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Consolidação do sistema de plantio direto

Trinta anos após sua introdução em território nacional, o Sistema de Plantio Direto (SPD) consolidou-se como uma tecnologia conservacionista largamente aceita entre os agricultores. A partir do início da década de 1970, o sistema foi introduzido no sul do Brasil, com crescimento inicial  pouco expressivo, em termos de área, apresentando grande expansão a partir da década de 1990. Em  nível mundial, a área sob SPD é de 64 milhões de hectares, sendo que os Estados Unidos apresentam a maior área e o Brasil a segunda maior, com 70% da produção de grãos sob esse sistema .

Neste sistema, a palha e os demais restos culturais são mantidos na superfície do solo, sem revolvimento, havendo acúmulo progressivo de restos culturais. Áreas sob SPD exigem um manejo diferenciado, principalmente em relação à fertilidade do solo, que dependerá da variedade utilizada na rotação de culturas, da dinâmica da água no solo e da condição em relação a pragas, doenças e plantas invasoras.

No sistema convencional, além da degradação dos solos agrícolas com a formação de sulcos e  voçorocas, o solo erodido é carregado para os mananciais d’água, o que provoca o assoreamento dos rios, córregos e lagos. O sistema de plantio direto é mais econômico para o produtor por eliminar as operações de preparo do solo (aração e gradagem) e causa menos impacto ao meio ambiente, pois reduz a quase a zero o risco de erosão, por manter o solo protegido e agregado.

Principais características do SPD

Uma das características marcantes do SPD é o aumento do teor de matéria orgânica na camada superficial do solo com o decorrer do tempo de implantação desse sistema. A ausência de preparo do solo (práticas convencionais de aração e de gradagem) e a quantidade e qualidade, tanto  dos resíduos das culturas de interesse econômico em rotação ou sucessão como das plantas de cobertura ao longo dos anos, acarretam um aumento gradual no teor de matéria orgânica, notadamente na camada superficial (0 a 10 cm).

A alteração no teor de matéria orgânica, tanto em quantidade como em qualidade, tem implicações graduais nas alterações do pH, na toxidez de alumínio, na dinâmica de nitrogênio, do  fósforo e de outros nutrientes. Nos trabalhos de pesquisa de Muzilli (1983) e Sidiras e Pavan (1985), conduzidos no Estado do Paraná, foram observados aumentos significativos no teor de matéria orgânica na camada de 0 a 5 cm em um Latossolo Roxo após 5 anos sob SPD, em comparação com o sistema de plantio convencional (SPC).

O comportamento do fósforo no SPD difere, em relação ao Sistema de  Plantio Convencional (SPC), em dois aspectos básicos: o primeiro, pelo não revolvimento do  solo, quando há redução do contato entre os colóides e o íon fosfato, amenizando as reações de adsorção, o segundo aspecto é em relação a mineralização lenta e gradual dos resíduos orgânicos, o que proporciona a formação de formas orgânicas de P menos suscetíveis às reações de adsorção (Sá, 1999).

Com relação ao manejo da erosão, a  palha sobre a superfície protege o solo contra  o impacto das gotas de chuva, reduzindo a desagregação e o selamento da superfície, garantindo maior infiltração de água e menor arraste de terra. Em solos de igual declividade, o SPD reduz em cerca de 75% as perdas de solo e em 20% as perdas de água, em relação às áreas onde há revolvimento do solo (Oliveira et al., 2002).

Com o aumento da cobertura do solo, outro benefício é a diminuição da temperatura da superfície em até 4 ºC e a oscilação da temperatura do solo durante o dia também, com benefícios para o desenvolvimento das  plantas. Com uma cobertura morta de cerca de 70%, a evaporação do solo reduz-se para cerca de 1/4. Assim, a retenção de água é maior, podendo representar uma economia até de 30% de água em algumas áreas de produção irrigada ou a manutenção da produtividade em áreas de sequeiro quando ocorrem veranicos.

Além das vantagens relacionadas à fertilidade do solo, já citadas acima, o SPD apresenta vantagens econômicas e operacionais, com menor gasto de combustível, aumento da vida  útil das máquinas, necessidade de menor volume de chuva para o trabalho da terra, maior controle sobre a época de semeadura e possibilidade de economia de fertilizantes.

É evidente que a maior eficiência do sistema, refletido em termos de produtividade, vai depender da eficiência de sua implantação e das condições edafoclimáticas da região, porém, a grande expansão do Sistema Plantio Direto a partir dos anos 90 demonstra a competitividade desse sistema, que já ocupa posição de destaque no Brasil e no mundo.

Referências bibliográficas

LOPES, A. S., WIETHÖLTER, S., GUILHERME, L.R.G., SILVA, C.A., Sistema Plantio Direto: Bases para o manejo da fertilidade do solo, ANDA – Associação Nacional para Difusão de Adubos.

MUZILLI, O. Influência do sistema de plantio direto, comparado ao convencional, sobre a fertilidade da camada arável do solo. R. Bras. Ci. Solo, Campinas, v.7, n.1, p.95-102, 1983.

OLIVEIRA, F.H.T.; NOVAIS, R.F.; ALVAREZ V., V.H.; CANTARUTTI, R.B. e BARROS, N.F. Fertilidade do solo no sistema plantio direto. Tópicos em Ciência do Solo, Viçosa, v. 2, p.393-486, 2002.

SÁ, J.C. de M. Manejo da fertilidade do solo no sistema plantio direto. In: SIQUEIRA, J.O; MOREIRA, F.M.S.; LOPES, A.S.; GUILHERME, L.R.G.; FAQUIM, V.; FURTINI NETO, A.E. e CARVALHO, J.G. (eds.). Interrelação fertilidade, biologia do solo e nutrição de plantas. Lavras: SBCS, 1999. p.267-319.

SIDIRAS, N.; PAVAN, M.A. Influência do sistema de manejo do solo no seu nível de fertilidade. R. Bras. Ci. Solo, Campinas, v.9, n.3, p.249-254, 1985.