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Cuidados com vacas e bezerros ate o parto

Cuidados com vacas e bezerros até o parto

A criação de bezerros deve ser considerada como uma das principais atividades em um sistema de produção de leite, pois a cria de bezerros representa a possibilidade do aumento do rebanho e do melhoramento genético. Uma vez que a melhoria genética depende do descarte anual de vacas com baixa produção de leite ou com problemas reprodutivos e de casco, e sua substituição por animais jovens e de potencial produtivo mais elevado é interessante. Apesar de sua importância, a criação de bezerros é uma etapa muitas vezes negligenciada pelos produtores, devido aos custos elevados relativos ao aleitamento e mão de obra e às altas taxas de morbidade e mortalidade, sendo assim, uma atividade de alto risco financeiro.

Os bezerros têm diversas particularidades, que quando conhecidas e manejadas corretamente por técnicos e proprietários resultam em bons índices zootécnicos e animais saudáveis. Dentre essas a cura do umbigo e a transferência da imunidade passiva, representada pela boa colostragem dos animais recém nascidos, merecem destaque.

Em uma fazenda de leite, os animais mais jovens são os mais susceptíveis a doenças. Os prejuízos econômicos resultantes das doenças são grandes e representados pelas altas taxas de mortalidade da categoria, gastos com medicamentos, e com mão de obra especializada ou não, além de atraso nos objetivos dos programas de melhoramento genético. Ainda, os bezerros que se recuperam invariavelmente apresentam desempenho produtivo abaixo do desejável,quando comparados com bezerros saudáveis.

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Cuidados durante acasalamento e gestação

O primeiro passo na criação de bezerras, para que se obtenham bons animais para reposição do rebanho, é a escolha do touro a ser utilizado no acasalamento e peso ideal da novilha e da vaca ao parto. Quando estes fatores não são controlados adequadamente aumentam as chances de dificuldades no parto, resultando em abortos, bezerros fracos e perdas econômicas.

Durante a gestação é necessária atenção a nutrição e manejo adequados para bom desenvolvimento fetal, formação do colostro e boa condição corporal ao parto. No último mês da gestação as exigências nutricionais da vaca seca correspondem à produção de 3 a 6 litros de leite. Se as novilhas e vacas são mantidas apenas em pastagens, e se estas não suportam esta produção de leite, o animal irá mobilizar sua reserva corporal antes do parto para manter o crescimento fetal e para a formação do colostro. Neste caso o animal vai parir fraco e a produção de leite será comprometida.

Aproximadamente um mês antes da data prevista para o parto, a vaca gestante deve ser levada para um piquete maternidade, localizado próximo às instalações, permitindo assim, monitoramento dos partos. Este piquete deve ter boas condições de higiene, ou seja, seco, com boa drenagem e com boa cobertura vegetal. Deve oferecer, ainda, conforto aos animais, com área de sombra de 4 m²/vaca, baixa taxa de lotação (56 m2/animal) e espaço de cocho suficiente (70 cm/animal). A manutenção de condições adequadas do piquete maternidade é importante não só para a vaca, mas também para o bezerro. É de extrema importância que este nasça em um ambiente limpo e seco, para reduzir a ocorrência de infecções umbilicais e impedir que os bezerros mamem o colostro em tetos sujos de fezes, urina e barro. As bactérias, vírus e protozoários que causam diarreia estão presentes nas fezes e quando os bezerros mamam o colostro em tetos sujos eles se contaminam podendo apresentar diarreia alguns dias após o nascimento.

Figura 1. Bom piquete para maternidade

Cuidados com os bezerros após o nascimento

O parto deve ser observado e auxiliado quando necessário. É importante que o auxílio seja feito por pessoas treinadas e que cuidados com a higiene sejam sempre adotados. Logo após o nascimento deve-se observar o bezerro e, se necessário, fazer a remoção das membranas fetais, muco do nariz e boca. Nos casos de partos auxiliados, esses cuidados são ainda mais importantes, sendo necessário além da remoção das membranas fetais, secar e levar o bezerro para um local aquecido.

A cura do umbigo e a colostragem, são fundamentais após nascimento, e devem ser feitas o mais rápido possível. Toda essa atenção deve ser dada aos bezerros para aumentar as taxas de sobrevivência, minimizar a incidência de doenças e otimizar seu desenvolvimento, proporcionando um bom ambiente e condições adequadas no nascimento.

Cura do umbigo

Dos problemas sanitários que afetam os bovinos jovens, as infecções de umbigo ocupam lugar de destaque. As infecções umbilicais e suas consequências são responsáveis por altas taxas de mortalidade em bezerros e os animais que não vão a óbito, tem perdas de aproximadamente 25% no desempenho produtivo em relação a outros animais da mesma idade.

O umbigo representa a ligação da mãe com o feto durante a gestação, e é por meio deste que o feto recebe todos os nutrientes necessários para seu desenvolvimento. O cordão umbilical liga a placenta a estruturas internas do feto por meio de três vasos, sendo duas artérias, uma veia e o úraco. As artérias estão conectadas a circulação sanguínea geral do bezerro, a veia ao fígado e o úraco à bexiga. No momento do parto, devido à distensão, o cordão umbilical se rompe, os vasos sanguíneos e o úraco retraem e ficam posicionados próximo a parede abdominal, a pele que envolvia estas estruturas não retrai e forma o coto umbilical. O coto umbilical desta forma representa a porta de entrada mais importante de microorganismos causadores de doenças no recém nascido.

Figura 2. Estrutura anatômica do umbigo

O local do nascimento e de criação dos bezerros nos primeiros dias de vida é muito importante para o controle das infecções umbilicais. Este local deve ser limpo e seco para que o umbigo não esteja exposto às contaminações do ambiente. Além disso, a presença de matéria orgânica no umbigo diminui a ação do iodo, reduzindo a eficiência da cura de umbigo aumentando o risco de infecções.

A cura de umbigo é importante para proteger contra a entrada de microrganismos e por desidratar o coto umbilical, fechando gradualmente esta porta de entrada. Este procedimento deve ser realizado nas primeiras horas após o nascimento com tintura de iodo (5 a 7%) e deve ser repetido no mínimo uma vez por dia, durante três a cinco dias consecutivos, ou até que o cordão umbilical caia. O iodo deve ser aplicado sob a forma de imersão para permitir a entrada da solução no coto umbilical. Outras soluções não são recomendadas para cura do umbigo, por não conseguir efetivamente desidratar o coto umbilical fechando esta passagem.

Figura 3. Cura do umbigo com solução de iodo

A cura de umbigo mal feita, ou a não realização desta, leva frequentemente a infecções de umbigo. Estas podem se restringir a infecções locais ou causarem infecções graves em diversos órgãos do bezerro, como mostrado na figura abaixo, ou levarem até mesmo à morte por septicemia (distribuição de patógenos na corrente sanguínea). Os bezerros com inflamação do umbigo ingerem menos alimento e ganham menos peso, comprometendo seu desempenho, e também são mais susceptíveis a ocorrência de outras doenças que podem agravar o caso.

Figura 4. Complicações das infecções de umbigo

Além da cura do umbigo, é preciso incluir na rotina diária o monitoramento da ocorrência de infecções no umbigo, o que pode ser feito por exame de palpação. O umbigo saudável é macio e flexível, e o bezerro não deve sentir incômodo no exame. Quando há infecção, o umbigo pode estar com volume aumentado e firme, podendo manifestar dor ao exame, secreção no umbigo e febre. Nos casos de infecção deve ser feito tratamento orientado por um médico veterinário.

Um bom manejo do bezerro recém nascido pode reduzir a ocorrência de infecções no umbigo, assim como a ocorrência de outras doenças e sequelas que possam comprometer a vida produtiva do animal. Bezerras bem criadas e com um desenvolvimento saudável tem grandes chances de se tornarem vacas mais produtivas e eficientes no rebanho.

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