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Duração da estação de monta para gado zebu

No trabalho com pecuária de corte em sistema de cria ou de ciclo completo (cria, recria e engorda), há uma premissa básica de manejo reprodutivo que se baseia na adoção e implementação da estação de monta. O conceito de Estação de Monta (EM) consiste em estabelecer um período para que tenhamos as ocorrências reprodutivas concentradas. Essas ocorrências são referentes às práticas de monta, como monta natural (touro – vaca), e/ou inseminação artificial. Tais práticas refletirão em parições em períodos concentrados, sendo que estes momentos coincidirão com a época de máximo crescimento natural dos pastos (período chuvoso), trazendo maior disponibilidade forrageira, com o objetivo principal de se beneficiar as matrizes paridas.

Normalmente, a estação de monta para gado zebu no Brasil Central tem duração de 120 dias. Esta duração é influenciada por fatores como a condição corporal pré e pós-parto e ao início da estação de monta, a presença do bezerro ao pé da vaca, a ordem de parto, o período de gestação do gado zebu, e, principalmente, a relação entre estes fatores.

Redução do período e benefícios

A redução da estação reprodutiva em zebuínos para períodos menores que os tradicionais de 120 dias, trazem diversos benefícios. Primeiramente, ocorre uma maior concentração de nascimentos em época ideal, na qual a qualidade e a quantidade da forragem atendem os requisitos nutricionais das matrizes (Gráfico 1), com consequente maior homogeneidade e peso dos animais à desmama. Outro benefício é a separação dos períodos de monta e nascimento quando se realiza a estação menor que 70 dias, otimizando a utilização da mão-de-obra. Porém, ao se trabalhar no sentido de reduzir o período da estação de monta é necessária a avaliação da capacidade financeira, econômica e gerencial da propriedade para que esta seja capaz de suprir os principais entraves.

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O retorno à ciclicidade de vacas paridas x duração da estação de monta para gado zebu

O retorno a atividade cíclica é um dos fatores mais importantes que determinam a duração da estação reprodutiva e está altamente relacionada ao escore de condição corporal dos animais no pré e pós-parto e ao início da estação de monta. No Gráfico 2 tem-se a indicação do percentual de ciclicidade de vacas Bos taurus (taurinas) de acordo com escore de condição corporal (escala de 1 a 9, em que 1 → Muito Magra / 9 → Obesa)

Os gráficos 3, 4 e 5 representam os dados obtidos por DIAS (1991), trabalhando com vacas de corte zebuínas. Foi analisada a relação entre o escore de condição corporal em diferentes momentos como ao parto, 60 dias pós-parto e ao início da estação de monta, influenciando no intervalo entre o parto e a primeira inseminação, no intervalo entre o parto e a concepção e na taxa de gestação ao fim da estação de monta.

Outro fator de destaque está relacionado à presença do bezerro ao pé da vaca. Diversos autores relatam a queda na atividade ovariana pós-parto em função da presença da cria. Este fato interfere na liberação de GnRH pelo hipotálamo ou diminui a resposta a este hormônio na hipófise, tendo como consequência uma supressão da liberação pulsátil de LH, que é o fator endócrino chave para se determinar a ovulação ou não do folículo dominante. Outros autores demonstraram que o efeito da sucção em vacas de corte é um dos principais fatores que afetam a duração do anestro pós-parto. Eles sugeriram que o comportamento materno é mais importante do que o ato da sucção em si para regular a freqüência de pulsos de LH. Desta forma, considerando a estreita relação mãe/cria em animais zebuínos, dimensiona-se o impacto da amamentação no retorno à ciclicidade. Veja abaixo no Gráfico 6 os dados obtidos a partir do trabalho de Resende (1993) em vacas primíparas zebuínas comparando o percentual de animais ciclando com uma amamentação por dia e em manejo tradicional (presença da cria ao pé) ao longo da estação de monta.

A ordem de parto também está altamente relacionada à duração da estação de monta. Considerando principalmente as vacas primíparas, ressalta-se que a dieta para estes animais no pós-parto deve, além de atender os requerimentos da mantença e da primeira lactação, atender aos requisitos finais de crescimento. Desta forma, dentre as categorias da propriedade, aquela que está mais submetida à queda na condição corporal, caso suas necessidades não sejam supridas, são as vacas de primeira cria. Como já descrito anteriormente, a queda na condição corporal influencia diretamente no prolongamento do anestro pós-parto, fazendo com que estes animais retomem a ciclicidade tardiamente. Este retorno tardio à ciclicidade é um dos principais entraves no encurtamento da duração da estação de monta, já que, caso estes animais não voltem a ciclar até o fim da estação reprodutiva, haverá um efeito negativo na taxa de prenhez. O gráfico 7 avalia, de acordo com MENEGHETTI et. al. (2008), a queda na condição corporal (escala de 1 a 5) de primíparas de acordo com o mês de parição.

Ao correlacionar os fatores que interferem no retorno a ciclicidade, é possível compreender o motivo pelo qual as propriedades com estação de monta no Brasil Central, a fim de obterem taxas de prenhez satisfatórias, trabalham com uma duração média de 120 dias.

Algumas ferramentas podem ser utilizadas para a redução da duração da estação de monta. Em relação à nutrição das matrizes, destaca-se que alguns trabalhos científicos concluíram que a nutrição pré-parto tem maior importância do que a nutrição pós-parto na determinação do intervalo entre parto – primeiro estro.  Já a adequada nutrição no pós-parto seria a responsável pela fertilidade dos primeiros cios manifestados. Portanto, um eficiente manejo nutricional, em que qualidade da dieta ofertada ao rebanho seja economicamente viável e adequada às exigências nutricionais das categorias envolvidas no sistema, é essencial à fertilidade.

Outro artifício técnico passível de utilização no início e durante a estação de monta está relacionado aos protocolos hormonais (por exemplo, IATF) somados ou não à restrição de amamentação. Dentre as vantagens destacam-se a indução e/ou sincronização de rebanhos de matrizes em anestro, gerando a possibilidade de inseminar um grande número de vacas paridas ao início da estação de monta, com consequente concentração de parição no início da estação de nascimento subsequente. Este agrupamento dos eventos gera a possibilidade de reduzir o período da estação reprodutiva.

A partir do conhecimento dos fatores que influenciam a duração da estação de monta, se o objetivo é atingir uma taxa de prenhez satisfatória ao sistema, aliada a uma distribuição dos partos de forma adequada, deve-se avaliar se as condições inerentes a este sistema, de modo que permitam que a duração da estação reprodutiva seja encurtada. Exemplos disso são a situação financeira e econômica da propriedade, o envolvimento dos funcionários, o manejo de pastagem e a condição nutricional do rebanho ao longo dos ciclos e a condição sanitária.

Referências Bibliográficas:

DIAS, F.M.G.N., Efeito da condição corporal, razão peso/altura e peso vivo sobre o desempenho reprodutivo pós-parto de vacas de cortes zebuínas. Belo Horizonte, MG. Escola de Veterinária, 1991. 100p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – Universidade Federal de Minas Gerais, 1991.

MENEGHETTI, M; VASCONCELOS, J. L. M. Mês de parição, condição corporal e resposta ao protocolo de inseminação artificial em tempo fixo em vacas de corte primíparas. Arq. bras. med. vet. zootec;60(4):786-793, ago. 2008.

NOGUEIRA, L.A.G., PINHEIRO, L.E.L., NORTE, A.I. et al. Involução uterina e retorno à atividade cíclica ovariana em vacas Bos taurus indicus. Rev. Bras. Reprod. Anim., v.17, p.49-56, 1993.

RESENDE, H. R. A. Efeito da amamentação e da massagem uterina sobre o desempenho reprodutivo de vacas primíparas Zebu. Escola de Veterinária da UFMG, 1993. 101p. Tese (Mestre em Zootecnia).