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Controle biológico da broca-do-café (Hypothenemus hampei)

Controle biológico da broca-do-café (Hypothenemus hampei)
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broca do café ampliada(Foto: Daniel Veiga)

Estima-se que a broca-do-café (Hypothenemus hampei) provoque danos na ordem de 500 milhões de dólares em todo mundo (Brun et al., 1989). O controle químico desta praga,apesar de ser o mais utilizado, não tem apresentado boa eficiência e vem causando problemas de resistência e desequilíbrio do meio ambiente. Por isso, a utilização do manejo integrado, que é uma estratégia de controle múltiplo que se fundamenta no monitoramento das populações para tomada de decisão adequada, com a utilização do controle biológico, cultural e químico torna-se uma ferramenta aliada no controle de pragas nas lavouras.

O controle biológico é um método de combater pragas agrícolas através da utilização de seus inimigos naturais, que podem ser insetos predadores, parasitoides e microrganismos (fungos, bactérias e vírus).

Os fungosentomopatogênicos são agentes de controle de inúmeras pragas, como a broca-do-café. Dentre os diferentes agentes de controle natural da broca está o fungo Beauveriabassiana, que foi observado em muitos países atacando está praga (Murphy e moore, 1990). Existem vários estudos descrevendo a eficiência de B. bassiana no combate da broca em campo, contudo, foi observado que este fungo também pode ser um aliado no controlede outras pragas como o bicudo do algodoeiro, mosca branca, broca do rizoma da bananeira, psílideo, ácaro rajado, gorgulho-da-cana-de-açúcar entre outros (Azevedo et al. 2000).

Modo de ação

O fungo B.bassiana tem um estágio de desenvolvimento conhecido como conídios, especifico para disseminação e para início da infecção. Na maioria dos casos o fungo penetra nos insetos por contato, quando viável germina sobre o inseto e por ação química e física atravessa a cutícula e penetra na cavidade geral do corpo. Posteriormente, com o objetivo de se reproduzir, o fungo atravessa o corpo do inseto e produz conídios em grande quantidade que vão ser responsáveis pela disseminação e infecção completando o ciclo. As brocas mortas pelo fungo que esporulou, ficam geralmente na coroa do fruto e com o corpo branco.

broca do café(Foto: Daniel Veiga)

A infecção ocorre via tegumento, onde a B. bassiana germina em um período de 12 a 18 horas, dependendo de fatores nutricionais. Decorridos 72 horas de inoculação, o inseto apresenta-se totalmente colonizado, ocasionando a morte do inseto, devido à falta de nutrientes e ao acumulo de substâncias toxicas liberadas pelo fungo. Sobre o inseto morto ocorre a formação de conidióforos com uma grande quantidade de conídios, que após 7 a 10 dias são liberados no ambiente podendo contaminar novos indivíduos, reiniciando o ciclo do fungo (Alves, 1998).

O fungo contamina a broca e age antes da penetração da praga no fruto de café. Gonzaléz et al. (1993) testaram dois isolados de B. bassiana sobre a broca-do-café e comprovaram a eficiência de controle com tempo médio letal para o isolado 1 de 54,72 horas e para o isolado 2 de 92,4 horas após o contato do fungo com a praga.

gráfico da mortalidade broca do café

Mortalidade acumulada e tempo médio letal (TL50) da Broca do café (Hypothenemus hampei) infectada com isolados de Beauveria bassiana. (Adaptado González et al., 1993)

Comportamento da broca

A broca sobrevive e se multiplica de uma safra para outra nos frutos remanescentes na planta ou no solo. Os machos da broca possuem asas atrofiadas e permanecem no interior dos frutos apenas para copular as fêmeas. As fêmeas vivem em torno de 156 dias e ao serem fecundadas saem em busca dos frutos para colocar seus ovos, entretanto os frutos nessa fase não apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento de suas larvas, pois as sementes encontram-se com elevada umidade (86%) condição essa não favorável. Dessa forma, a fêmea apenas realiza uma marcação nos frutos e após 50 dias quando as condições já estão favoráveis para o desenvolvimento das larvas as brocas voltam nesse mesmo fruto e realizam a postura.

As fêmeas apresentam um campo de alcance de 348 metros podendo perfurar até 25 frutos de café (Dardón; Flores, 1974), com uma capacidade de colocar 25 ovos por galeria. O horário de revoada é de 16:00 a 18:00 horas, dessa forma coincidindo com as condições de aplicação adequada para os fungos.

Condições de aplicação e manejo

A aplicação da B. bassiana é recomendada em temperaturas entre 25° a 30° C e umidade acima de 65%, preferencialmente em dias nublados. O intervalo de aplicação e a dosagem podem variar de acordo com a infestação da broca, sendo o monitoramento fundamental para a tomada de decisão.

A aplicação do fungo na lavoura utiliza o mesmo pulverizador desenvolvido para defensivos agrícolas. A calda é de 400 litros por hectare, podendo variar de acordo com as tecnologias utilizadas na aplicação, destacando a importância de se realizar uma limpeza adequada dos equipamentos antes do uso, visando a maior eficiência de calda.

Deve-se respeitar no mínimo 3 dias de carência após aplicações de fungicidas na lavoura, visto que alguns destes produtos podem atuar negativamente sobre estes microrganismos reduzindo o crescimento vegetativo, esporulação e viabilidade (Andaló, et al., 2004).

Prejuízos

Os danos aos frutos são causados pelas larvas da broca-de-café, que vivem no interior destes podendo se alimentar de uma ou das duas sementes, resultando em redução do peso dos grãos (prejuízo quantitativo), queda de frutos e interferência na qualidade (prejuízo qualitativo), visto que os orifícios depreciam o tipo do café e servem como porta de entrada de patógenos, que podem causar fermentações indesejáveis. Fato que é de grande importância, devido ao mercado estar demandando a cada dia de bebidas de melhor qualidade. Além disso, a broca do café pode acarretar em redução da produtividade, em que um café com 100% de infestação (frutos broqueados) as perdas de peso podem chegar a 21,1% ou 12,6 kg por saco de 60 kg de café broqueado (Souza et al., 2014), dessa forma afetando a lucratividade do produtor.

Vantagens do controle biológico

Dentre as vantagens do controle biológico, esse tipo de controle não proporciona resistência de pragas, apresenta menor toxicidade humana e ambiental e redução dos custos, podendo ser até 87% mais barato que alguns inseticidas convencionais. Além disso, esse controle não apresenta período de carência e não acarreta em eliminação de insetos benéficos a lavoura, o que em muitos casos é proporcionado por aplicações excessivas e inadequadas de produtos que resultam em morte de inimigos naturais, causando assim desequilíbrio de outras pragas.

Devido ao produtor rural ter disponível poucas ferramentas para o controle da broca-do-café atualmente, a utilização da B. bassiana passa ser mais uma opção no manejo das populações dessa praga, considerando os benefícios de se utilizar o controle biológico. Contudo, a utilização desse controle tem o intuito de aumentar a eficiência das técnicas atuais de controle através da utilização do manejo integrado de pragas.

Autora: Fernanda Abreu – Doutora em Entomologia
Referências:

ALVES, S.B. Fungos Entomopatogênicos In: ALVES, S.B. Ed. Controle Microbiano de Insetos/ Piracicaba: FEALQ, p. 289-381. 1998.

ANDALO, V. MOINO JR, A. SANTA CECILIA, L. V. C. & SOUZA, G. C. Compatibilidade de Beauveriabassiana com Agrotóxicos visando o controle da Cochonilha-da-raíz-do-cafeeiro DysmicoccustexensisTinley (Hemiptera: Pseudococcidae). Neotropical Entomology. 463-467. 2004.

AZEVEDO, J.L.DE, ARAÚJO, W.L.DE, MACHERONI, W.JR. Importância dos microorganismosendofíticos no controle de insetos, In: Controle Biológico, volume 3, EMBRAPA Meio Ambiente – SP, p. 58-87. 2000.

Brun, L.O., C. Marcillaud, V. Gaudichon& D. Scukling. Endosulfanresistance in Hypothenemushampei (Coleoptera: Scolytidae) in New Caledonia. J. Econ. Entomol. 82: 1311-1316. 1989.

DARDÓN, H. P.; FLORES, J. C. Habito y tempo de penetracion de la broca del café Hypothenemushampei (Ferrari) al fruto. Revista Cafetalera de Guatemala, v.147, n.1, p5-15, 1974.

GONZÁLES, M. T. POSADA, F. J. BUSTILLO, A. E. BIOENSAYO PARA EVALUAR LA PATOGENICIDAD DE Beauveriabassiana (Bals.) Vuill. SOBRE LA BROCA. REVISTA COLOMBIANA DE ENTOMOLOGIA Vol. 19 No. 4, p. 123-130. 1993.

MURPHY, S.T. & D. MOORE. BiologicalcontroloftheCoffee Berry BorerHypothenemushampei (Ferrari) (Coleoptera: Scolytidae), previousprogrammerandpossibilities for the future. Bioc. News Infor. 11:107-117. 1990.

SOUZA, J. C. D. SILVA, R. A. CUOZZO, M. D. PEREIRA, A. B. CARVALHO, T. A. F. D Broca-do-café. Informa agropecuário, Belo Horizonte, v.35, n.280, maio/jun. 2014