterizada pela irregularidade de chuvas, com precipitações anuais médias que giram entre 500 e 1000 mm, com grandes extensões abaixo de 700 mm, inviabilizando ou comprometendo a produção de forragens ou grãos (Lira, 1981).

Diante desta realidade, surgem alguns questionamentos: Conseguimos manter boas médias de produção por vaca ou por área, em regiões onde a cana-de-açúcar ou o milho para silagem não se adaptam às condições climáticas? Nestas condições, não existiria uma dependência por compra de grãos que inviabilizaria os projetos? É possível produzir leite de maneira competitiva nestas regiões?

A resposta é sim! Exemplos disso estão nos números de produtividade de rebanho alcançados em estados como Alagoas e Pernambuco, que evidenciam o potencial destas regiões (Tabela 1). E com certeza, um dos grandes diferenciais está na utilização da palma forrageira na alimentação dos rebanhos.

Tabela 1 – Comparação de Pernambuco e Alagoas em relação a outras áreas produtoras de leite do Brasil, 2001 / Fonte: Embrapa Gado de Leite (2003)

 

Origem da utilização da Palma no Brasil

As primeiras espécies de Palma foram trazidas do México pelos portugueses, com o objetivo de ser utilizadas como criatório de colchonilhas para a produção de corante natural. Em 1818, foi introduzida no semi-árido, onde começou a ser utilizada como alimento para ruminantes. A partir da percepção a campo do potencial deste vegetal, no final da década 50 iniciaram-se as pesquisas relacionadas ao manejo agronômico da palma. A partir daí, centenas de trabalhos vem identificando, nos últimos anos, o real potencial deste alimento e seus benefícios econômicos e produtivos para a pecuária no semi-árido. Nos dias atuais, duas espécies são amplamente difundidas e utilizadas em várias regiões do nordeste brasileiro: a Opuntia ficus-indica (Palma redonda e Gigante) e a Nopalea cochenillifera (Palma miúda).

Palma gigante (Opuntia ficus-indica)

Palma Miúda ou doce (Nopalea cochenillifera)

Potencial da palma forrageira na alimentação de vacas de leite

Quando se fala em alimento de alta qualidade para vacas leiteiras, temos como referência os volumosos tradicionalmente utilizados em várias regiões do Brasil, como a cana-de-açúcar, Silagem de Milho e Silagem de Sorgo. E qual seria o grande diferencial destas forrageiras? O grande potencial de produção de matéria seca e energia por hectare, além da boa disponibilidade dos seus nutrientes.

Surpreendentemente, a palma apresenta todas estas características e com o grande diferencial de estar muito bem adaptada às condições climáticas do semi-árido, graças aos seus mecanismos fisiológicos que a tornam muito menos dependente de água. Em situações de manejo intensivo, a palma forrageira pode alcançar produtividades de matéria seca e de energia por hectare ainda maiores do que a cana-de-açúcar e a Silagem de Milho, se tornando uma opção de alimento muita estratégica em algumas regiões (Tabela 2 e 3).

Tabela 2: Produção de NDT para Milho, Sorgo e Palma Forrageira. Dados médio.

Produtividades conseguidas em São Bento do Una no Agreste Pernambucano. Milho (27 ton/hectare), Sorgo (33 ton/hectare)e Palma (100 ton/hectare). Fonte: Adaptado de Ferreira (2005)

Tabela 3 – Comparativo de produtividade por área de Matéria Seca e energia (CNF-Carboidrato Não Fibroso) da Palma Forrageira e outros Volumosos utilizados no Brasil

Na tabela 2, estão evidenciadas produtividades e teores de matéria seca do milho muito abaixo da atual realidade de algumas regiões do Brasil. Isso ocorre devido à instabilidade de chuvas em algumas regiões do nordeste, como, por exemplo, a de condução do experimento, tornando o milho uma cultura de risco e comprovando a importância da palma e sua adaptabilidade às regiões de seca.

A importância da palma na diminuição dos custos alimentares

Em tempos onde o preço dos insumos alimentares como milho, soja, casquinha de soja e polpa cítrica apresentam variações constantes e são extremamente dependentes do mercado (commodities), um dos grandes desafios é conseguir fornecer ao animal o nível adequado de energia (CNF) na forma de amido ou outros constituintes, sem que o custo da dieta extrapole o orçamento e as metas de margens de lucro da propriedade. Dentro deste contexto, a palma tem papel fundamental, uma vez que sua inclusão diminui a dependência de concentrados energéticos, além de seu custo de matéria seca ser menor do que outros alimentos, contribuindo significativamente na redução das despesas com alimentação (R$/Litro de Leite).

Tudo isso é possível pelo fato da palma, apesar de ser considerada um volumoso, apresentar, em sua constituição, grande porcentagem de carboidratos não fibrosos (CNF), constituído por açucares, amido, ácidos orgânicos e pectina, que são rapidamente disponibilizados para a fermentação ruminal.

Para se ter uma idéia, comparativamente, a palma apresenta 80% do valor nutricional do milho grão (Lima et al., 1981), tendo o custo de matéria seca 8 a 10 vezes menor (Tabela 4 e 5) .É como se tivéssemos na propriedade um alimento semelhante à polpa cítrica, com custo de aproximadamente 80 a 100 reais a tonelada de matéria seca. É ou não é um bom negócio?

Tabela 4 – Custos de Produção por tonelada de Matéria Natural da Palma Forrageira cultivada em sistema intensivo e extensivo / Adaptado de Suassuna (2009)

Tabela 5 – Custos da Matéria Natural (MN) e Matéria Seca (MS) de Palma em comparação a outros forragens utilizadas em propriedades leiteiras

 

Utilização de palma na dieta de vacas: Quais cuidados devemos tomar?

  • Fornecer uma fonte de fibra na dieta (Balancear FDN)

Apesar de ser considerada uma forragem, a palma apresenta características de um alimento concentrado, com baixo teor de fibra (FDN de 26%), alto conteúdo de carboidrato não fibroso (58,5% de CNF), além de pouca capacidade de estimular a ruminação. Devido a isso, outras fontes de fibra devem ser adicionadas a dieta, uma vez que a utilização exclusiva de palma pode levar a problemas como o timpanismo (empazinamento), diarréia, diminuição da gordura do leite, acidose metabólica, diminuição do consumo de matéria seca e perda de peso.

Portanto, a escolha do volumoso que deverá ser associado à palma deve levar em consideração o equilíbrio entre o carboidrato fibroso e não fibroso. Por exemplo, em dietas com bagaço de cana (rico em FDN e pobre em CNF), a proporção de palma poderá ser bem maior do que silagem de Milho e Sorgo. Da mesma forma, em dietas com grandes quantidades de alimentos concentrados, menos palma deve ser utilizada.

  • Fornecer fonte de proteína

A palma apresenta baixo teor de proteína (4,8%), necessitando de complementação proteica vinda de alimentos como soja, ureia, torta e caroço de algodão, cevada, do próprio volumoso, dentre outros. No entanto, erroneamente são utilizadas formulações comerciais com teores de proteína variando de 18 a 24%, que atendem à demanda de proteína quando é fornecida outra fonte de forragem como o pasto ou Silagens de milho e sorgo, mas que não são suficientes para atingir os requerimentos da vaca quando se utiliza a palma forrageira (Tabela 6). Na tabela abaixo, veja que os teores de proteína no concentrado quando a palma é utilizada podem variar de 28 a 37,5%. Formulando incorretamente a ração, não é possível explorar todo o potencial de palma, criando uma falsa ilusão de que ela é inapropriada para a produção de leite.

Tabela 6 – Estimativa do teor de proteína bruta na MS do concentrado, quando da associação de palma forrageira com silagem de sorgo na proporção de 50% cada

V:C (Relação Volumoso:Concentrado) , PB (Proteína Bruta), MS (Matéria Seca) / Fonte (Ferreira, 2005)

Até que quantidade de palma posso fornecer para as vacas?

Esse é um dos grandes questionamentos dos produtores que utilizam palma nos seus rebanhos. No entanto, o mais importante não é a quantidade a ser fornecida, e sim como está sendo fornecida, principalmente com relação ao consórcio com outras fontes de fibra e o equilíbrio entre carboidrato não fibroso e Fibra efetiva (FDN).

Ferreira et al. (2004) avaliou a inclusão de palma em substituição ao feno de capim Tifton nas proporções de 0; 12,5; 25; 37,5 e 50% em dietas de vacas holandesas, mantendo a proporção de alimento concentrado em 30% da matéria seca. Apesar da diminuição dos teores de gordura do leite e tempo de ruminação para as 2 maiores inclusões de palma, a presença deste alimento melhorou a eficiência alimentar, ou seja, para a mesma quantidade de matéria seca consumida, a produção de leite aumentou quando se elevou a proporção de palma dieta. A relação de Kg de leite por Kg de concentrado variou de 2,92 para a dieta com 0% de palma na dieta, para 3,80 nas dietas com 50% de palma. No entanto, foi detectada diarréia nas dietas com 50% de palma forrageira como fonte de volumoso, indicando mais uma vez a necessidade de balanceamento de fibra e certo limite para inclusão na dieta dependente da outra fonte de volumoso.

Trabalhos mostram consumo de matéria seca variando entre 1,1 a 1,8% do peso vivo para vacas em lactação, ou seja, uma vaca de 500 Kg consumiria entre 5,5 e 9 Kg de matéria seca de palma forrageira, ou um consumo entre 42 e 90 Kg de matéria natural. Nestes experimentos, mesmos com altos consumos (90 Kg de Palma), não ocorreram problemas de diarréia nas vacas. Em contrapartida, vacas que consumiram 60 Kg apresentaram algum problema, evidenciando que os malefícios causados pelo fornecimento de palma forrageira não estão relacionados ao alto teor de umidade da palma e sim ao balanceamento da dieta (Tabela 7).

Tabela 7 – Consumo de pala gigante por vacas em lactação /MC: Mistura Completa – IS: Ingredientes Separados / Fonte: Ferreira (2005)

A utilização da palma já é uma realidade em várias regiões do semi-árido brasileiro. No entanto, paradigmas, conservadorismo e falta de adoção de tecnologias inibem a expansão deste alimento para outras regiões.

O conhecimento do real potencial da palma e sua correta utilização através das adequações de fibra e proteína na dieta são de extrema importância a fim de explorar todo o potencial deste alimento.

É importante salientar que os baixos custos da tonelada são conseguidos a partir de sistemas intensivos de plantio, nos quais se alcançam produtividades maiores que 400 toneladas por hectare. Portanto, pensar que a palma é uma cactácea pouco exigente em fertilidade é um grande erro e a escolha de solos férteis, adubações (orgânica e química) e irrigação devem ser levadas em consideração, uma vez que apresentam excelente resultado.

Referências Bibliográficas:
  • Reis Filho, R. J. C; Anuário Leite em números – Ceará, 2010 – Fortaleza: Leite e Negócio Consultoria, 2010.
  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. www.ibge.gov.br;
  • Lira, M.A. Considerações sobre o potencial do Sorgo em Pernambuco. In: CURSO DE EXTENSÃO SOBRE A CULTURA DO SORGO. 1981. Brasília, EMBRAPA-DID, 1981. p 47-74.
  • Ferreira, M.A. Palma forrageira na alimentação de bovinos leiteiros – Recife – UFRPE, Imprensa Universitária, 2005.
  • Ferreira, M.A. Palma forrageira (Opuntia fícus indica, Mill) em substituição ao feno de tífton (Cynodon dactylon) em dietas de vacas holandesas em lactação. Produção e composição do leite. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 41, 2004, Campo Grande, MS. Anais…Campo Grande: SBZ, 2004.